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Desde a ascensão do capitalismo os alimentos sempre foram utilizados como instrumento de construção hegemônica. Combinando aspectos materiais como fonte de matéria prima para indústria e barateamento da força de trabalho, com seus aspectos simbólicos, para conferir legitimidade, tornando os alimentos um insumo biopolítico de domínio e poder ou de libertação dos povos.

O crescimento da indústria pressupõe a ampliação da oferta de alimentos para que parcelas da população passem a se especializar na atividade de tipo industrial. Numa primeira fase, sob controle britânico, o capitalismo industrial conectou e estruturou rotas alimentares a partir das colônias em vistas de sustentar a expansão industrial dos países centrais. O açúcar jogava papel fundamental como mercadoria e insumo energético aos trabalhadores fabris.

Posteriormente o alimento subsidiado fora instrumentalizado como cimento para alianças e novos mercados, agora sob égide estadunidense, baixando salários em países dependentes e assegurando fidelidade contra as revoluções vermelhas.

Com a ascensão neoliberal os alimentos tornaram-se commodities e amparados por tratados internacionais da Organização Mundial do Comércio (OMC) colocaram em concorrência agriculturas do mundo inteiro.

Com a combinação de protecionismo nos países do norte, de capitalismo central, e liberalização nos países do sul, com economias dependentes, institucionalizou-se através da OMC as práticas de dumping levando à quebradeira agriculturas do mundo inteiro e acarretando grandes fluxos migratórios para as cidades.

Cada ciclo de acumulação combina a realização da finalidade auto-expansiva do capital e a estruturação política, de poder, através da luta de classes que confere os contornos socioeconômicos, histórico-concretos, em cada região e país do globo.

A expropriação direta de terras e dos recursos territoriais – água, biodiversidade, minérios, infraestruturas e conhecimentos – dos camponeses e povos tradicionais é traço unificador da inserção dos alimentos na cadeia de valorização do capital. Estes cercamentos – ilegais e legais institucionalizados – substituem no tempo e no espaço relações de reprodução socioecológicas duradouras pela efêmera utilização dos recursos naturais pelos processos mundiais de acumulação.

Atualmente, a indústria alimentar prepara um novo ciclo que mantém características dos processos anteriores com a incorporação de novas demandas emergidas das lutas socioambientais. Uma apropriação seletiva que busca construir uma fachada e dar um verniz sustentável a indústria alimentar.

A estratégia da indústria alimentar mundial está baseada no triângulo facínora de alimentos orgânicos para os ricos, transgênicos e agrotóxicos para os pobres e fome aos miseráveis.

A nova etapa de instrumentalização dos alimentos no pacto de riqueza e poder transnacional, se apropria do ambientalismo de consumo que se satisfaz com a compra de alimentos orgânicos caros, com belas embalagens e selos que escondem os rastros de injustiça social e destruição ambiental praticados pelas empresas em outras linhas de produção e regiões do globo.

A gurmetização da alimentação é a face culinária desta ponta do triângulo que alimenta o caráter fetichista do consumo tornando os bem intencionados abastados em felizes hipócritas sem engajamento social transformador.

Nesta ponta reside o perigo da cooptação do movimento ambientalista ligados a agricultura orgânica que passa a cumprir papel funcional a acumulação de capital.

Numa outra ponta as mesmas indústrias promovem o agronegócio e a agricultura latifundiária através dos alimentos transgênicos, agrotóxicos e da agroindústria dos alimentos ultraprocessados distribuídos aos pobres através das redes fast food, junk food, hipermercados e, dentro em breve, por abençoados programas de caridade promovidos por políticos e religiosos comprometidos com o lucro industrial. Aos pobres a subnutrição e a obesidade.

A terceira ponta do triângulo é o resultado do alimento como mercadoria: lucro para alguns e fome para bilhões de pessoas. É a fome como um aspecto estrutural das sociedades capitalistas, que diferente das crises de escassez das sociedades anteriores, a fome passa a ser fabricada pelos homens contra os homens, como afirmava Josué de Castro.

A estruturação deste triângulo de acumulação encontra limites de ordem ecológica e pode, igualmente, a depender da configuração das lutas de classes, encontrar limites sociais e políticos.

O limite ecológico está que a indústria transnacional, incluindo a alimentar, produziu uma radical e massiva separação entre as fontes de matérias-primas e os processos de produção, distribuição e consumo. Esta falha metabólica, como conceituou o velho Marx, interrompe a ciclagem de materiais e só pode ser suportado pelo aumento progressivo da exploração da energia fóssil e minerais nutrientes. A intensificação deste modelo só fará aumentar a emissão de gases do efeito estufa, o aquecimento global e as mudanças climáticas.

O complexo industrial transnacional, contudo, não vai à autoliquidação. É impelido pelo lucro a auto expansão, e caminha na metafísica do valor ao infinito.

O primeiro limite, de ordem ecológica, só pode se resolver substantivamente se combinado a um renovado movimento social e político internacional capaz de indissociar a crítica a exploração humana à destruição da natureza como faces e resultado de um mesmo processo e colocar como tarefa histórica a solução de ambos desafios nos marcos da construção de um socialismo profundamente ecológico, radicalmente democrático e antipatriarcal.

As lutas camponesas e dos povos tradicionais representam uma incômoda ponta que ultrapassa os planos da indústria alimentar. Plataformas sociopolíticas como o Plano Camponês – Soberania Alimentar, Reforma Agrária e Agroecologia – pode não apenas ser uma trincheira de resistência para os camponeses, mas indicar o ponto de partida prático para um nova via de desenvolvimento do campo que supere indústria alimentar, redistribua a população no espaço geográfico e indique soluções para prosperidade no que tange o abastecimento alimentar, fibras, energias renováveis e preservação ambiental, criando bases para o desenvolvimento de sistemas campo-cidade numa era pós energia fóssil.

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Texto por Marcelo Leal Teles da Silva, Militante do Movimento dos Pequenos Agricultores e Via Campesina

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