Rifa de alunos de Maceió.

Rifa de alunos de Maceió.

Nos últimos tempos, tenho acompanhado pelo Twitter um número cada vez maior de trabalhadoras sexuais interagindo diretamente com seus possíveis clientes, postando fotos e vídeos em troca de mais compartilhamentos e também, de forma criativa, inventando jogos e brincadeiras. Sugerem presentes escolhidos em portais de sex shops, que depois exibem aos gentis patrocinadores pela web cam. Fazem vaquinhas, sorteiam ou vendem fotos exclusivas e shows. A criatividade neste mercado parece não ter limites: se tornaram bastante comuns as rifas, onde a acompanhante oferece uma, duas ou três horas de sua companhia para o feliz contemplado. Por valores que podem variar entre 5 e 30 reais, pode-se concorrer ao encontro dos sonhos.

Elas são sempre bastante claras: os sorteios explicitam o período, muitas vezes também o local do encontro, e sempre especificam as práticas permitidas e as vetadas. Não estão vendendo ou alugando os seus corpos, não estão vendendo direitos sobre si: estão sorteando um período de prazer como quem sorteia uma massagem ou tratamento estético. Considerando a quantidade de seguidores que costumam ter e a adoração masculina por jogos de azar, acredito que o rendimento por rifa facilmente supere o valor cobrado por um programa de modo convencional.

Na semana que passou, um outro tipo de rifa, mas oferecendo o mesmo tipo de prêmio, suscitou polêmica grande nas redes sociais: formandos de uma faculdade de Maceió organizaram, para ajudar a cobrir os custos de sua festa de formatura, a rifa de uma “noite de prazer com uma acompanhante”.

Embora tenham sugerido que a escolha da companhia devesse ser feita através do site www.topsdemaceio.com.br,www.topsdemaceio.com.br o site nega qualquer vínculo com a promoção.

Sobre isso, um primeiro momento, eu pensei em conversar com as anunciantes do site – ideia que abandonei após essa declaração.

Nota

Nota

Me chama a atenção o fato de que os organizadores restringem o valor a no máximo 300 reais, valor normalmente insuficiente para cobrir o custo de um pernoite. Em pesquisa rápida no sitewww.gpguia.net, fórum de avaliação de serviços de prostitutas, descubro que o cachê cobrado por algumas das mulheres que anunciam no site sugerido fica na faixa de 200 reais por período de duas horas, motel e deslocamento à parte (dados de 2009).

A ideia não é exatamente nova: quem não lembra das quermesses de igreja, onde se podia pagar por beijinhos? Rifas para jantares com celebridades também não são raras: mesmo Idris Elba já rifou algumas horas de sua companhia por uma causa nobre: ajudar a ONG W.E Can Lead, que se dedica a levar educação a mulheres no continente africano. Eu não soube a tempo mas certamente arriscaria comprar um número: quem não contribuiria, em sendo a causa tão nobre?

Então, qual o problema da rifa organizada pelos formandos? Aparentemente nenhum – se não estivéssemos falando de trabalho sexual.

O bilhete da rifa começa por oferecer momentos de prazer com uma acompanhante (eu não sei onde estava publicado que a ideia sera o período de uma noite – a conta de Instagram que era usada para divulgar a promoção foi deletada, talvez essa informação constasse dela). Em seguida – expressando de modo equivocado o que se estava sorteando, mas em consonãncia com o que diz o senso comum – se fala no prêmio: uma acompanhante de luxo. Ora, ninguém pode oferecer uma pessoa como prêmio, pessoas não são mercadorias. Nenhuma pessoa. Trabalhadoras sexuais tem plena consciência de que o que estão a vender são os seus serviços – aparentemente, a sociedade ainda não tem essa consciência toda.

A promoção, sem sombra de dúvidas, é sexista: em nenhum momento se fala sobre a possibilidade de mulheres poderem também comprar a rifa, neste caso concorrendo à possibilidade de usufruir dos serviços de algum dos acompanhantes homens anunciados no site citado – ou mesmo algumas das mulheres que ali anunciam seus serviços, já que algumas de nós nos dispomos, e com muito gosto, a esse tipo de atendimento.

Não vamos fingir que não sabemos: a maior parte das pessoas envolvidas em prestação de serviços sexuais são mulheres – cis e trans – enquanto a maior parte da clientela é formada por homens cisgêneros.

Sabe-se também que levantar uma boa grana oferecendo a promessa de serviços sexuais que de outro modo não sairiam por menos de 400 reais (chutando bem, mas bem baixo mesmo, e incluindo motel) pela bagatela de 10 reais o número é lucro certo.

Aqui, temos ainda a questão legal: o incentivo à prostituição alheia (mesmo sem a possibilidade de lucro) é crime previsto no Código Penal. A prostituição, exercida de modo autônomo, nunca foi crime no Brasil mas quaisquer das outras atividades envolvidas, sim. No caso, a ideia é a de patrocinar uma festa, ou parte dela, com o lucro auferido a partir da rifa de um encontro sexual – portanto, beneficiando-se da prostituição alheia, crime também previsto em lei.

O Movimento de Mulheres Olga Benário lançou uma nota sobre.

E cada vez em que preciso ler e dissecar uma nota dessas, eu sofro um pouco.

Não há nunca o menor cuidado com os termos e o modo como se fala dos corpos e do trabalho de outras mulheres, não há nenhum questionamento sobre o que essas outras mulheres diretamente envolvidas pensam sobre essa questão, nem nada do tipo.

Ainda que concordemos em alguns trechos – o fato de que não há escolhas totalmente livres para as mulheres pobres no capitalismo, por exemplo (o que nos obriga a exercer uma série de trabalhos precarizados, sendo a prostituição apenas um deles) – eu acabo me chateando por nos perceber totalmente excluídas deste debate, exatamente do mesmo modo que as pessoas que organizaram essa rifa nos excluíram.

Eu tenho certeza de que gostaríamos, todas, de sermos incluídas nesses debates, que versam diretamente sobre o trabalho que exercemos – ou no mínimo que se tomasse algum cuidado com os termos usados. Apenas falar a nosso respeito como vítimas sem escolha soa exótico, nos nega a autonomia e o direito a opinião sobre nossos próprios corpos e vidas, direito que já é bastante limitado para todas as mulheres na sociedade em que vivemos.

O que segue me chamando a atenção na nota do Movimento de Mulheres Olga Benário é o trecho em que elas falam que não se enquadram entre “os estereótipos de recatadas e do lar ou entre as que podem ser rifadas”. Mas quais seriam essas mulheres que “podem ser rifadas”? As “belas, recatadas e do lar” nós talvez possamos saber quem são, mas existiriam mesmo mulheres que podem ser rifadas?

Companheiras, nenhuma de nós pode ser rifada. Quando muito, os nossos seviços poderiam, desde que com o nosso consentimento explícito – o que não houve, e isso me leva a repudiar a tal rifa.

Pesquisando ainda sobre esse tipo de rifa, descobri que o mesmo aconteceu na Paraíba em 2014. Na ocasião, alguns movimentos lançaram uma nota bastante confusa, onde se posicionam a favor da autonomia das mulheres sobre seus corpos, “podendo dar, vender, alugar”, mas não neste sistema capitalista, “onde a prostituição está associada à mercantilização da mulher”. É interessante, pois essa nota em seguida cita a prostituição como um trabalho menos exaustivo dentre os trabalhos precarizados. E elas tem toda a razão neste sentido, mas não tem razão em defender a autonomia das mulheres para dar, vender ou alugar os seus corpos em contexto algum: as mulheres não estão dando, vendendo ou alugando seus corpos em momento algum. As mulheres podem fazer sexo e voltar inteiras. O que parece apenas uma questão semântica boba esconde em si o machismo, presente em nossas vidas todo o tempo. Lutemos contra. Nenhuma mulher dá nada de seu corpo quando faz sexo. Do mesmo modo, nenhuma trabalhadora sexual vende ou aluga o seu corpo durante o sexo. Nossos corpos, após o sexo, seguem nos pertencendo – tomemos posse deles em definitivo.

De resto, esse caso mais uma vez traz à tona aquilo que a sociedade como um todo prefere fingir que não sabe. O cliente de prostituição, ele não é um ser exótico vindo de outro planeta apenas para perturbar algumas mulheres e enriquecer outras. Ele é o Homem Comum. Ele está nas universidades, nas empresas públicas ou privadas, no elevador, nas casas e camas das mulheres que não cobram diretamente por sexo. Por que ele só nos aparece como aberração ou sujeito a ser combatido enquanto cliente de prostitutas? Ele é o irmão, pai, chefe, namorado, marido de qualquer uma de vocês.

Nenhum homem se torna pior ou melhor ao contratar serviços sexuais – desde que respeite os limites acordados, seja numa relação de sexo pago, seja numa relação casual, seja num relacionamento estável. Se ele não respeita os limites em algum dos casos, é muito provável que não os respeite em nenhuma outra circunstância também.

A nota do Movimento de Mulheres Olga Benário AL na íntegra:

Formandos ou cafetões?

A veiculação nas redes sociais de uma “rifa” de uma mulher causou indignação e revolta. Vamos começar pela lei: o artigo 230 do Código Penal prevê que é um crime tirar proveito da prostituição alheia, com pena prevista de reclusão por 1 a 4 anos e multa. Os exploradores sexuais de mulheres são conhecidos popularmente como cafetões.

Mas vai muito além da questão legal. A prostituição não é uma livre escolha feminina. É, na verdade, uma dramática forma de exploração e subjugação das mulheres há séculos. A sociedade capitalista, patriarcal e hipócrita mantém milhares de mulheres submetidas a essa prática.

Não nos enquadramos entre os estereótipos de recatadas e do lar ou entre as que podem ser rifadas. Afirmamos sempre, queremos respeito e uma vida digna para todas as mulheres!!!

Essa ação depõe contra os formandos, que ao passar por um curso de graduação deveriam obter uma aprendizagem para além dos conhecimentos de uma profissão, valorizando as relações sociais, a formação ética e a dignidade humana que são claramente atacadas com essa rifa.

Nós, do Movimento de Mulheres Olga Benário, vimos a público repudiar com veemência a postura dos estudantes que estão nas redes sociais rifando mulheres para arrecadar dinheiro para a formatura. Ao terminar a faculdade será hora de decidir: engenheiros ou cafetões?

Pelo respeito a todas as mulheres!Movimento de Mulheres Olga Benário

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