O que é um nome? O nome é aquilo que de fato nós somos. Leandra é o nome que o Brasil conheceu em 2017, um nome que representa o corpo no qual ela se reconhece.

Foto: Tássio Lopes

E é por isso que diversas mulheres e homens no Brasil batalharam para ter seus nomes respeitados. Pessoas que um dia acordaram, se olharam no espelho e perceberam que são mais do que aquilo que foi colocado biologicamente, também são o conjunto psicológico, cultural e querem ter a estética que se reconhecem.

Para além de decretos judiciários, a população trans luta para ser tratada e reconhecida como ser humano e o primeiro passo é o nome.

O Brasil lidera o ranking mundial de homicídios de travestis e transexuais. Tudo o que conseguimos e chamamos de avanço foi o direito à existência: um decreto que autoriza o uso do nome e o acesso por uma portaria do SUS ao processo de transexualização. E quando pensamos que conseguiríamos mais avanços, nosso país foi tomado por uma onda conservadora que anda dominando os territórios que ocupamos. As mídias livres se posicionaram e tomaram conta das redes sociais, como o Facebook. E na semana passada, ela foi colocada à margem, no território em que a sereia nasceu. Foi negado o direito básico de sua existência. O mundo chama Leandra e o preconceito cala esse nome.

[…] Hoje mudo meu discurso sobre nunca ter sido desrespeitada, violada, atacada e censurada. O “destaque”, adquirido através do meu trabalho em conjunto com grupos de luta incríveis e revolucionários, me trouxe carinho, admiração e respeito, mas tem efeitos colaterais. Pela primeira vez, pude senti-los de forma drástica:

No último dia 17 tive meu perfil no Facebook atacado por grupos de ódio organizados em massa. O alvo foi uma foto com o amigo, também deficiente, Marco Gaverio (doutorando em ciências sociais UFSCar).Em suma, os ataques eram direcionados ao fato de termos nossos corpos bem longe do que o “padrão” podrão impõe.

Em um país onde as pessoas com deficiência não são ouvidas da maneira que deveriam e travestis sequer tem oportunidade de fala, incomoda ver um ser “estranho”, ”bizarro”, ocupando lugar de fala e mérito. Dói muito ver “O TRAVECO ALEIJADO” tornando-se referência e conquistando, no grito, dignidade e um espaço já deveriam ser garantidos a nós, taxados como “minorias”, mas que o conservadorismo de mente fechada, cega e ignorante nos rouba.

Agora vem a cereja do bolo: minutos depois dos ataques, meu perfil da plataforma do Facebook caiu. O próprio site de relacionamentos, devido às varias denúncias, me enviou um “lindo” comunicado: “Parece que você está usando um nome no Facebook que viola as nossas políticas.”. Eu explico: denunciaram meu perfil por uso de nome falso e agora o Facebook não me permite usar meu nome social sem antes comprová-lo enviando meus documentos que, devido a “ágil justiça” (sentiram minha ironia?) para pessoas Trans no Brasil, não são retificados. Sem pensar nessa questão, sem me dar opções de justificar meu nome social, o site derruba meu perfil e, sem uma análise criteriosa, resolve alterar para o gênero masculino, me levando a desativar meu próprio perfil devido ao constrangimento.

Agora, o grande questionamento: Quem culpar? As pessoas frágeis, mesquinhas e desinformadas que denunciaram minha conta na tentativa fútil de me calar, ou a uma plataforma com mais de 1,2 bilhão de usuários que não está preparada pra lidar com esse tipo de situação e assegurar o direito pelo uso nome social às pessoas Transexuais? A campanha do orgulho serve de que? “Celebrate Pride” do que? Pra quem?


Um recado: NADA VAI ME CALAR! Perdi uma batalha hoje, mas não perdi a guerra. Só saio do campo se todxs os meus deixarem de resistir, e sabe quando isso vai acontecer se depender de mim? 
Nunca.

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Introdução : Karina Pierroti
Revisão : Melissa de Assis 

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