.

.

Sturm já escolheu seu lado, preservar o bem-estar dos seus negócios e usufruir de uma posição privilegiada dentro de um grupo político.

Em ato escandaloso, que dentro de uma sociedade com uma democracia desenvolvida seria inadmissível, a secretaria de cultura de São Paulo entregou aos artistas convidados para a Virada Cultural deste ano um documento que “recomendava” que manifestações políticas fossem evitadas durante as apresentações. O documento era uma espécie de ata de uma reunião feita às vésperas da realização do evento e que envolveu representantes da própria secretaria, além de agentes do ministério público e um vereador do PMDB de São Paulo.

O teor do documento assinala que a Virada é um evento realizado com dinheiro público e que, portanto, os artistas “deverão observar o princípio da impessoalidade, evitando-se, dentre outras, manifestações político-partidárias”.

Em matérias publicadas sobre o fato, o secretário de cultura se eximiu de responsabilidade sobre o documento e afirmou que apenas cumpriu determinação do Ministério Público, destacando que a Secretaria de Cultura é contra qualquer tipo de censura.

Mentira.

Se de fato fosse, ele, pessoalmente, se colocaria entre tal documento e os artistas. Brigaria pela irrestrita defesa da liberdade de opinião em um evento que deveria promover a diversidade de ideias, de expressões artísticas e de comportamento. Recusaria a ata e repudiaria o teor do que foi debatido nessa reunião até mesmo publicamente, o que não lhe seria difícil vide sua enorme entrada nas redações dos grandes jornais de São Paulo.

No entanto, desde janeiro sua escolha foi feita: Sturm optou por ser um lacaio do prefeito João Dória e fazer sua gestão refém dos caprichos do chefe – que nitidamente escolheu setores da classe artística como alvo de sua luta política –. Desde então, o atual secretário é obrigado a passar por seguidos constrangimentos que demonstram sua incapacidade como agente da cultura e sua irrelevância política dentro da gestão municipal.

O mais interessante do dilema que deve viver hoje o secretário de cultura, e que diz muito sobre a promiscuidade entre setor público e privado na política brasileira, é que sendo também um “homem de negócios” da cultura na cidade, Sturm, a esta altura, já percebeu que renunciar ao cargo é também se tornar inimigo do prefeito e, assim, prejudicar, pelo menos nos próximos quatro anos, o andamento de seus empreendimentos e de seu grupo de sócios.

De forma objetiva isso influi, por exemplo, na renovação da concessão do Cine Belas Artes, que precisará ser feita em 2019. De forma mais prospectiva, Sturm sabe que uma possível ascensão de Dória para os cargos de governador ou, como alguns especulam, até mesmo para presidência da república, pode representar um futuro sombrio para sua distribuidora Pandora Filmes (dirigida por sua filha Bárbara) e para todos os negócios que venha a tentar implementar nos próximos anos como mentor ou acionista.

É triste que um gestor com trajetória respeitada na área, mesmo por aqueles que discordavam politicamente de suas ideias, se torne um refém de um ator político tão inescrupuloso como Dória, capaz até de realizar exatamente no fim de semana da Virada uma ação perversa, violenta e autoritária contra usuários de crack que vivem nas ruas da cidade.

Mas em um momento como este que vivemos na política brasileira, não podemos de maneira nenhuma abrir mão dos princípios democráticos e republicanos. Tudo agora gira em torno, e será definido, por uma luta aguerrida e corajosa para o fortalecimento da democracia.

 

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Monique Prada

Monique Prada: Pode a puta de luxo falar?

Renata Mielli

Fake News: A apologia da verdade como instrumento de censura

Ivana Bentes

Museu Nacional: Não é acidente, é barbárie!

Lindbergh Farias

Lindbergh Farias: Globo não me representa

Israel do Vale

Israel Do Vale: O que será da Folha nas mãos do irmão que sempre cuidou da área comercial?

Laio Rocha

Como frear o encarceramento em massa no Brasil e nos EUA?

Pastor Ariovaldo

Pastor Ariovaldo: Trabalho como estímulo para o progresso da comunidade

Ericka Gavinho

Ericka Gavinho: Em que sociedade nos transformamos?

Renata Mielli

Caso Bolsonaro: vamos conversar sobre fascismo e ódio?

Gabinetona

Plano diretor e a luta pela gestão democrática das cidades

Tulio Ribeiro

Mattis e o roubo do século

Tulio Ribeiro

A dolarização e o neocolonialismo

André Barros

Paes é Cabral. Cabral é Paes

André Barros

Criminalização racista da maconha

Jean Wyllys

Jean Wyllys: 6 perguntas para Jair Bolsonaro