Foto: Tássio Lopes / Mídia NINJA

Não há dúvidas que qualquer pessoa com algum tipo de deficiência precisa sim de toda uma estrutura que facilite a vida dela em sociedade, e “Rampas e Corrimão” são sim coisas que “facilitam” essa alta performance que é ser uma pessoa com deficiência no Brasil. Tendo em vista que qualquer tipo de tentativa de “acessibilizar” esse corpo diferente dos demais é cara e de difícil acesso para pessoas com deficiência que na teoria vivem com R$ 954,00 (salário mínimo). Isso se todos recebessem algum tipo de benefício, o que não ocorre. Segundo o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística conhecido como “IBGE”, o Brasil possui 45 milhões de Pessoas com Deficiência (PCDs), e o Governo federal informa que 2 desses 45 milhões recebem algum benefício, então grande parte ainda se fode com essa precariedade.

Retomando o foco ao título do texto, está longe de ser acessibilidade falar apenas de rampas, corrimão, e elevadores, pois querendo ou não, esses são suportes que facilitam apenas parte da vida de uma pequena parcela de pessoas que possui algum tipo de deficiência, como as de pessoas com baixa mobilidade em geral, idosos, cadeirantes e todos aqueles que desafiam os padrões pré estabelecidos por nossa sociedade. É só a “pontinha” do grande iceberg que é a acessibilidade. É pensar no mais óbvio e não na grande variedade de corpos e particularidades, que vai desde surdos a anões, obesos, deficientes visuais, etc.

E agora saindo do quesito acessibilidade básica para ampliar o nosso debate para as questões mais amplas da vida de uma pessoa com deficiência, para tratar da real acessibilidade e inclusão social, deixo um questionamento: “Será mesmo que a vida das pessoas com deficiência se resume a corrimão e rampa?”

Eu acredito cegamente que não. “Mas por que Leandrinha?”. Porque eu cresci em um espaço que não foi e não é acessível, e por muito anos morando com minha família eu necessitava de auxílio para tudo. Até mesmo beber água, pois o filtro ficava alto demais para que eu alcançasse. Resumindo: eu não sentia “tanto” a falta de acessibilidade já que tinha sempre alguém por perto fazendo com que tudo se tornasse mais “fácil”. Porém isso mostra o que é viver num mundo inacessível.

Por muitos desses anos, eu fui uma pessoa frustrada com o que eu era. Com o meu corpo, com minhas mãos, com o que eu via no espelho, com minha SEXUALIDADE e muito confusa. Pois eu não entendia o propósito de ser uma cadeirante com o corpo torto, e muito menos sacava do porque dos olhares das pessoas em cima de mim, de curiosidade, espanto ou pena. Isso é reflexo dessas situações que eu enfrentava e também da ausência de referência que tive.

Eu só entendia que eu estava condenada a sempre viver à margem! Me escondendo atrás da cadeira de rodas, e mais, escondendo tudo que eu achava estar “errado” em mim fisicamente, por exemplo.

Me faltou espelhos humanos, ou melhor, sereias iguais a mim pra eu olhar e dizer: “Olha, se essa pessoa é assim eu também posso ser”. Até o episódio “Espelho”, que foi onde eu dei um ‘start’  na minha vida através da minha própria sexualidade. A partir daí eu “bugo a terra”, pois era uma CADEIRANTE, TRANS E QUE FALA DA SUA SEXUALIDADE abertamente para centenas, hoje milhares de pessoas. O que resultou em pessoas que me odiassem ou me amassem, caindo também num conflito louco para os que levam a vida a ferro e fogo… “Eu tenho pena e amo ela por ser uma deficiente ou eu a odeio por ser uma trans que fala sobre sexo abertamente?”

A falta de figuras iguais a mim me fez falta, pois a liderança de pessoas com deficiência que eu via deixava um vácuo em como trabalhar com si mesmo no sentido de reconhecer sua própria deficiência, tendo sempre como pauta “única” adaptar-se ao mundo com relação a mobilidade. Pouco de si mesmo era falado e para mim, naquela época, era sem dúvida mais relevante tentar entender o que eu era e viver bem comigo mesma. “Corrimão e Rampa”, naquela fase não era o que eu precisava. Eu precisava primeiro me encontrar e reconhecer, para depois pensar numa estrutura onde eu fosse viver, saber quais eram as minhas demandas e não apenas reproduzir o que era imposto. Afinal, do que adiantaria eu viver em um “mundo acessível” se eu estava um “caquinho de vidro”?

Ser essa figura “nova” que fala de sexualidade da forma que eu falo é REVOLUCIONÁRIO E EMPODERADOR, SIM! Pois a cada dia que se passa mais pessoas se identificam com meu discurso. Mais pessoas se olham no espelho em primeiro lugar e compreendem o espaço que podem e devem ocupar. Não quero desqualificar uma luta e sim lembrar que outras também merecem atenção.

Entender que mobilidade é um tema que ainda precisa muito ser discutido, levando em consideração a cada particularidade e, assim, chegar num consenso do que é necessário para nós. É pensarmos de forma crítica a acessibilidade, inclusão, benefícios e direitos, através do conjunto de movimentos e da pluralidade das pessoas com deficiência e de seus corpos.

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