Waleska Maria lopes foi expulsa da sala de aula da UFRN porque estava acompanhada da filha de 5 anos (Foto: Sergio Henrique Santos/Inter TV Cabugi)

Carta aberta ao professor Alípio Sousa Filho.

“Me senti muito mal. Minha filha perguntou se não podia mais assistir às minhas aulas. Se era por causa dela. É uma grande humilhação”.

Essas foram as palavras de sua aluna Waleska Maria Lopes, estudante de Ciências Sociais da UFRN, após o senhor proibi-la de frequentar seu curso de Sociologia acompanhada de sua filha de cinco anos.

Waleska divide apartamento com outras pessoas, que não são parentes. Durante o dia, trabalha como atendente de telemarketing.

Para o senhor, a Universidade não tem nada a ver com o problema de Waleska não ter com quem deixar a filha. O senhor declarou que ela não teria que estar estudando na Universidade, pois a Universidade seria apenas para quem “tem condições”.
O senhor declarou ainda à reportagem do G1 que ficou agradecido pela repercussão de seu discurso, que seria uma defesa da Universidade pública.

Perdão, mas essas declarações constituem um pot-pourri de equívocos. E seu currículo respeitável, seu doutorado e pós-doutorado em Sociologia e sua especialização em Foucault, apenas tornam esse espetáculo todo ainda mais deprimente.

Sua fala é de elitismo e misoginia que poucas vezes vemos tão escancarados no ambiente acadêmico.
Defender a Universidade pública é o oposto de defender a perpetuação das oligarquias que por décadas e décadas frequentaram os bancos universitários, passando-os de geração em geração como se fossem uma herança de família.

As políticas de interiorização da Universidade, de cotas raciais, de assistência estudantil, foram a defesa mais radical de uma Universidade verdadeiramente pública e democrática, justamente porque garantiram o ingresso de tantas Waleskas.
A Universidade não pode, não quer e não deve ser locus de manutenção do establishment. Ela se reinventou ao se colocar como fator determinante de mobilidade social através da democratização do conhecimento.

E nós, professores e professoras, temos um papel fundamental nisso. Porque as políticas de assistência estudantil não iniciam e nem se encerram em bolsas estudantis. Elas devem também ser transversalizadas por ações de toda a comunidade acadêmica para integração dos discentes para quem a Universidade ainda se mostra um ambiente inóspito e, muitas vezes, hostil. Indago ao senhor, professor Alípio: se a Universidade não é para Waleska, para quem é a Universidade?

Indago também: como um professor que pauta questões de gênero em sala de aula nunca foi confrontado com a ideia de que uma das facetas mais perversas da misoginia, do ódio à mulher e do ódio à presença da mulher nos espaços em que ela não é bem-vinda, é justamente a expulsão dos nossos filhos e filhas desses espaços.

Ontem mesmo publiquei coluna aqui na Mídia Ninja falando da injusta divisão do trabalho de educação dos filhos, que deveria ser compartilhado de forma equânime entre mães e pais. Que a desigualdade na divisão do tempo dedicado a essa tarefa implicava exploração da mulher e resultava em sua exclusão dos espaços de poder públicos e privados.

Qual não foi minha tristeza ao, na primeira hora do dia 08 de março, me deparar com a notícia de que Waleska foi proibida de frequentar seu curso em razão da presença da filha.

E isso não é problema da Universidade?

Bem, pelo que entendi isso é conteúdo programático da sua disciplina: violência de gênero. Defender uma Universidade pública e democrática é defender que Waleska e sua filha saibam que a Universidade é para elas.

Espero que essa carta aberta o encontre em um momento feliz, que é o momento em que nós professores aprendemos com nossos alunos e alunas.

Liana Cirne Lins
Professora da Faculdade de Direito da UFPE

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