Arte: Mídia NINJA

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Os dias correndo mais que eu, acaba que fiquei devendo a minha coluninha da semana passada. Não que tenha me faltado assunto: só o maravilhoso debate sobre o trabalho no século XXI, promovido pelo #queroprevias, onde dividi a palavra com Tatiana Roque, Marcelo Freixo e Fernando Haddad, já valeria o post. Coisa mais linda!

Foi um dos poucos eventos fora do meio de ativismo prostitucional onde nenhuma voz se levantou (ao menos em volume alto o suficiente para que eu pudesse ouvir) para me lembrar que não somos, nós, as prostitutas, mulheres trabalhadoras. Apenas isso já mereceria menção de minha parte, mas depois de tantos dias passados, só quero falar sobre a imensa satisfação de poder ocupar um espaço como este, levando o ativismo pelos direitos das prostitutas a outros espaços, e podendo abordar também pautas que extrapolam mesmo o nosso próprio ativismo – pensar na situação de todas as trabalhadoras que atuam na precariedade, e nos caminhos que seguiremos nas próximas décadas, tem sido uma das questões que mais me atormentam nos últimos tempos.

 À parte minhas inquietações todas sobre a precarização dos direitos trabalhistas e a “modernização” da CLT,  há uma questão que ainda me intriga muito nisso tudo. E, bom, esta questão envolve justamente a atividade que exerço.

Enquanto escrevo, já me preparo aqui para as bordoadas no setor de comentários: deve ser natural tamanha revolta. Afinal de contas, eu falo de um dos temas que mais causa inquietações, não só nos setores mais reacionários e conservadores da sociedade mas também dentre feministas e pessoas ditas progressistas (se quiserem, podem usar o termo ‘esquerdistas’, o desconforto abunda entre os esquerdistas também).

Não só falo de um tema que gera ódios como eu mesma, sendo quem sou, desperto ódios.

Eu poderia mesmo dizer que o setor de comentários das minhas colunas tem servido já historicamente quase como um espaço de confraternização entre conservadores de várias doutrinas de pensamento: juntam-se todas e todos a proferir terríveis agressões, sendo este um belo momento de comunhão entre seres de ideologia tão diversa.

Aparentemente, nada no mundo une tanto esquerda e direita quanto o ódio a prostitutas.

Ainda que esperado, sempre me espanta um pouco a revolta nestes setores todos tão distintos quando o assunto é trabalho sexual. Recusam-se a vê-lo como um trabalho, e às mulheres que o exercem, recusam-se a vê-las como pessoas.

Por conhecer as suas rotinas e rituais, e sabendo eu que a imensa maioria das pessoas que o exercem sustenta as suas famílias através deste trabalho – que tem horários, regras, modos diversos de existir de acordo com o nicho, e remuneração também diversa porém, certa – sua condição de trabalho já é algo que não mais discuto.

A Fundação Selles calcula que cerca de 42 milhões de pessoas vivem da prostituição através do mundo. Deste total, nem todas as pessoas exercem o trabalho sexual: os dados da fundação não diferenciam pessoas em situação de exploração sexual das pessoas que exercem o trabalho por vontade própria. Ainda assim, podemos deduzir facilmente que um número bastante significativo de pessoas trabalhadoras estão envolvidas neste tipo de trabalho por vontade própria, livre de coação. São pessoas que em sua maioria o fazem às sombras, por conta do imenso estigma que sobre elas paira – e se alguém duvida deste estigma e da violência com que ele atua, ah, neste momento eu sugiro que leia os comentários abaixo de meus textos, e atente para o discurso de ódio neles contido.

Quem sou eu, afinal de contas? Ninguém além de uma mulher falando de seu trabalho. E apenas por isso inspiro ódio.

É um ódio esperado dentro de uma sociedade que odeia mulheres por padrão – e odeia mulheres donas e senhoras de sua sexualidade um pouco mais.

Precisamos ter em conta que dos trabalhos que o patriarcado considera que, mulheres, devemos exercer sem que por estes trabalhos nada nos seja pago, lá estão o trabalho doméstico, o trabalho sexual e reprodutivo. Ainda que não se possa analisar isso de modo tão leviano – pois a prostituta está, ela também, inserida num contexto de opressões variadas que extrapolam inclusive sua área de atuação enquanto trabalhadora – precisamos levar em conta que, ao por um preço no serviço (sexual) que exerce, ela está justamente rompendo com uma das normas mais sérias de nossa sociedade.

No contexto da paralisação geral de mulheres do 8 de março, estes trabalhos foram reivindicados, e reivindicados foram como trabalhos que são: o trabalho doméstico e o trabalho sexual. Sendo assim como posso eu, sendo uma feminista, seguir dizendo que logo as prostitutas, mulheres que cobram pelo sexo que fazem, não exercem um trabalho, se reivindico justamente o sexo (não explicitamente pago) como uma das atividades que não devem ser executadas em contexto de paralisação?

Prostitutas tem sido execradas e perseguidas através dos tempos, ainda que a atividade que exercem não dê mostras de que vá ser extinta. Queimadas como bruxas, internadas como loucas para “limpar” as cidades da vergonha que representam, as polacas mesmo precisando criar seus próprios cemitérios pois nem em morte eram perdoadas.

As mulheres todas precisam saber: romper com padrões é o pior crime que podem cometer – serão tratadas como merecem, como putas. Nenhum crime se compara a este.

São questões que se colocam, neste conservador começo de século, e que já não podem ficar sem resposta: prosseguir nesta luta incansável contra a mulher que cobra por sexo ou proteger-lhe os direitos, que seja o básico, o direito de existir fora das sombras?

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