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A grande imagem da Copa da Rússia é a quebra do protocolo da FIFA! A mãe do jogador Pogna, de origem guineana, levantou a taça que segundo as regras oficiais só poderia ser tocada pelos campeões do mundo e por chefes de Estado. Não foi a única: as feministas do Pussy Riot invadiram o campo vestidas de policiais, em protesto contra as arbitrariedades de Putin e uma delas trocou cumprimentos com o astro Mbappé.

A grande novidade da Copa da Rússia foi a mulher em cena! Não apenas na cobertura jornalística, narrando partidas e até levantando a taça, mas também pautando o debate de gênero e conquistando protagonismo desde seu lugar de fala. Foi impossível ignorar as mães da seleção brasileira. No time titular de Tite, dos onze titulares, sete foram criados só pela mãe. Até que enfim, o país que ostenta taxas inimagináveis de abandono parental pode reconhecer e aplaudir a nobreza dessas mulheres que carregam famílias inteiras sozinhas em seus próprios ombros. No país em que 6 milhões de pessoas sequer tem o nome do país na certidão de nascimento, por fim ficou clara a farsa de um patriarcado sem pai. No Brasil, machismo, racismo, uma fraquíssima educação sexual de nossa juventude, e a negação sistemática dos direitos reprodutivos da mulher redundam num tipo de privilégio no qual o homem simplesmente se vê isento de qualquer responsabilidade sobre a gravidez. Filhos de mães solteiras, mães sem companheiro, mães que sustentam sozinhas em suas costas o peso de conduzir famílias inteiras, a grande maioria delas, mulheres pretas.

Pela primeira vez na história das Copas e da seleção brasileira, o protagonismo da mulher preta. Isso é uma enorme vitória delas e também nossa, porque já não são invisíveis essas mulheres e seus filhos.

Crianças e adolescentes que são a maioria dos moradores de favelas e periferias, crianças e adolescentes que foram os maiores beneficiários de políticas públicas como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida. Crianças e adolescentes, que são os mais vulneráveis à negação de direitos e que juntos de suas mães, principalmente as mulheres pretas, são hoje os que retornam à pobreza extrema no país. Vejam quanta ironia e quanto urgência em reverter o quadro, retomando a redução da desigualdade e ampliando as oportunidades. Só assim seremos realmente campeões e deixaremos de ser um país que nega direitos e abandona na miséria e no genocídio o melhor de sua juventude. É por isso que precisamos falar sobre as crianças sem pai e suas mães.

Precisamos falar também sobre os campeões do mundo, a seleção negra da França. Não se trata de um time de imigrantes. Apenas dois nasceram fora da França: o goleiro Steve Mandanda, que nasceu na República Democrática do Congo, e o zagueiro – autor do gol da vitória na semifinal -, Samuel Umtiti, em Camarões. Em sua maioria, é um time de filhos de pais que passaram pela imigração. Há descendentes de Filipinas, Mali, Mauritânia, Senegal, Argélia, Itália, República Democrática do Congo, Haiti, Angola, Camarões, Guiné, Marrocos, Togo e Martinica e Guadalupe. Uma seleção apesar com origem multiétnica que envolve 17 nações. A nova cara multicultural da França. Uma vitória da diversidade multiétnica é uma vitória de toda a humanidade.

Só na região metropolitana de Paris convivem mais de 140 nacionalidades. Com um modelo social que funciona, oferecendo segurança pública, cidadania e direitos. Até mesmo a formação dos atletas é feita com uma organização de base, com investimentos sociais na ponta e para todos. A França é um país cheio de conflitos, tensões, mas também de enormes conquistas sociais. A jornada de trabalho é de 35h semanais e ainda assim as pessoas continuam lutando por direitos. Na representação política foi implantada a paridade de gênero e todas as câmaras municipais e regionais são compostas por 50% de mulheres. Uma democracia de alta intensidade, onde todos são atendidos por um sistema público de saúde, onde a educação é pública do maternal (a partir dos 3 anos) até o ensino superior. Um país onde quem ganha muito paga muito imposto, onde há seguro desemprego por dois anos ganhando 70% do salário, onde há uma infinidade de bolsas e subsídios sociais, transporte público eficiente, bibliotecas em todos os bairros, festas culturais, museus, parques e praças que continuam sendo inaugurados.

Ninguém conquista direitos gritando gol

Mais importante do que as imagens históricas da copa, é o campeonato da existência humana em meio a uma crise social e política sem precedentes a nível mundial. Até mesmo na França, o Estado de Bem Estar Social se vê ameaçado pela investida neoliberal e o neofascismo ganha corpo político provocando tensões. A vitória da seleção francesa coincidiu também com a festa nacional do 14 de julho. Pelo menos 845 carros foram incendiados e 508 pessoas detidas nas noites de 13 e 14 de julho segundo o Ministério do Interior. O número de carros queimados caiu em relação ao ano anterior, quando se registrou 897 veículos afetados. O número de pessoas presas saltou de 368, em 2017, para 508, este ano.

Aqui no Brasil, é decisivo a partir de agora saber que ninguém conquista direitos gritando gol e focar no close certo, no campeonato que realmente pode mudar nossas vidas.

Nas eleições de outubro precisamos não só assegurar visibilidade e lugar de fala, mas também conquistar representatividade, impedindo a redução de direitos que é o projeto das elites, do capital financeiro, da mídia e do empresariado nacional. Depois do golpe e com o país mergulhado no Estado de Exceção, é fundamental reconhecer que já não vigora a Constituição, portanto, não há mais legalidade e tudo o que nos resta é a luta política.

É decisivo saber que as questões identitárias, a diversidade cultural, étnica e de gênero não são só bandeira de luta, mas também parte indissociável do modo como vemos o mundo. Uma nova matrix, o novo normal. Essa revolução cultural que já empoderou os invisíveis precisa de materialidade institucional e política. É fundamental a conquista de poder político por sujeitos e coletivos que sempre foram sub-representados, apesar de serem a base da pirâmide social. Por isso mesmo essas lutas não podem mais ser vistas como setoriais ou de coletivos específicos, justamente porque são estruturantes. A hora para conquistar representatividade política e assegurar direitos é agora. Até mesmo na Copa do Mundo, as mulheres, as mães solteiras, as feministas, os negros, os imigrantes e os pobres já conquistaram seu lugar de fala e se tornaram protagonistas.

Nunca mais seremos silenciados. Nunca mais seremos invisíveis. Consciência é revolução, por isso mesmo, só nos resta ocupar o poder!

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