Para o falso moralista é mais fácil chamar artista de vagabundo do que reconhecer que seu trabalho pode fomentar uma potente indústria cultural.

Artistas, produtores, estudantes e movimentos sociais ocupam a Funarte Brasília. Foto: Midia Ninja

Artistas, produtores, estudantes e movimentos sociais ocupam a Funarte Brasília. Foto: Midia Ninja

Os dois primeiros textos publicados no espaço dessa coluna, ao circularem nas redes, sofreram um mesmo tipo de crítica. Apesar de – em grande parte – serem críticas sem desenvolvimento de ideias ou conceitos, e de apontarem na direção de um senso comum bem precário que se desenvolveu no Brasil nos últimos anos, vale a pena colocá-las dentro de um enfoque que possa esclarecer (ou pelo menos tentar, mais uma vez) por quê o estado deve ser um agente que incentiva e investe em cultura.

Nessas poucas críticas levantadas, os leitores sugerem que os artistas deveriam se sujeitar às leis do mercado e deixar de viver do dinheiro público.

Essa premissa tem sido levantada de forma bem veemente nos últimos tempos: a ideia de que as políticas públicas de cultura sustentam e financiam a “boa vida” dos artistas brasileiros.

Apesar de fazer parte de um conjunto de ideias idiotas que se tornou comum em certos nichos de comentaristas de internet, essa noção, por vezes sob a construção de frases de baixo nível como “vagabundos que mamam nas tetas da Lei Rouanet”, precisa e deve ser combatida em várias frentes. Seria impossível esgotar o tema no espaço de uma coluna e certamente será necessário voltar a ele algumas vezes por aqui. Mas vejamos:

Somente o fato de existir no Brasil um capitalismo praticamente sem riscos, onde o estado assume ou perdoa continuamente as dívidas de grandes instituições privadas, como no caso recente do perdão ao banco Itaú e da empresa de telefonia Oi, já seria o suficiente para mandar às favas esse tipo de argumento. Se ampliarmos a questão para os financiamentos concedidos para estas empresas com verbas públicas, isenções fiscais e os demais incentivos concedidos pelo governo para indústrias nacionais e multinacionais, chega ao nível do inacreditável ser necessário realizar esse debate em um país que dedica menos de 1% do seu orçamento para cultura.

Um fato bem básico dessa discussão, mas que parece gerar mais interesse para um modelo de brasileiro que tem insistido nessa crítica, é que a cultura é hoje uma das indústrias (o termo é insuficiente mas proposital no sentido desse texto) que mais gera ativação de circuitos econômicos em âmbito interno ou externo para um país. Mais que isso, desde o avanço do chamado processo de globalização e a consolidação de um mercado baseado no capital transnacional, os bens culturais passaram a exercer um papel fundamental como possibilidade de expressão de uma sociedade (ou uma economia) no mundo.

Se os piores prognósticos sobre a globalização, ao fim dos anos 1990, diziam que instaurado esse novo modelo econômico teríamos um mundo onde todos consumiriam os mesmo produtos ao mesmo tempo, assistimos hoje um duplo resultado dessa equação.

Existe sim um princípio de massificação que torna (falsamente) todos aptos a serem consumidores globais em tempo real. Um mesmo produto da moda, da tecnologia ou, para ficarmos dentro do campo cultural, um mesmo filme, série, disco, pode ser acessado e consumido em diversos países sem as lacunas de tempo que no século XX dividiam os EUA e a Europa do resto do mundo. Porém, pelo que podemos observar hoje, essa homogeneização criou demandas cada vez maiores por singularidades e expressões que possam afirmar algum tipo de diferença.

De alguma forma, essa lógica retifica um postulado também da ordem do capital que é o “seja você mesmo”. Num mundo cada vez mais igual, a diferença se torna um capital simbólico e de uso cada vez mais expressivo. A título de exemplo, de enorme clareza aliás, a moda e a gastronomia têm cada vez atestado essa procura e valorização da singularidade. Um tipo específico de tecido ou costura, de tempero ou ingrediente e, principalmente, de um modo de fazer específico, são hoje itens que determinam a originalidade e o interesse por trabalhos desses campos no mundo todo e que geram enormes dividendos para seus respectivos setores.

Se focarmos nas linguagens artísticas e em seus “produtos”, o valor da diferença e da singularidade são decisivos e podem se desdobrar de forma contundente para a economia de um país.

Nas artes visuais, no cinema, na música, na literatura, o que tem mobilizado o interesse e o olhar mais atento do público (e de toda indústria envolvida) são justamente trabalhos e obras que possam apresentar alguma contribuição para um mundo mais plural, diverso e heterogêneo.

Para que isso possa acontecer é necessário, antes de tudo, pesquisa e desenvolvimento. O que pesa aqui, e é fundamental como centro dessa questão, é que pesquisa e desenvolvimento no campo artístico não são componentes que possam ser calculados sob leis da racionalidade científica ou econômica nos modelos que o mercado afere. Não são medidas que possam ter matemáticas aplicadas com resultados previstos de antemão. Elas precisam necessariamente de investimento e do entendimento de que tentativa e erro fazem parte dessa equação.

Não existe uma economia da cultura forte se todo um ecossistema não for ativado e incentivado.

Como o mercado (em especial no caso brasileiro) só opera pela clave do lucro imediato e do extrativismo, é no mínimo ingênuo acreditar que o seu filtro possa ser um dispositivo que opere na construção desse ecossistema.

Seu filtro pode até funcionar para a economia da cultura, potencializando a venda do que já vingou e se tornou produto acabado. Porém, para existirem artistas e obras fortes, originais e capazes de se desdobrarem futuramente em produtos que interessem e alcancem um maior público, é necessário a existência anterior de toda uma cadeia que aposta na experimentação, no ruído, no estranho e no que o mercado não tem interesse em incentivar pois não pode vender a curto prazo.

Para isso é necessário e fundamental a existência de mecanismos de incentivo que permitam e sustentem verdadeiros “laboratórios” criativos e de invenção.

Sem esses espaços, de investimento nos processos artísticos e no desenvolvimento de linguagens novas, a tendência é o esgotamento dos produtos já consolidados e ausência de elementos novos que possam oxigenar este circuito.

Esse é um papel, entre muitos outros possíveis que serão destacados futuramente nesse espaço, que o estado pode e deve cumprir para o incentivo à cultura. Sua consequência é uma maior inserção do país na economia mundial e a atração de milhões de reais para investimento de âmbito interno. Mas para isso o falso moralista defensor das leis de mercado fecha os olhos. Prefere chamar artistas de vagabundos. E deixa de perceber que existe uma “indústria” no Brasil que pode se destacar em larga escala no mercado global. E que ela funciona justamente porque os artistas brasileiros trabalham.

E muito bem, por sinal.

 

 

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