Ilustração especial do estilista Ronaldo Fraga

Pois é. Eu não tive a alegria de conhecer Marielle Franco pessoalmente. Mas em minha vida tive a sorte de conhecer sua estrutura de imaginação libertária, o seu projeto pessoal corajoso de vida, o seu trajeto profissional vitorioso, sua visão pluralista da sociedade, seu trabalho centrado no mundo.

Nesse momento, milhares de brasileiras e brasileiros estão tomados por uma sobreposição de sentimentos. Escolho sentir que sua história de vida viva é um presente. Pra mim, pra você, pra todas e todos, hoje e sempre. Marielle disse e fez muito. Ela ensinou o que é compromisso. Que inspirados por ela nós possamos nos reconhecer em nós mesmos. Vai ter celulite sim, vai ter gorda e gordo, trans, negra e negro, porque vai ter gente de verdade, e gente com força emocional, conteúdo além-corpo, alma leve, coração generoso, peles assumidas com nossas memórias estéticas, e olhar decidido.

Marielle era negra, favelada, lésbica. Era pensadora, ativista pelos direitos humanos, mestre, diversa enfim. Diversidade é uma expressão política, é o outro nome da liberdade. E moda é política.

O mundo da moda tem identidades múltiplas e não combina com rigidez mental. A moda não tem cor, não tem tamanho, não tem enquadramento; se é moda não tem controle, porque nasce do povo.

Quando nos apropriamos do valor simbólico da moda como comportamento e não como roupa, nossos corpos assumem o protagonismo das nossas experiências cotidianas, porque a história se faz no processo. Até nesse sentido  o legado de Marielle nos enobrece, mostrando a capacidade de perceber o outro para criar maiorias das minorias.

Diante de tantas atitudes nada éticas de poderosos, a urgência de mudança é absoluta. Já que o que não se pode ver não existe, vamos tornar o invisível visível. Criar espaços físicos e mentais empoderados, estabelecer novos modos de aproximar as pessoas.

Nunca foi tão fundamental entender o presente e decidir como o futuro poderá ser. Nunca foi tão essencial ter estilo. Nunca foi tão importante assumir o querer íntimo, porque as escolhas diárias da composição da nossa imagem definem o que queremos dizer ao mundo – sobre nós mesmos e sobre ele.

Nossa busca tem que seguir imensa e ininterrupta pela autoestima. E sim, pensar em todos é a melhor maneira de pensar em si. Só vai dar certo com todo mundo junto, com fortalecimento mútuo, respeito absoluto às peculiaridades e o olhar dirigido ao próprio coração, sem lidar com a ideia de sobrevivência mas de existência.

À moda Marielle podemos fazer a gestão de nós mesmos, construir respostas, conjugar passado e presente de uma forma transformadora, descartando com todas as forças condicionamentos culturais, transpondo fronteiras urbanas. A verdade está entre nós.

Bora enfoderar-nos galera. A gente já sabe como é a vida – agora só precisamos reinventá-la ao nosso modo, à moda Marielle.
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