Gil Sotero e seu outfit luxuoso – estilo que usa há mais de 3 anos, “por não se ver representado entre os blogs de moda masculina, na maioria brancos, que só mostram marcas inacessíveis e desfiles fashionistas”. Imagem acervo.

O poeta Manoel de Barros já bem disse: lugar sem comportamento é o coração. Ai meu coração![sabe quando a gente só consegue pensar com palavrões?] Então. Isso. Nem palavras encontrei pra reagir verbalmente a essa onda. Senti: “caramba, nessa situação desesperadora em que cerca de 200 milhões de brasileiros vivem, a gente tem que ver isso? Mas decidi que nem vou entrar nesse “blablabla”, porque né, respeito pra mim está acima de tudo e todos. E também ok ok, a gente vive pra se agradar! Mas na boa: qual percepção ter de uma pessoa que chega a ficar dezenas de horas em uma fila pra comprar um tênis caríssimo [e ainda conta o que fez]? Risos.

Será que é alguma anomalia? Egocentrismo? Estratégia de autopromoção?

Todos os observadores do momento sabem que as marcas gigantes perdem a cada dia mais importância, e quem ganha destaque são as pessoas. Enquanto a galera sustentada pelos pais do vídeo brasileiro “Quanto custa o outfit?” sai por aí gastando uma grana pra se autoafirmar, e fazer papel de andante-cafona como outdoor de marcas, uma galera milionária com fama internacional, que é produtiva e inteligente, frequente na mídia mundial, sai em defesa do meio ambiente, da compra consciente, e cola nas marcas totalmente clean.

Tsc tsc, brasileiros têm que deixar de ser consumidores passivos. Essas roupas e acessórios que pensam ser exclusivas, têm uma estética que veio da rua [mais popular impossível], e não, não são feitas em pequenas quantidades por serem especiais, mas por ter muito pouca gente, digamos, emocionalmente/mentalmente limitada, que se propõe a pagar tipo mais de 15 mil reais em um moletom, cerca de 500 reais em um boné ou meia, 18 mil em um relógio, no mínimo mil em um tênis… e tipo 1k em bolsinhas uó, e várias outras pecinhas tipo nada a ver. [Ta. Não posso chamar pessoas de idiotas porque elas têm o direito de escolher o que fazer com o dinheiro dos pais. Chamo de ostentadores, ultrapassados, seres errantes, “pobres” coitados…].

Enquanto nós, os comuns, nos dedicamos a levar uma vida mais significativa, verdadeira, criando realidades novas, um adorador de maxietiquetas tem muito pouca intimidade com o fato de nascer e viver sua própria existência. Por isso, bora apreciar a nossa liberdade, sem moderação, porque um devoto dessa onda, um “hype beast”, não sai de casa sem se “montar” de cifras, e o que é pior, com certeza não pode sair repetindo o uso das mesmas peças entre seu grupo.

Na verdade é muito erro em um pensamento só. E se é pra falar em pompa vejamos: a duquesa de Cambridge, Kate Middleton, tem mais poder e grana do que qualquer um desses aí, certo? Mas ela sempre repete suas roupas e usa [e aparece em público] vestido de 90 euros. Muito tranquilamente. Isso significa que roupa é business, mas moda é mais.

Ainda bem que, paralelo ao mundo pior está o mundo melhor!

Nunca assumir nosso próprio estilo foi tão poderoso. Eleger nossas afinidades particulares, racionalizar e humanizar o nosso próprio cotidiano.

Vivemos um processo de construção de futuro desejável, onde a onda real é potencializar os saberes. Nosso conhecimento de nós mesmos é como as PANCs – e existem mais 5 mil delas no Brasil. Quero dizer que sim, podemos ser o que, como e se quisermos. Isso não tem preço.

Às vezes, a sensação geral é que ser feliz nunca foi tão fácil, mas agora está mais difícil.

Ser bacana nos anos 80, – em plena onda do dress-for-sucess [vestir para o sucesso] ou o power-dressing [vestir para o poder]- era ser megaconsumista. Hoje, bacana é quem já descobriu que o indivíduo é mais importante que a roupa, e escolhe muito, repensa o uso, e consome o mínimo. Não gasta, mas investe.

São facetas culturais desvendadas pela moda, que garantem alegria na alma. Então né, vamos falar de valor e não de preço?

Quanto vale o seu estilo? Quem responde lindamente essa questão é o cicloativista Gil Sotero. Ele compõe seu outfit misturando peças de brechó, ou feitas localmente ou até por ele mesmo.

E conta: “outfit é uma expressão através das roupas. Roupa é uma linguagem pra mim. Meu outfit é para ajudar a desenvolver um estilo descobrindo possibilidades dentro do dress code masculino e também para mostrar que é possível se vestir se sentindo bem, sem arruinar as finanças. Gosto de resgatar também a história das roupas e como elas foram feitas”.

E você, conta/envia pra gente: quanto vale o seu estilo?

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