Foto: Ian Cheibub / Mídia NINJA

Foto: Ian Cheibub / Mídia NINJA

A crise civilizatória brasileira ganha cada vez contornos mais nítidos, e os eventos da última quarta (25) são prova cabal disso. O horror, contudo, não tem início com janelas estilhaçadas ou muros pichados. Ele nasce da erosão das relações civilizadas entre os Poderes da República, cujo símbolo maior é o golpe institucional do ano passado.

O resultado prático é a instauração de um Estado de exceção no país. Como lembra o jurista Pedro Serrano, o Judiciário é o principal responsável por esse novo regime, com seus vazamentos seletivos, escutas, powerpoints infantis, delações premiadas sem provas. Em que pese, há também a atuação de figuras nefastas no parlamento e daqueles que vem se perpetuando no governo federal.

De todo modo, é de segmentos do Judiciário e do Ministério Público de onde emanam os principais arroubos, invalidando atualmente qualquer tipo de garantia de direitos ou liberdades, individuais ou políticos. O mais radical dos liberais clássicos estaria de cabelos em pé.

É no mínimo curioso que esse estado de coisas faça, agora, com que o feitiço vire contra seus antigos conjuradores.

Figuras como Aécio Neves e Reinaldo Azevedo são hoje desnecessárias à marcha higienista do Judiciário. Por isso, nada impede que eles sejam as novas vítimas de escutas e vazamentos.

Se não há garantias mínimas mesmo para figuras desse tipo, o que dirá para uma multidão de manifestantes? Ou para trabalhadores sem-terra? Ou para população em situação de rua?

O esgarçamento das relações civilizadas na política é o sinal verde para que qualquer tipo de prática, mesmo as mais diabólicas.

É a senha para que a ignorância crassa se manifeste, como o fez o prefeito de São Paulo, João Dória, ao permitir que se derrubasse um prédio em que ainda viviam dependentes químicos, ou o que ocorreu em Pau d’Arco, no Pará, onde policiais foram responsáveis pelo extermínio dez produtores rurais.

Vidraças quebradas e pneus queimados não, passam, portanto, de índice da exasperação da multidão, que reage a um contexto de ameaças a direitos e ampliação da desigualdade social, cujo recrudescimento, infelizmente, teve início ainda em período de gestão petista.

Para Robert Dahl, cientista político americano, um modelo próximo ao ideal de democracia seria caracterizado institucionalmente pela plena possibilidade de diálogo político e pleno exercício de direitos políticos por cidadãos e cidadãs, em especial o direito ao voto.

O destino que se avizinha ao Brasil vai em sentido contrário. A multidão é violentamente reprimida nas ruas quando deseja manifestar suas opiniões. O direito de eleger um novo presidente é preterido em favor de conchavos intra-elites.

Daí que o que devemos reivindicar, e lutar com todas as forças, é pela ampliação da democracia, e não de sua redução ou postergação.

Não há “pacto de transição”, como sugerem os defensores da eleição indireta, na ausência de um prévio pacto democrático, rompido desde o ano passado.

Só assim teremos chance de novamente caminhar no sentido de um projeto civilizatório para o país, em que direitos sejam garantidos, em vez de eliminados, e em que a democracia seja uma prática de todo dia.

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