Primeira edição do torneio em São Paulo mobiliza milhares de jovens jogadores das periferias

Foto: Matheus Akio

A primeira edição da Taça das Favelas em São Paulo colocou a várzea no noticiário, nas capas dos jornais e, depois de quase 20 anos, em transmissões ao vivo na televisão. Jovens de 14 anos ou mais, de diversas periferias da capital, tiveram prestígio e destaque tanto quanto jogadores badalados dos grandes clubes brasileiros.

Promovido pela Central Única das Favelas, CUFA, do empresário Celso Athayde, um dos nomes mais fortes na articulação e desenvolvimento de atividades culturais, esportivas e de assistência social nas quebradas de todo o Brasil, o campeonato superou as expectativas dos organizadores.

Torcida organizada da Favela 1010, time da zona oeste que disputou a final masculina. Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

As fases seletivas da Taça das Favelas mobilizaram cerca de 2880 competidores, nas categorias feminina, igual ou acima de 14 anos, e masculina, de 14 a 17 anos. 96 equipes lutaram para se destacar e alcançar o título do torneio, que teve a grande final no Estádio do Pacaembu, entre Complexo Casa Verde e Paraisópolis, entre as meninas, e Parque Santo Antônio e Favela 1010, nos meninos, com vitória de Casa Verde e PSA.

Esses números revelam a grandiosidade do futebol de várzea de São Paulo, mas não a realidade em que vivem esses jogadores, muitas vezes sem estrutura para jogar e treinar, sem recursos para transporte, materiais e para manter-se no esporte, mesmo entre aqueles que chegaram longe na competição.

“Quando começamos, não tinhamos lugar para treinar. Eram só 7 meninas no início, hoje temos uma escolinha, que é o PS9, Complexo Casa Verde, em uma base de 90 meninas das comunidades próximas”, conta a treinadora e presidente do Complexo Casa Verde, Daiane Silva. “Treinamos todos os dias, temos pessoas que colaboram com a gente com materiais, pãozinho, lanche, suco, mas nada de dinheiro”.

Foto: Walter Junior / Mídia NINJA

A falta de verba para custear o mínimo é o principal problema da grande maioria das equipes, principalmente das femininas, em que a visibilidade e apelo popular é menor, tornando ainda mais complicado parcerias para investimentos em infraestrutura.

“Só de pisar aqui, chegar aonde a gente chegou, temos que nos aplaudir. Foi na garra, na vontade, no coração e força de vontade, porque treinar a gente não treina, o campo de várzea não é como o campo profissional, tudo isso pesa”, explica a jogadora e artilheira de Paraisópolis, Marluce Aureliano. “A gente precisa de incentivo e apoio, porque sem isso não chega em lugar nenhum”.]

Jogadora de Paraisópolis, Marluce é artilheira da equipe na competição. Foto: Walter Junior / Mídia NINJA

Apesar disso, milhares de pessoas atravessaram a cidade até o Estádio do Pacaembu e fizeram uma linda festa, mostrando que não é só time grande que tem torcida organizada. Mesmo as equipes eliminadas no decorrer dos jogos, marcaram presença para celebrar o futebol de várzea.

“A minha favela, de 32 equipes, chegou em terceiro. Foi uma vivência incrível, não tenho o que falar, foi algo inesquecível na minha vida, vamos levar pra sempre”, comemora a treinadora Kenia Paloma, da Favela Parque Santa Madalena. “As meninas foram eliminadas nas semis, mas foi uma conquista enorme, por isso que eu trouxe uma torcida nossa aí para vibrar nosso terceiro lugar, porque nós somos de favela mesmo”.

Jogadoras de Paraisópolis se consolam após derrota na final. Foto: Walter Junior / Mídia NINJA

“Não temos estrutura nenhuma, é fazendo rifa, arrecadando dinheiro para comprar fardamento, bola, material, transporte para ajudar as meninas, porque a maioria delas não tem como se manter. A gente conseguiu levar a equipe para Taça das Favelas, e a classificação em terceiro lugar para nós é uma vitória, estamos aqui como se tivéssemos ganho o primeiro lugar, porque se você ver a dificuldade que a gente passa na nossa favela, de 32 equipes chegar em terceiro é uma vitória”, avalia a treinadora.

Pisar pela primeira vez no estádio do Pacaembu não é exclusividade somente dos jogadores, muitos torcedores conheceram pela primeira vez o complexo na final do torneio, uma união entre torcida e time que, atualmente, não se vê nem nos grandes clubes de futebol.

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

“É um orgulho ver a nossa quebrada chegar em uma final dessas, representando todas as comunidades. A gente tem pouca ajuda, tem uma estrutura até legal, conseguimos jogar bola lá e em outras comunidades, só que aqui é outro nível, a molecada entrando no estádio, é um sonho para todos, não só para meu irmão, que está jogando pelo Rio Pequeno, mas para todas as favelas. Espero que, independente de quem seja, suja um novo craque para o Brasil nessa Taça das Favelas”, diz o torcedor da Favela 1010 / Rio Pequeno, Jefferson Roberto.

O sucesso da competição foi celebrado por Celso Athayde, que se disse surpreso com o tamanho do futebol de várzea em São Paulo, e já prometeu a realização da segunda edição da Taça das Favelas em 2020, oportunidade de ouro para a garotada que sonha em um dia pisar nos maiores campos de futebol do mundo e para o poder público entender demandas dos clubes amadores, estreitar laços e criar políticas públicas para desenvolvê-los.

Foto: Matheus Akio / Mídia NINJA

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

 

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