Foto: Jorge Ferreira / Mídia NINJA

São Paulo, 20 de abril de 2018

Querido presidente Lula,

Te escrever uma carta não é fácil, principalmente neste momento difícil em que estamos vendo a democracia brasileira se acabando. Depois de ver você no ABC carregado pelo povo enquanto cantavam que “amanhã será outro dia”, eu quis te escrever esta carta pois não parei de pensar sobre os caminhos da resistência. Alguns militantes estão em um estado de desespero, eu não me encontro assim e sei que você também não. Foi possível ver que você estava sereno no sindicato dos metalúrgicos do ABC, a serenidade de quem sabe que está do lado certo da história e sabe qual o caminho que vamos percorrer. Porém, existe em mim uma dor. Uma dor que vi nos seus olhos e vejo nos olhos de muitos. A dor e a raiva que a injustiça nos causa.

A raiva de ver os poderosos atacando nossos sonhos, eles querem acabar com o Brasil e para isso vão até o fim.

Sabemos que temos um caminho para percorrer. A guerra está longe de terminar, e ela vai nos ensinar muito. Nesse momento, a palavra chave é resistência! E resistência vai além de uma única ação de um dia ou algumas horas. Resistência é uma postura para toda a vida e o povo já sabe como fazer. Resistimos na seca, resistimos na favela, resistimos na escola, resistimos ao agronegócio, resistimos ao patrão, resistimos no busão lotado… A vida do povo brasileiro é uma vida da resistência, mas agora teremos que aprender a resistir como nação, resistir coletivamente por algo maior que nós individualmente. Vamos resistir pelo futuro do Brasil, pela democracia. Você é nosso grande exemplo e líder para essa caminhada. Enquanto a direita com todo seu poder não consegue nem produzir um candidato, nós temos você como representante orgânico da classe trabalhadora. Suas ideias, sua referência e o que você significa para o povo não será nunca destruído. Ao contrário, se fortalece quando se espalha para todos nós que somos Lula também.

Ainda que nunca tenhamos nos retirado das ruas; é perceptível que, na última década, em momentos fundamentais nós tivemos dificuldade nos processos de pedagogia com o povo. Na luta contra o golpe e seu aprofundamento, por exemplo, não foi fácil desenvolver a confiança e o diálogo necessário para a organização da população. Se por um lado temos limitações no diálogo com o povo, uma delas por questões estruturais, a Rede Globo está todos os dias dentro das casas e dos trabalhos das famílias brasileiras, e desenvolveu mecanismos para manipular e convencer sobre o que quiser. Apesar disso, é uma grande vitória – e a elite tem que engolir – a maior parte do povo quer votar e confia em você e no que você representa como projeto de país, mesmo com o judiciário e mídia dizendo o contrário.

Mas ainda é pouco, precisamos desse contato direto, da capacidade de mobilizar, de caminhos para ouvir e abertura para mudar nossas posturas.

Falando nisso, a celebração sábado (07/04) no ABC, com amor, com reflexões e músicas que você escolheu, foi o ato massivo e unitário mais bonito que já vi. Aquele dia me fez pensar sobre como crescemos na década de 80, mais do que nunca devemos lembrar do que aprendemos nesse período. Precisamos usar a criatividade e a nossa sensibilidade na hora de irmos às ruas, usar a arte e a cultura como um caminho para a nossa formação política. Para seguir nosso caminho de resistência, é necessário aprofundar nossos métodos de pedagogia popular, resgatar a nossa história e ao mesmo tempo inovar nossos métodos. A construção da Frente Brasil Popular e, em especial, do Congresso do Povo, é fundamental nesse momento. Nesses espaços devemos debater os problemas de cada bairro, município, estado e do Brasil, refletir coletivamente os motivos e as soluções. Olha, temos que te enviar o que já vem acontecendo de preparação para o Congresso do Povo, já começou nos estados, têm muita coisa bonita e é importante o nosso candidato acompanhar esse processo!

Sabemos que a resistência não tem um único caminho, são milhares de formas. Esses dias circulou o vídeo de um homem sozinho tocando “Olê, Olê, Olá, Lula lá” no planalto em Brasília. Tem pessoas colocando cartazes com os dizeres “Nessa casa tem um Lula”, as cartas que você está recebendo, a organização dos atos na frente da Rede Globo, os parlamentares colocando o nome Lula, os muros pintados de Lula Livre. Cada um encontra um modo diferente de resistir, e essa criatividade e alegria do povo brasileiro é muito importante agora.

Porém, nesse momento o mais importante é conseguirmos mobilizar para a rua todos que entendem que você é um preso político e sua prisão ataca a democracia brasileira.

É fundamental ter força nas ruas para pressionar por sua liberdade e por nosso direito de escolher o presidente. A maior tarefa para a resistência é conseguir dialogar com toda a população indignada com sua prisão e levar esse povo pra rua, pro protesto e pra organização também! Tem tanta gente indignada espalhada por ai, temos que espalhar comitês de base por sua liberdade e pela democracia!

Pessoalmente, não tenho ilusões com a legalidade das instituições brasileiras e nem no autocontrole das forças militares. Eles estão semeando o ódio e babam de raiva por nossa capacidade de resistir. Estamos diante de um golpe, as riquezas do Brasil estão sendo saqueadas e alguns setores do capital internacional estão lucrando muito com isso. Eles não vão abrir brechas para a classe trabalhadora, por isso vamos ter que ter força e muita luta! Ainda que possam vir por aí dias cada vez mais sombrios, estaremos firmes. Disso que se trata resistir. Resistência significa não fraquejar diante de cenários difíceis. Temos que nos preparar, a organização popular, a ousadia e criatividade são os caminhos para essa resistência. Queremos a democratização dos meios de comunicação, uma nova constituinte que seja também capaz de revogar as medidas do governo golpista de Temer. Queremos avançar, queremos resgatar a democracia e queremos você Presidente para fazermos juntos tudo isso.

Um grande abraço, com muito carinho e muita resistência de uma jovem militante.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Monique Prada

Monique Prada: Pode a puta de luxo falar?

Renata Mielli

Fake News: A apologia da verdade como instrumento de censura

Ivana Bentes

Museu Nacional: Não é acidente, é barbárie!

Lindbergh Farias

Lindbergh Farias: Globo não me representa

Israel do Vale

Israel Do Vale: O que será da Folha nas mãos do irmão que sempre cuidou da área comercial?

Laio Rocha

Como frear o encarceramento em massa no Brasil e nos EUA?

Pastor Ariovaldo

Pastor Ariovaldo: Trabalho como estímulo para o progresso da comunidade

Ericka Gavinho

Ericka Gavinho: Em que sociedade nos transformamos?

Renata Mielli

Caso Bolsonaro: vamos conversar sobre fascismo e ódio?

Gabinetona

Plano diretor e a luta pela gestão democrática das cidades

Tulio Ribeiro

Mattis e o roubo do século

Tulio Ribeiro

A dolarização e o neocolonialismo

André Barros

Paes é Cabral. Cabral é Paes

André Barros

Criminalização racista da maconha

Jean Wyllys

Jean Wyllys: 6 perguntas para Jair Bolsonaro