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Todos, independentemente da opinião que têm sobre este ou aquele político ou partido, precisam parar, respirar fundo e recompor suas posturas e comportamentos, sem precisar abrir mão de suas opiniões, antes que seja tarde demais para o convívio entre diferentes. Ter uma visão crítica sobre os acontecimentos — mesmo sobre aqueles que vão ao encontro das suas opiniões – é fundamental neste momento.

Ao longo desse conturbado processo político que o Brasil vive, pelo menos desde 2013, um fenômeno perigoso tem sido o protagonista: o discurso de ódio. Ele emergiu das profundezas para se tornar o principal ingrediente da acirrada disputa entre dois projetos antagônicos de país, de sociedade.

O discurso de ódio é aquele que ataca de forma deliberada setores da sociedade, aprofundando preconceitos e induzindo a intolerância a partir da inferiorização, da criminalização de grupos específicos – mulheres, negros, índios, comunidade LGBT, por religião, ideologia, nacionalidade.

Esse ódio social, cultural, político, econômico que é gestado em situações particulares da conjuntura política é o gérmen do fascismo. E, infelizmente, é isso que estamos vivendo neste exato momento no Brasil.

Quando o discurso de ódio ganha escala e é de alguma maneira chancelado e até estimulado por grandes meios de comunicação de massa, o que se produz em consequência é a proliferação desse ódio, contaminando o tecido social até que o ódio discursivo se materialize em violência.

Isso ocorreu porque os meios de comunicação de massa, ao adotarem de forma explícita uma posição na disputa política, deixaram de fazer jornalismo para informar, e passaram a construir um discurso para validar sua posição.

Para isso, a mídia utiliza uma narrativa cujo objetivo é causar indignação nas pessoas. E quando se manipula a informação com o intuito de gerar medo, raiva, indignação ou empatia, a discussão perde objetividade. Ela deixa o campo racional da opinião e passa para o campo da emoção, das paixões. Então, não há mais espaço para mudar de opinião, porque na verdade não há uma opinião a ser debatida, o que há é uma crença, é uma paixão por este ou aquele representante, este ou aquele argumento, esta ou aquela posição. Não importa mais se é verdade ou mentira, se é razoável ou não, o que vale é se vai derrotar meu “inimigo” ou favorecer meus “aliados”.

A mídia transformou a discordância contra a Dilma e o PT em ódio. Os opositores passaram o odiar o PT, odiar a Dilma, a odiar o Lula. Ou você que seguiu a leitura deste texto até aqui e discorda do PT nunca se referiu a Lula, Dilma e ao PT com o adjetivo ódio? Esse ódio pavimentou o impeachment e criou um ambiente fértil para o surgimento dessa violência que estamos vivendo.

A medida que vão se plasmando essas paixões, elas são reverberadas e potencializadas em redes sociais. Nas redes, uma falsa noção de impunidade permite que o discurso de ódio aumente de tom, se transformando explicitamente em ameaças, xingamentos, acusações. Numa espécie de vitamina para a violência.

Uma vez consolidado dois campos de guerra, os de camisa verde e amarela e os de camisa vermelha, os coxinhas e os petralhas, e por aí vai, a intolerância e o ódio transbordam para a violência física. Além disso, posturas autoritárias ganham força nesse ambiente.

E, desde 2013, o principal porta-voz desse discurso de ódio e dessas posturas tem sido Jair Bolsonaro. O militar da reserva se orgulha de fazer apologia a torturadores, não cansa de tecer elogios ao regime militar e às Forças Armadas, defende abertamente a liberação do porte de armas, tem atacado deliberadamente direitos humanos, reiterando preconceitos contra pobres da periferia, negros, LGBTs, mulheres e estimulado o ódio contra ativistas de esquerda, falando sem pudor que é preciso exterminar essa gente.

Seus discursos jogam combustível num ambiente político já em chamas.

Pessoas vestidas de vermelho são agredidas nas ruas, tiros foram disparados contra os ônibus da Caravana Lula pelo Brasil em Santa Catarina, aumentam as agressões e violência nas manifestações, cresce a repressão policial, aumentam os casos de assassinatos políticos como o de Marielle Franco e Anderson, comunicadores sociais e jornalistas são assassinados e, infelizmente, um candidato a presidência da República é esfaqueado.

E a mídia já está aproveitando esse caso para seguir essa linha de cobertura emocional, acusando setores políticos sem prova e transformando Bolsonaro num mártir. A falta de equilíbrio informativo dos meios de comunicação de massa está se transformando num perigo real para a democracia.

Está escancarado que ou fazemos alguma coisa, ou vamos continuar caminhando numa estrada que vai nos levar para o abismo autoritário do fascismo. Nós já estamos nela, vale dizer. Mas ainda é possível fazer o retorno.

Para isso, é preciso recompor de forma democrática as instituições. É preciso parar de disseminar o ódio como argumento político. A fragilidade do Estado Democrático brasileiro não comporta golpes na soberania popular. O impeachment de Dilma Rousseff sem crime de responsabilidade conforme previsto na Constituição — o que já é abertamente reconhecido por setores que apoiaram a deposição — nos colocou nessa estrada.

Não se derruba uma presidente “pelo conjunto da obra”, não se retira um governante de um posto porque ele foi eleito por pequena vantagem de votos. Não se depõe um presidente por baixa popularidade ou porque um setor da sociedade – por maior que ele seja – acha que seu governo está sendo péssimo para os seus interesses ou para o país. O lugar de fazer isso é depositando o voto nas urnas.

E vamos às urnas em menos de 30 dias, com o líder das intenções de voto preso sem provas, num processo político conduzido por um juiz que não tinha isenção para estar à frente do caso, com o segundo colocado nas intenções de voto esfaqueado, um Supremo Tribunal Federal totalmente capturado por interesses e sem capacidade de cumprir o seu papel de defender a Constituição, uma sociedade contaminada pelo ódio e pela intolerância e que ficou cega a qualquer argumento, e com setores das Forças Armadas assanhados para assumir um protagonismo nesse processo.

O Brasil passa por uma de suas mais agudas crises institucionais desde a proclamação da República. A responsabilidade do povo neste momento é gigante. Temos que a qualquer custo garantir a realização das eleições, impedir que qualquer tipo de arbítrio retire o direito inalienável do povo de decidir os rumos do país. Temos que ir às urnas de forma mais consciente, compreendendo que não há solução para os conflitos e para o país fora da política. Que diferentemente do que pregam a mídia e o senso comum, os políticos não são todos iguais. Que se nós, o povo, abrirmos mão de participar do processo político – ainda que seja apenas na forma do voto — outros o farão em nosso nome.

Por isso, temos que fazer um esforço individual e coletivo para dialogar, para que a diferença e a divergência permaneçam no campo racional. Não vamos deixar que o ódio abra o caminho para o fascismo. No pasaran!

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