Estávamos Jerê, Aser e eu, numa noite fria, cuidando do rebanho de ovelhas, porque os dias estavam muito difíceis, os romanos dominavam tudo, desde há muito, desde que vieram arbitrar uma diferença entre os descendentes dos Macabeus, quando, então, tomaram todo Israel sem precisar desembainhar a espada. A violência era a lógica do dia-a-dia, as mulheres não podiam sair às ruas porque eram atacadas, nada nosso estava seguro, nossos líderes estavam todos vendidos, nossos mestres nos ensinavam a subserviência, dizendo que era vontade de Deus.

Nessa noite apareceu-nos, primeiramente, um anjo que nos disse que, em Belém, a cidade de Davi, havia nascido nosso Salvador, Cristo, o Senhor! Imediatamente, após ele nos comunicar essa notícia, um grupo de Anjos surgiu e cantava “glória Deus nas alturas e paz na terra aos homens a quem ele quer bem”.

Recuperados da emoção de ver e falar com anjos, fomos na direção indicada e encontramos a criança, como ele havia descrito, envolta em trapos e deitado numa manjedoura, lugar onde os animais comem. Seus pais estavam lá, havia um ambiente solene, mas solitário e um tanto constrangedor, apenas alguns animais assistiam àquele momento, ficamos tocados pelo que sentimos no ambiente, conversamos com os pais sobre a visão de anjos, eles nos contaram a história do nascimento daquela criança, ficamos algum tempo admirando a criança e saímos.

Depois, mais tarde, refeitos do turbilhão de emoções, começamos a conversar entre nós sobre como uma criança, nascida em situação tão miserável, poderia ser o Salvador prometido pelos profetas, e que mistérios haveria em tudo aquilo que estávamos participando ou sendo participados, de fato, esta criança precisaria primeiro crescer para, então, revelar-se. Provavelmente, não acompanharíamos esse processo e, talvez, nem estaríamos por aqui quando essa criança chegasse à maturidade, lá por volta dos 30 anos. Nos contentamos em ter sido avisados de algo que, possivelmente, não participaríamos.

Cerca de dois anos depois, fomos informados de que uma família foi visitada por nobres do oriente, mas que tão logo os nobres saíram, Herodes, o Rei, mandou matar todas as crianças com idade abaixo de 2 anos. Foi uma carnificina, nós, que já estávamos acostumados ao horror de viver sob o domínio dos romanos, não conseguíamos entender aquela barbárie, e todos, na região, foram acometidos de um inconsolável pranto e de uma profunda sensação de impotência. Foi inevitável pensarmos que tinha a ver com aquela criança que nós vimos na estrebaria, e que, portanto, a essa altura, a criança já não existia mais.

Cerca de 30 anos depois, Aser e eu, Jere já tinha morrido, soubemos de um profeta vindo da Galiléia, que estava operando curas maravilhosas, e que muitos estavam dizendo que era o Messias. Queríamos vê-lo, queríamos saber mais sobre. Conversamos com algumas pessoas que pareciam saber mais sobre a história dele, e eles nos disseram, para nossa surpresa, que embora ele viesse, como profeta, da Galiléia, ele era originário de Belém, pois era descendente de Davi; imediatamente o relacionamos com aquela criança que dormia tranquila e serena no lugar onde os animais comem.

Decidimos ir vê-lo tão logo ele viesse para os nossos lados. Soubemos, então, pouco tempo depois, que ele estava em Jerusalém, que não é muito longe do lugar onde vivíamos. Sairmos para vê-lo, chegamos em Jerusalém depois de uma caminhada de cerca de duas horas, começamos a procurar pelo profeta da Galiléia, mais precisamente da aldeia de Nazaré, como fomos informados. Não demorou para que algumas pessoas nos informassem que ele estava no Monte da caveira, que ele havia sido traído por um dos seus seguidores, entregue pelos nossos líderes ao poder romano, e que o poder romano, ouvido o povo, decidiu crucificá-lo, sem nenhum julgamento e sem nenhuma comprovação de crime.

Aser e eu ficamos desolados, os poderosos tinham vencido de novo, um bom homem, um profeta verdadeiro, como nos informaram todos com quem conversamos, havia sido derrotado pelo poder romano e pela venalidade dos nossos líderes. Decidimos que não iríamos assistir ao horror, decidimos voltar pra casa. No caminho conversamos sobre se aquele homem que, provavelmente, já estava a caminho da exaustão e consequente morte, porque a cruz era uma macabra combinação de tortura e execução, seria, de fato, aquela criança que tanto nos encantou e inspirou, e que parecia dormir amparada por braços todo potentes, que não víamos, mas, tínhamos uma invencível convicção de que estavam lá, sustentando aquela criança coberta de glória, embora, cercada por aquela miséria.

Porém, concluímos, já faz tanto tempo… mais de 30 anos, e, se a criança não é o profeta, deve ter morrido quando do massacre de Herodes… de qualquer maneira, não importa, tudo, seja o que for, acabou.

Mais ou menos 60 dias depois de nossa volta de Jerusalém, enquanto, já cansados, cuidávamos poucas ovelhas que nos restaram, chegou-nos uma informação extraordinária: diziam que aquele profeta havia ressuscitado, e que ele era mais do que um profeta; estavam dizendo que ele era o próprio Deus, e mais, disseram que o Espírito de Deus veio sobre 120 pessoas, parte do grupo que o seguia, e que essas pessoas ficaram plenas do Espírito de Deus, e que já haviam atraído milhares de pessoas, que, também, ficaram plenas do Espírito Santo, e que essas pessoas tinham se tornado totalmente diferentes, que elas dizem que nasceram de novo, e que abandonaram todos os sonhos comuns à sociedade humana, e que tinham se livrado de todos os seus bens, e que agora viviam juntos, e tinham tudo em comum, e que estavam operando os mesmos milagres maravilhosos que aquele profeta havia realizado.

Tão logo ouvimos isso, saímos em direção à Jerusalém, queríamos nos unir a eles, estávamos convencidos de que naquela noite fria, em meio ao choque do ambiente miserável, havíamos assistido ao Natal do menino Deus, o redentor de Israel e de toda a humanidade!

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