Maconheiro é tudo igual em todo canto? Só cola boy? Tem que prender todo mundo?

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

A 11ª Marcha da Maconha de São Paulo aconteceu neste sábado, 1, e levou cerca de 100 mil maconheiros à Avenida Paulista, em uma das maiores manifestações pela regulamentação da cannabis em toda a história. Mas, quem cola nesse role? Quem foi viu o que? E quem nunca colou, espera quem?

Cobertos por uma densa neblina de fumaça, foi fácil sacar que não há unidade entre a multidão que tomou conta do centro da cidade cinza. Então, se sua expectativa em colar na Marcha é ver só boy, ou só quebrada, ou só esquerda, ou só direita, deu de cara em uma parada que transcende nichos e consegue como nenhum outro movimento atual aglutinar pessoas de espectros sociais, raciais e de gênero totalmente distintos.

Essa é de longe a maior vitória da marcha e, diga-se de passagem, não aconteceu por acaso. A primeira Marcha que colei foi em 2012, quando eu, então morador do bairro do Cocaia, extremo sul de São Paulo, saquei de cara que a maioria dos participantes do rolê não era da mesma classe social que a minha e nem tinha passado 2 horas em um busão pra fazer essa correria.

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Descentralizar a marcha, mobilizar coletivos nas quebradas para atividades regionais e pontuais, manter o caráter autônomo e participativo, com reuniões abertas, em que não existem detentores de poder, seja através de grupos ou partidos, são os pontos que identifico como aqueles que tornam possível esse rolê ser tão diverso e abranger tanta gente.

Daí, eu volto na pergunta: quem cola nesse role? Você, maconheiro, que colou na Marcha da Maconha, colou por que? O que te tirou de casa em um sábado chuvoso?

Com quem conversei, o papo voou desde “só colei pra fumar um na frente dos vermes” até “tem que legalizar pra acabar com o encarceramento em massa”, do mano Bolsonaro que acredita no estado mínimo e na maconha como liberdades individuais, até a mina que trampa com redução de danos na cracolândia e constrói toda uma plataforma de atuação voltada para o fortalecimento de políticas públicas no cuidado com pessoas em situação de rua e dependentes químicos.

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Nesse sentido, fumar maconha é um ato político e fazê-lo na Marcha da Maconha tem um significado foda. Quantos não são os maconheiros que não tem coragem de contar para os familiares que curte dar uns tragos? Quantos chegam a ser expulsos de casa? Quantos não são ameaçados de internação? Quantas famílias não rompem? Apesar de parecer algo simples, não é: fumar maconha é perigoso.

Quantas pessoas não pegaram até 4 anos de pena por algumas gramas de maconha? Quantos não foram espancados e deram uma “volta” no camburão só pra ver PM louco de pó curtir com sua cara? Quantos não foram simplesmente exterminados a sangue frio? Maconha é paz, mas no estado em que vivemos o bagui é loco.

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Exemplo disso é como, principalmente quem é de periferia, está acostumado a fumar bem ligeiro, olhando pra um lado e pra outro pra ter tempo de reação caso apareça uma viatura. Quase naturalmente, um amigo que estava comigo na marcha, toda vez que um PM ou GCM passava, escondia o back com medo de enquadro. “Eu que não quero ser o único enquadrado no meio dessa galera toda”. Quem já tomou esculacho sabe que não pode dá mole.

Já um outro, mais ousado, querendo tirar um barato, cada vez que passava um fardado ele soltava fumaça bem perto, só pra dar risada da cara deles que faziam careta com o cheiro e aquele jeito de putinho por não poder fazer nada. Cada um tem a vingança que pode ter, não julgo.

A Marcha, sendo um território livre de desobediência civil contra a criminalização da cannabis, catalisa uma sensação provisória de liberdade para quem está refém da criminalização, principalmente aquelas que vivem nas quebradas, territórios marginalizados em que a população tem seus direitos cerceados. Como desmerecer quem cola só pra fumar? É disso que se trata, não é?

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Se trata disso e muito mais. Muito mais! A Marcha abre as portas do muito mais para quem, desinformado, vai sacando o que é o bloco da cannabis medicinal e a importância dela para uma série de pessoas, conhece o bloco da redução de danos e como ela muda a vida de quem precisa de cuidado humanizado, entende o que é encarceramento em massa e qual o papel da Guerra às Drogas nesse processo, e por aí vai.

Hoje o debate sobre drogas vai longe das questões que trouxe nesse texto, estamos debatendo sobre as mudanças na Lei de Drogas, que deve encarcerar e internar a população mais pobre, a votação da descriminalização do usuário de drogas recém adiada no Supremo Tribunal Federal, a chamada Lei Rouanet das Comunidades Terapêuticas, que permite doação de imposto de renda para essas instituições, conhecidas por violar direitos humanos, o quase extermínio da redução de danos como política pública pelo governo Bolsonaro, e por aí vai.

Essas pautas, apesar de atingirem profundamente nosso povo, passam muito longe do debate popular. Nos reconhecermos, entendermos como nos ligamos e como podemos fortalecer essa base para quem está começando a encostar na Marcha, a entender o rolê canábico e das drogas, possa também chegar junto nesses debates nacionais, mobilizar suas comunidades, compreender as relações sociais intermediada pelas drogas em seus territórios, etc.

As portas do conhecimento estão mais uma vez abertas para muitos que tem na Marcha da Maconha o único contato com esse tema. Procure saber!

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

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