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Arte: Mídia NINJA

Pensar uma coluna é um desafio, é como se você tivesse que escolher o melhor trajeto pra subir uma montanha. Um trajeto que te estimule, nunca desanime e que conquiste as pessoas. Você sempre quer fazer algo legal, que contribua. Nem sempre dá certo.

Resolvi escrever neste primeiro texto sobre algo que me fez refletir muito e me causou marcas pra vida inteira. Vai ser um relato cheio de sentimentos e que pode cair no “subjetivismo”.

Não deixarei de falar: preciso abrir esse porão em que a sociedade nos coloca e romper com a ideia de que tenho que ficar em silêncio.

Nós, que somos militantes, somos acostumadas a fazer ações clandestinas. Passamos horas em nossos coletivos discutindo as formas e meios para executar os atos. Manter o sigilo e alcançar o alvo é fundamental. É tudo cirurgicamente pensado e construído de forma coletiva. Isso nos fortalece, nos dá segurança. Debatemos exaustivamente todos os pontos para que não dê errado.

E, olha, mesmo assim, algumas vezes dá errado.

Mas, em abril desse ano, me vi em uma situação em que o ser clandestina era algo que me incomodava. Me questionava: Mas por quê? Já fiz tanta ação. Por que essa me incomoda?

Descobri que tava grávida.

◇ ◇ ◇

Comecei a sentir uns enjoos. Uma falta de apetite. Olhava pra comida e achava estranho, sei lá. Daí, alguns amigos começaram a brincar e dizer que eu estava grávida. Na minha cabeça não havia nenhuma possibilidade disso acontecer. E soltei um: “sai daí”. Isola. Bati três vezes na madeira, pra manter a tradição.

Quando voltava do banco em direção ao trabalho, resolvi parar numa farmácia e comprar o teste. Comprei! Fiz ali mesmo, no trabalho. Fiquei impressionada com a rapidez com que os dois pauzinhos aparecem. ‘Esse lero-lero de esperar cinco minutos é uma farsa’, pensei.

Me aproximei de uma amiga do trabalho e pedi pra ela comprar mais dois exames de gravidez de farmácia.

‘Eu não estou grávida’, pensava. Fiz os dois testes. Mais uma vez me impressionei com a rapidez com que os dois pauzinhos apareceram.

Impressionante. Até agora fico surpresa.

Mandei mensagem pro meu companheiro e avisei que precisava encontrar com ele para conversarmos. Nesse momento eu estava mergulhada numa mistura de riso e choro. Pra mim, aquilo não era verdade. Eu não podia estar passando por aquilo. Ahhhh, não podia. Era uma pegadinha, com certeza.

O encontrei e mostrei os exames. Pra ele também era impossível que pudesse ser verdade. Lembro que ele comentou que poderia ser um falso positivo. Eu disse que não existe isso. Mas, sei lá, naquele momento, essa ideia do falso positivo me confortou, e comecei a pensar que poderia ser verdade, não estava grávida.

Fui fazer o teste de sangue. Na coleta do sangue, a moça me perguntou se eu já tinha feito o teste de farmácia. Eu disse que sim. Ela me perguntou quantos. Falei que três. E ela com um sorriso feliz, me disse: ahh, então você só veio confirmar. Eu respondi que tinha ido confirmar que pode existir um falso positivo, e era eu!

Deu positivo! Estou realmente grávida.

Começa a pressão: a decisão é minha, só minha. Meu corpo. Minha vida.

Não era verdade, não podia ser verdade. Mas era. Com quem compartilhar? Como compartilhar? Qual o limite? O que posso falar? Genteeeee, estou numa cidade estranha, sem família. CAOS! Que merda!

Decidi pelo aborto.

◇ ◇ ◇

Nunca foi um plano meu ser mãe. Não era um plano estar grávida, pelo menos agora. Que mancada. Que irresponsabilidade com minha vida. Ahh, que peso. Antes de saber que estava grávida, sempre comentava que achava que a decisão do aborto era uma decisão difícil, mas nunca tinha a dimensão do que é tomar essa decisão. Já tinha escrito textos sobre isso. Tenho que ser forte. Sou forte!

A ação clandestina era comigo agora.

E de uma forma não planejada. Não tinha um coletivo para me apoiar. Era uma clandestinidade forçada. O alvo era eu. A decisão era minha. Era meu corpo, minha vida. Como me senti só. Como pesava. Eu me culpava tanto. Mas, também, não podia pensar muito. Tinha que correr contra o tempo.

Comecei a pesquisar e ver que método eu escolheria. Li uma cartilha do governo que fala sobre o uso do Citotec. Manda fazer um ultrassom antes, pois pode ser uma gravidez tubária – a pílula não adiantaria, é caso cirúrgico –, e outro depois de tomar a pílula, pra confirmar o aborto. Ensina a usar de forma segura. O outro método era ir a uma clínica, também clandestina, e pagar uma fortuna.

Eu só chorava. Não acreditava. Conversei com algumas pessoas de confiança. Pedi ajuda! Era o que eu mais precisava naquele momento.

Me sentia clandestina. Uma criminosa. Como se tivesse fazendo algo super errado.

As pessoas notavam que eu não estava bem. Me perguntavam o que estava ocorrendo. O corretor no meu celular trocava qualquer palavra por gravidez.

Várias mulheres grávidas e felizes começaram a aparecer na minha frente. Amigas grávidas. Que inferno!

Por força do destino, o desfecho dessa história é que não fiz o aborto, nem cheguei a comprar nada ou ir a qualquer lugar.

E, por isso, posso falar sobre de forma tão aberta e não me sentir mais clandestina.

A minha gravidez era tubária. Poderia ter morrido na mesa do aborto.

Só descobri que o embrião estava nas trompas depois de sentir dores muito fortes e de resistir até onde consegui a ir ao hospital, com medo de ser uma cólica qualquer, me mapearem e me obrigarem a ter um filho/a.

Ao chegar no pronto-socorro a trompa estourou. Tive uma hemorragia. Me tiraram um litro de sangue. Tiveram que fazer uma laparoscopia. Entrei em choque. Acordei na UTI. Sem a trompa esquerda. Entubada. E com um caninho que levava a noradrenalina até meu átrio. Depois fui pra enfermaria. Fiquei dois dias.

Tenho uma cicatriz de cesária, que me fará lembrar todos os dias das dores, da clandestinidade, do sofrimento e da quase morte.

◇ ◇ ◇

Ainda não consegui digerir tudo o que aconteceu. Foram os 15 dias que abalaram minha vida e de muita gente próxima. A ficha não caiu por completo. Eu lembro de lances, de momentos. Cada flashback vem carregado de muito choro. Cada ardência na cicatriz é um choque de realidade.

A experiência de passar por tudo isso e de ter sido muito bem tratada pelo SUS me coloca também como uma defensora-mor desse sistema e, mais, uma defensora de que o aborto possa ser realizado livremente em qualquer unidade que atenda pelo SUS.

No momento de ataques aos nossos direitos, é nossa tarefa levantar essa bandeira e exigir que o SUS seja cada vez mais humanizado e que todas as pessoas tenham o mesmo acesso de tecnologia e cuidado que eu tive.

Fui bem assistida e pensei que, se o aborto fosse legal e pudesse ser realizado de forma legal pelo SUS, estaríamos prevenindo as formas inseguras de abortamento com os altos índices de morte materna e morbidade referente às sequelas por aborto, como infertilidade e histerectomia, tornando o aborto uma questão de saúde pública. Só assim não seríamos mais clandestinas por obrigação.

Mas a vida segue e o desejo de que o aborto seja debatido de forma séria, sem moralismos e longe de fundamentalismo religioso, é cada vez mais presente e necessário.O Estado laico, em uma democracia, não deve criminalizar qualquer conduta para impor determinadas concepções morais ou religiosas.

É necessário que o debate sobre o aborto saia do âmbito do fundamentalismo religioso e paute a autonomia das mulheres para decidir se seguirão adiante ou não com a maternidade.

A criminalização do aborto contribui para ampliar a segregação social em nosso país, em que gênero e raça estruturam a pobreza e a exclusão.

São as mulheres pobres, de maioria negra, as que mais sofrem com a criminalização do aborto, por estarem submetidas à falta de acesso à saúde, educação, moradia, alimentação e ao aborto inseguro.

Essa pauta deve sair da esfera clandestina e ser debatida com seriedade e responsabilidade.

 

 

Foto: Levante Popular da Juventude

Foto: Levante Popular da Juventude

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