Foto: Mídia NINJA

 

 

O presente artigo é inescapavelmente objeto da história, ainda que de forma inerte e não por méritos próprios.

Isso se deve em razão da natureza de seu tema: Lula e os destinos do Brasil.

Porque quando este artigo for publicado, é bastante provável que já conheçamos o desenlace do julgamento no TRF-4.
Contudo, esse não será um desfecho final, nem ao caso em si, nem à história de Lula.

Em um dos melhores documentários brasileiros de tempos recentes, “Utopia e Barbárie”, Silvio Tendler sustenta que o mundo assistiu, em diferentes ocasiões, momentos de efervescência social, de avançar do espírito libertador e progressista, serem seguidos de períodos de aumento da intolerância e do radicalismo, ambos de cunho conservador.

Do alto de sua sabedoria, Lula fez recentemente reflexão semelhante. Abordando, sem maniqueísmo ou falsa profundidade, o Brasil pós-junho de 2013, Lula lembrou que, às vésperas daquelas manifestações, poucos ousariam supor que, quatro ou cinco anos depois, alcançaríamos o ponto no qual estamos.

De um país em pleno emprego, que venceu a miséria absoluta, que derrotou exemplarmente a crise econômica de 2008, para um país onde subvertem-se a instituições para derrubar uma presidenta legitimamente eleita, para acabar com direitos sociais, para privatizar o patrimônio nacional – para caçar de forma implacável a maior figura política que este país já teve.

Mas Tendler não encerra seu documentário apontando a vitória da barbárie. Pelo contrário, recorre a Galeano para lembrar que “a história é uma senhora misteriosa”.

Mesmo frente a diversos percalços, temos resistido bravamente à barbárie.

O golpe de 2016 está nu. Os golpistas, sem qualquer legitimidade popular. A contrarrevolução neoliberal patina junto a improvável aprovação da reforma da previdência. Sem esquecer a luta de resistência que feministas, sem-terra, sem-teto, negros e negras e outros tantos movimentos corajosamente protagonizam.

Tão importante quanto tudo isso, a guerra contra Lula entra em inconteste refluxo.

Pelo país, espalham-se a cada dia novos Comitês pela Democracia, tal qual os comitês Lula de 1989.

Junto à sociedade civil, é cada vez maior o questionamento dos métodos de juízes e procuradores da Lava-Jato.
Internacionalmente, diversos juristas e figuras públicas denunciam a caçada imposta contra Lula, condenando os artifícios injustamente empregados.

É mais do que emblemática a foto divulgada na mais recente quinta-feira (18/01). Às vésperas de um novo encontro com artistas e intelectuais, Lula admira uma camisa do movimento Diretas Já, de 1985.

Movimento que proporcionou um reencontro do país consigo mesmo. Poucos foram os momentos em que vivemos tamanha mobilização social e, mais importante, unidade popular.

À época, nos últimos respiros da Ditadura Militar, era particularmente improvável conceber um metalúrgico liderando o processo de reconstrução da democracia no Brasil, consolidando-se, anos depois, como a maior liderança política do país.

Hoje, pareceria improvável supor que um homem contra quem pesam anos de constante perseguição na mídia, contra quem quase toda sorte de acusação já foi feita, contra quem persevera o mais nítido ódio de classe, seja justamente aquele a suportar a tarefa de recolocar o Brasil nos rumos da democracia.

Por mais improvável que seja, essa é a História que estamos às vésperas de testemunhar.

Não é sempre que temos o privilégio de ver a História acontecer diante de nossos próprios olhos.

Contudo, os dias de hoje exigem que sejamos protagonistas, não expectadores. Que sejamos mais que olhos, mas mãos, bocas, coração.

Ao ser publicado, contra este artigo pesarão alguns dos acontecimentos da História.

Que seja o de uma belíssima e pacífica manifestação pró-Lula em Porto Alegre. Que seja o de milhões de brasileiros e brasileiras, país afora, indo às ruas para reivindicar a garantia dos direitos a todos e todas, inclusive a Lula.
Que esses acontecimentos sejam o começo da reconquista da democracia; do país que mais uma vez vai ao encontro de si mesmo e mais uma vez faz a esperança vencer o ódio e o medo.

Custe o que custar, leve o tempo que for preciso. Com Lula e pelo Brasil.

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