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Conheço o Rennan não é de hoje, momento em que ele é conhecido no Brasil e em algumas partes do mundo. Mas sim de rodas de amizades nossas, das antigas. Aquelas que quando se reúnem, fazem questão de lembrar coisas como: “lembram do Rennan tocando nas festas e bailes, várias horas, para ganhar 50 reais.” E a gente ri e fica feliz em ver onde ele chegou hoje, algo que talvez nem ele e nenhum de nós pudéssemos imaginar.

Eu quero muito falar do Rennan.

Mas antes, eu quero falar, também, sobre bailes de favela!

Sim, BAILES DE FAVELAS.

Esses que são extremamente criminalizados, assim como tudo dentro de FAVELAS, onde ao longa da nossa história os endereços são criminalizados, os corpos são criminalizados e a vida é criminalizada. Resultantes de uma sociedade preconceituosa, racista e extremamente desigual, que há anos tentam criminalizar também o FUNK.

OS BAILES FUNKS acontecem na maioria das favelas. E em temporadas, alguns sempre se destacam, como hoje em dia é o caso do Baile da Gaiola. A questão real é que, num local onde a principal política pública que chega, vem pela mira do fuzil da polícia, tendo a violência como investimento de estado, este ao invés deste se preocupar que nas favelas as escolas estão sucateadas, os postos de saúde estão sucateados, as áreas de esporte e lazer estão sucateadas, o saneamento básico está sucateado, as áreas para realização de eventos culturais estão sucateadas ou nem existem, que não há qualquer investimento de impacto transformador real para essas áreas, a máxima que o estado consegue fazer é perseguir o baile funk? Perseguir DJs?

Um final de semana de #BailesFunks faz circular muito a economia da favela, pois vejam só: a pessoa que trabalha como moto-táxi tem mais fluxo de passageiros e passageiras. As lanchonetes passam a ter mais fluxo de clientes consumindo. Salões de beleza aumentam e muito o fluxo de pessoas que vão utilizar os serviços de estética, além também das lojas de roupas, que vendem muito mais.

Ainda tem aquelas pessoas que desempregadas e passando por alguma situação difícil, fazem um corre e colocam seu isopor para vender alguma bebida no meio do evento e levantar uma grana extra. Além dos muitos bares e comunidades de “barraqueiros” as pessoas que colocam barracas em diferentes eventos pela cidade, que vivem disso.

E por final, ainda surgem muitas pessoas da sobrevivência através da reciclagem, catando latinhas, garras de vidro, garrafas pet, para vender ao ferro velho no dia seguinte.

E obviamente que sim, a boca de fumo também deve vender bem.

Só que, a questão aqui é bem simples!

Não é o DJ que está vendendo, não é o fato de ter o baile ou não que vai fazer isso acabar, mas sim, garantia de direitos básicos para as pessoas, construção de incentivo que façam emanar novas perspectivas e assim, oportunidades através da escolha e não da sobrevivência.

O lance é que privilégio não aceita e se dói quando surge um cara que vira referência para uma geração inteira, não pela ilegalidade de algumas realidades existentes no contexto de um país corrupto e sem políticas públicas inclusivas, mas sim, de microfone na mão, um fone no ouvido e um equipamento de áudio na sua frente.

Rennan da Penha, que traz no nome o seu lugar, o Complexo de onde é cria, tem ocupado todos os espaços midiáticos de forma positiva, levando consigo a favela e o fortalecimento de uma parte da cultura daqui, que é o FUNK, colocando-o no topo das paradas.

Este é o mesmo rapaz que agora se encontra nas páginas dos jornais, perseguido exatamente por expandir o nome de uma da favela por todo o país. Por ser um dos responsáveis de levantar o FUNK 150 bpm para o mundo, criminalizado, por ganhar fama e dinheiro, sem ser a partir dos estereótipos que a sociedade racista coloca em quem vive nas favelas.

Hoje o artista, empresário e produtor cultural Rennan da Penha, tem uma equipe direta de 30 pessoas que trabalham com ele. Ser preso, mesmo depois de inocentado em primeira instância é um ato covarde não só com ele, mas com muitas pessoas mais. E é um fato político de perseguição, preconceito e racismo.

Dentre os vários absurdos deste triste dia, consta na acusação, as declarações de uma testemunha que diz que o Dj Rennan é “olheiro do tráfico”.Mas agora eu pergunto:

COMO PODE SER OLHEIRO DO TRÁFICO, UM CARA QUE VIVE RODANDO PELAS CIDADES DO BRASIL, APRESENTANDO SEU TRABALHO?

Sem contar que ainda ressuscitaram, inclusive e vergonhosamente chamando de “grosso calibre” … fotos e vídeos do Rennan segurando uma arma feita com madeira e fita isolante, no extinto carnaval de rua da Estrada do Itararé, aqui nos acessos do Complexo do Alemão, onde era DJ naquela época.

Em outro momento, uma testemunha de acusação diz que “ele passa informações para o tráfico e posta nas redes sociais a localização da polícia”. Gente, então ferrou. GERAL NA FAVELA faz isso. Acontece no meu grupo de família. Acontece nos grupos das escolas, onde estão mães, professoras, alunos e alunas. Acontece nos grupos dos postos de saúde. Acontece nas páginas dos movimentos sociais das Favelas e Periferias.

Comunicar que a polícia está subindo por tal rua e pedir para que moradores e moradoras evitem tais localidades naquele momento, é simplesmente dizer: NÃO PASSE ALI, PARA NÃO MORRER OU SER GRAVEMENTE FERIDO/A! Isso é utilização estratégica das tecnologias de comunicação para garantir redução de danos, segurança e A VIDA das pessoas.

É muito errado, cruel e covarde o que está acontecendo. É racista, preconceituoso e político. Esse cara não merece isso novamente, tendo sido inocentado pelos mesmos fatos no passado. EU MESMO FUI DEPOR. E tenho acompanhado sua ascensão, que acontece sem perder as raízes. Pelo contrário, segue voltando e tentando fazer o melhor pela favela.

Hoje, o cara que tanto ajuda a favela (ele nem queria que eu falasse sobre isso) está passando outra vez por essa situação, um rapaz que somente esse ano e sem querer se explanar, comprou com dinheiro do próprio bolso, uma cadeira de rodas para um jovem aqui da favela. Ele que tem realizado algumas ações sociais nos Complexos do Alemão e Penha. Que tem ajudado muitos projetos de forma não explanada. O mesmo rapaz que tem distribuído quase que mensalmente, centenas de cestas básicas para famílias do Complexo da Penha.

Seu crime?

Fazer dinheiro sem ser na ilegalidade.

Levar o nome da favela para o mundo, sem ser nas páginas de violência.

Colocar o FUNK novamente em destaque no país, dos lares mais humildes até os mais ricos. Dos celulares até o som das mais badaladas e caras casas de show.

Por ser da favela e ter ousado crescer.

Renan Santos da Silva é um perseguido político.

Renan Santos da Silva, se preso, é um preso político.

Renan Santos da Silva, é favela, Brasil e mundo!

Tmj, irmão.

#INJUSTIÇANÃO

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