O discurso meritocrático, impulsionado pela distopia neoliberal, tem duas dimensões gêmeas, que precisam, ambas, ser reconhecidas.

 

Desigualdade Social.

A primeira, que eu chamaria de “teoria positiva do mérito”, é matéria de textos de auto-ajuda vendidos em aeroportos, alguns até enobrecidos como bibliografia de MBAs, e corresponde ao processo de glorificação do indivíduo esforçado, ascético, comprometido com o sucesso da corporação com a qual “colabora”, determinado em sua própria “vitória” e focado no seu Lattes, ou no seu Linkedin. Este (ou esta) reencarnação do Fausto avança por meio de concursos públicos, ou, eventualmente, por meio de dinâmicas sofisticadas de Gestão de Pessoas… Em todo caso, sempre descartando qualquer suposta intervenção “patrimonialista”, demônio que Jessé de Souza bem diagnosticou como sendo a preocupação máxima da “tolice da inteligência brasileira”.

A segunda, a “teoria negativa do mérito”, com sua expressão silenciada e até constrangida nos círculos dos “cidadãos de bem”, tem a ver com a sina da maioria: dos desempregados, sub-empregados, mal-empregados, terceirizados, autônomos, vendedores de saco alvejado, ou de qualquer outra coisa nos sinais de trânsito, precarizados de uma forma geral. Essa maioria trabalha muito (desempenha diariamente várias ocupações) e ganha muito mal. Várias destas pessoas acreditam na Teologia da Prosperidade e, entre uma e outra de suas diversas jornadas de trabalho, oram a Deus: na condução, na igreja, em casa… São sempre obrigados a recorrer aos serviços públicos, cujo acesso, todos sabemos, é pra lá de estrangulado: o que os leva muitas vezes a recorrer a relações pessoais para entrar na fila; ou para furar a fila… Patrimonialismo puro!

Caricaturas à parte, essa representação da desigualdade social preocupa por ter ascendido a um caráter de normatividade discursiva, que não só justifica e legitima a vida “como ela é”, como passou a fundamentar a proposição ( ou a eliminação) de políticas públicas, focadas na redução da iniquidade.

Essa reflexão é tornada relevante pelo primeiro aniversário (em 11 de Novembro) da reforma trabalhista, aprovada com a escusa da geração de mais empregos, mas de fato responsável pela redução da massa salarial e pelo agravamento da precarização do trabalho, agora despojado da rede de proteção que compensava o baixo valor de sua remuneração. Dependendo do nosso sistema de consentimentos, podemos interpretar as vítimas desta política como gente sem sorte, ou sem mérito, ou, em termos mais tradicionais, como pessoas brutalmente exploradas.

Essas considerações também se destacam no contexto de uma discussão cada vez mais atrasada sobre políticas educacionais. Começando pela infame “Escola Sem Partido”, na verdade Escola Sem Ciência, Sem Debate e Sem Crítica.

Escola que quer jogar no lixo o acúmulo de quase duzentos anos de investigação e elaboração analítica sobre a sociedade, a cultura, a linguagem, a arte, a vida.

Engraçado que quando o lado de lá se beneficia deste legado científico (por exemplo, usando Inteligência Artificial para disparar mensagens mentirosas em listas de zap e influenciar o resultado eleitoral), aí a Ciência é bem vinda… Ou alguém acha que sem pesquisa linguística (lexicográfica) e psicossociológica (especialmente, antropológica), esses desenvolvimentos tecnológicos seriam possíveis? Pensam que vão fazer essa graça só com estatística? Vão sonhando…

Mas quando se recorre às ciências históricas, às ciências sociais, às ciências cognitivas para interpelar e interpretar as desigualdades de classe, de gênero ou de raça, aí tudo é “ideologia”… e a “civilização cristã” fica em perigo! Na verdade, o perigo está em que o legado das ciências desnaturaliza a desigualdade e coloca sua reversão como uma possibilidade real.

Eis porque a aliança perversa entre obscurantistas e mercadistas radicais _ essa aliança materializada no personagem Bolsonaro _ ajuda a criar o pior dos mundos. Um mundo em que as pessoas, como agentes uniformes e descontextualizados, são responsáveis pelo seu próprio sucesso _ ou pelo seu próprio fracasso.

Um mundo em que o estado nada mais é que um estorvo para os briosos indivíduos, investidos de benignos valores tradicionais; nesse mundo, a esfera da política oscila entre a irrelevância e a crítica moralista.

Curiosamente, esta visão de mundo vem sofrendo contestação ativa no próprio centro do capitalismo de onde procede. Alguns sinais a serem considerados: as reestatizações em curso na Grã Bretanha, onde a onda thatcheriana já quebrou e as pessoas descobriram que educação, saúde, saneamento são melhor geridos na órbita pública. Da mesma forma a constituição de um sistema público de saúde e a gratuidade da educação superior foram bandeiras vitoriosas nas midterm elections dos Estados Unidos, quando os Democratas recuperaram a maioria na Câmara dos Deputados e elegeram um número maior de governadores.

Assim como gênero, a pobreza é também uma construção social. O resultado de dinâmicas históricas iníquas, de expropriação, às vezes violenta, da riqueza comum. Nesse momento da história humana em que a quinta revolução tecnológica promete um acúmulo inédito da riqueza do mundo ( em condições inclusive de maior sustentabilidade), ninguém merece a pobreza.

E mais que imerecida, a pobreza é uma afronta à condição humana e uma ferida aberta no tecido civilizacional.

Por isso cabe combatê-la: na escola, na política , na gestão da economia. Nesse combate, a razão humana é aliado imprescindível. Não permitiremos nem que a suprimam nem que a domestique.

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