foto: Movimento dos Pequenos Agricultores

Frei Sérgio Antônio Görgen ofm * 

A Reforma Agrária é uma necessidade nacional para os que pensam o desenvolvimento brasileiro com justiça social, equilíbrio ambiental e distribuição racional da população no espaço geográfico do país.

As razões para a reforma são muitas. É impossível quitar a dívida social da Nação e propiciar condições dignas de vida à maioria de nossa população sem extirpar o câncer do latifúndio. A concentração da terra e a exclusão camponesa – com uma de suas mais perversas consequências que é o êxodo rural desordenado – estão na raiz, na causa estrutural da situação de miséria que desgraça milhões de lares brasileiros.

Entre outras razões, ligadas ao futuro da humanidade, estão a agenda ambiental e a substituição dos combustíveis fósseis. Os sistemas camponeses de produção são mais aptos e mais flexíveis para incorporar tecnologias ambientalmente sustentáveis, através das múltiplas possibilidades de rotação de culturas, sistemas integrados de policultivos, combinação de produção vegetal com produção animal, sistemas agroflorestais, redução da dependência de insumos externos, utilização de mecanização leve e multifuncional, com as devidas multiplicações de benefícios advindos do aumento da biodiversidade que este modelo de produção agrícola e pecuário propicia.

Na contramão, o agronegócio latifundiário, vive um círculo vicioso combinado de esgotamento tecnológico, multiplicação de pragas fruto das monoculturas, destruição ambiental, desequilíbrio hídrico, aumento de custos, controle monopolístico dos insumos e das tecnologias, insumos externos dependentes do petróleo e sistemas tecnológicos rígidos ou de baixa flexibilidade.

A consciência ambiental da sociedade crescerá na perspectiva de exigir a substituição do agronegócio latifundiário por sistemas de produção camponesa agroecológicos. E para isso, uma premissa básica é a realização de uma ampla Reforma Agrária.

Além disso tudo, quando falam em “porta de saída” de programas assistenciais como o bolsa família, num país com tanta terra disponível, não se encontrará meio melhor de geração de postos de trabalho, inclusive urbanos, com a dinamização do consumo do que através de uma massiva reforma agrária.

Uma verdadeira, massiva, organizada e planejada reforma agrária servirá também para a reorganização urbana que o país precisa, eliminando a pressão do êxodo rural sobre os grandes centros urbanos e criando novas cidades onde hoje existem vazios demográficos por imposição da concentração da propriedade da terra.

Há os que pensam e afirmam que Reforma Agrária é coisa do passado. Enganam-se ou querem enganar. Os primeiros, quando assim sinceramente pensam. Querem enganar, os movidos por interesses de classe. Não querem perder o poder e o dinheiro que o latifúndio lhes confere.

Reforma Agrária acompanhada de desenvolvimento cooperativo e das mais variadas formas de produção camponesa familiar são alicerces para um futuro de que todos – da cidade e do campo – precisamos; com justiça social, cuidado com o meio ambiente e alimentos saudáveis.

Para além de manter-se atual, a Reforma Agrária é mais necessária que nunca.

 

*Frade da Ordem Franciscana, militante do Movimento dos Pequenos Agricultores e autor do livro “Trincheiras da Resistência Camponesa.”

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