As mil faces de um homem “reciclado” e descartado pelo estado

Narciso Rodrigues Dourado Filho, ex-beneficiário do programa De Braços Abertos, em restaurante no Centro de São Paulo. Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

1 mês atrás. É manhã na cidade de São Paulo. O sol acaba de despontar seus primeiros raios sobre os arranha céus, e a população começa a tomar as ruas da capital. Trens, metrôs, ônibus, carros, a metrópole rapidamente é tomada por milhões de cidadãos. No entanto, são apenas 7h da manhã, e ainda faltam 1h para que os moradores do Hotel Santa Maria, no Centro, despertem para seu trabalho de varrição diário.

Apesar disso, o clima de tensão no local fez com que muitos dos 28 hóspedes perdessem o sono. Há apenas dois dias, eles receberam a notícia de que poderiam perder a estadia no prédio, supostamente por infrações encontradas pela vigilância sanitária. A esperança, todavia, prevalece, e eles se mantêm fortes aguardando uma reviravolta na decisão.

O relógio, ao datar 7h40 do dia 26/01, também marcou o passo do ranger da entrada principal e da subida degrau por degrau de um estranho. Seu nome, José Castro, seu cargo: chefe de gabinete da Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social da Prefeitura de São Paulo (SMADS). O alto cargo confere a Castro o poder de selar com um só documento o destino de muitos homens.

Da sua boca partiu a ordem: os 28 moradores do local deveriam pegar o que fosse possível e sair o quanto antes daquela casa, que há pelo menos 2 anos habitavam.

2 anos. 2 dias. 2 pesos e 2 medidas.

“Foi o dia mais triste da nossa vida”, conta Narciso Rodrigues Dourado Filho, 51 anos, morador do prédio. Seu pequeno apartamento, dividido com mais três parceiros, foi uma conquista, após mais de 30 anos afundando no crime, nas drogas e na miséria, realidade que conheceu mais do que qualquer outra.

“Foi a mesma coisa de ter tomado um tiro ou uma facada pelas costas, uma traição”, lamenta Narciso. “Eles jogaram algumas coisas no caminhão, mas eu perdi tudo. Muitas pessoas perderam tudo, e muitas coisas ainda estão lá dentro”.

4 anos atrás. O então prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), começa a trabalhar em um programa para atuar naquele que era tido como o maior problema social da cidade: a Cracolândia. Estávamos diante de um cenário de “Epidemia de Crack”, estampado dia sim, dia não, nos maiores noticiários do país.

Durante 6 meses, a prefeitura trabalhou em identificar modelos que pudessem compor de uma só vez todos os problemas apresentados naquele território: vulnerabilidade social, situação de rua, dependência química, tráfico de drogas, doenças crônicas, violência, repúdio e medo a toda e qualquer ação do estado. Uma combinação que, se mal trabalhada, explodiria a qualquer momento.

A nova casa de Narciso, uma república no Centro. Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Explodiu.

100 reais. “Foram 100 reais que salvaram a minha vida”, lembra Narciso, mantendo a postura austera e a fala rouca, entrecortada pela tosse constante. “Foi um presente de aniversário”. Morador do fluxo da Cracolândia, durante o dia trabalhava em um hotel na rua Helvetia. A patroa gostava do seu trabalho e soltou o peixe como retribuição dos serviços prestados.

A noite prometia. Desceu para o fluxo daquele jeito com a nota na mão. Até que encontrou uma companheira.

― Narciso, preciso de 100 reais se não eu vou morrer.

A dívida era com outro companheiro, mas a lei da rua não conhece amizade, se não pagasse até o fim do dia, não veria outro dia. Ela estava vendendo o barraco que tinha levantado no fluxo, era sua única chance.

― Eu compro o seu barraco, você paga ele, e pode continuar morando aqui comigo. Não vou te deixar na mão.

Explodiu.

A Cracolândia chegou a um limite. Tomada por barracos, uma comunidade se formou, e com a pressão da imprensa, a prefeitura teve que tomar uma medida. Com o desenho de um novo programa chamado De Braços Abertos, deu início à abordagem aos donos dos barracos. Entre eles, Narciso.

“Eles me deram toda a orientação, aí eu ergui a mão. Foi o primeiro barraco que se cadastrou. O Haddad veio e me deu abraço, ele disse assim: infelizmente só você que foi o privilegiado, o pessoal não quer ir, então a gente não vai obrigar, só que o barraco não vai existir mais, e você vai para a sua própria casa”, recorda.

30 anos antes. Órfão de pai e mãe de uma vez. A vida humilde na Freguesia do Ó, periferia de São Paulo, estava cada vez mais crítica. Para ganhar uma grana, pegava droga na quebrada e vendia na badalada Boca do Luxo, ou mais popularmente, Boca do Lixo. Em casa só aparecia a noite para dormir. Envolto na criminalidade e no tráfico, a situação com os familiares só piorava, e quando os perdeu, mergulhou. Sozinho, conheceu o crack.

Desesperado, passou a morar na rua. Fumando cada vez mais, chegou a consumir de 100 a 150 pedras por dia. Quanto maior a dose, maior o custo, maior a dívida e maior o risco. O crime foi uma consequência natural.

Eram os anos 1990, em que a Cracolândia estava começando a nascer. “Tudo o que eu aprendi foi nesse mundo, eu sofri, já passei pelo vale da sombra e da morte várias vezes. Mas Deus não permitiu. Vezes de eu estar deitado em uma calçada, as pessoas passarem com álcool e joga fogo na manta. Quando você vê, já tem alguém ao seu lado te acordando porque está pegando fogo. Eu sentia aquela quentura, se não tirasse logo, morria”.

A revolta, a falta de dignidade e o vício tornaram os crimes mais violentos. Não demorou muito para conhecer o sistema penitenciário.

20 anos. Essa foi a pena por latrocínio, a ser paga no Carandiru, maior penitenciária da América Latina à época. “Já ouviu falar de Lúcifer? Que veio do Inferno com moral, um dia no Carandiru, ele é só mais um, comendo rango azedo com pneumonia”, como diz Mano Brown em Diário de um Detento.

“Fui para lá na época do massacre. Sou um dos sobreviventes. Estava no Pavilhão Nove. Conseguimos sobreviver”.

Narciso carrega no peito o que mais presa na vida: a religião e a chave de casa. Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

15 anos na tranca. Pena paga com a sociedade? O destino é só um: o fluxo. Nada mudou. 100, 150 pedras por noite. O trabalho no hotel, um salário baixo para manter o vício alto. A vida girava em falso, nas mesmas proporções, sem expectativas. Foram 10 anos até que uma nota de 100 o colocasse em um novo rumo.

“O DBA mudou a minha vida em 100%. Antigamente eu andava triste, chorando, sempre cansado e com medo. Hoje eu ando de cabeça erguida, sou alegre, sei conversar com o próximo e respeitar. Antes eu não sabia o que era isso. Não sabia o que era um sorriso e ter amor ao próximo”.

Um passo de cada vez.

O primeiro foi no Hotel Laide. Lá, morou 1 ano “na boca do fluxo”. Não foi fácil. O acesso à droga vinha de onde menos se esperava. De acordo com ele, os próprios funcionários da ONG Brasil Gigante, que administrava o programa na época, os incentivava a consumir crack, e para isso emprestavam dinheiro sob altos juros.

“Eu pedi a minha transferência de lá, porque ali você contava nos dedos quantas pessoas trabalhavam e quantas ficavam na boca de espera de dinheiro. Eram poucos que tinham disposição para acordar às 8h da manhã. Tinha pessoa que passava o dia inteiro dentro do hotel consumindo droga e quando a gente queria descansar, não conseguia, porque eles ligavam o som, a televisão, brigavam a noite inteira”.

O segundo passo foi a mudança para o Hotel Santa Maria, no Centro, em 2015. Nesse momento, também houve uma mudança na administração do programa, que passou a ser gerida pela ONG Adesaf. Com isso, oficinas passaram a ser oferecidas para os beneficiários. Narciso abraçou o artesanato e o corte de cabelo. Hoje ele pinta quadros e tem a sua arte como fonte de renda.

Narciso viu no artesanato a chance que precisava para voltar a trabalhar em algo que gostasse. Com isso, conseguiu ter mais respeito por si e ganhar conceito com a sociedade. Antes, em situação de rua, suas roupas eram descartáveis, sempre sujas e rasgadas, não conseguia entrar em estabelecimentos, pois era vítima do preconceito. Agora, já estabelecido em um lar, a vida é outra.

“Hoje em dia eu tenho um banheiro, um sabonete e meu banho diário, posso pegar as minhas roupas, esfregar e lavar no tanque, ter um fogão e fazer a minha própria comida”, conta orgulhoso.

Cada etapa foi mudando a forma como se relacionava com o vício. O consumo caiu gradativamente.

Narciso exibe com carinho a camiseta que é marca do seu trabalho de varrição nas ruas do centro de São Paulo. Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

1 ano atrás. Narciso recebeu o seu salário mensal pelo trabalho de varrição. Foi para o fluxo e comprou 10 pedras de crack. Com o bolso cheio, em seu quarto, pegou o cachimbo de alumínio, o encheu com as cinzas do cigarro e colocou a pedra dentro.

Ele levou o cachimbo a sua boca e deu um trago forte. O último trago. A sensação não foi da brisa de sempre. Não. Daquela vez o seu corpo parece ter dito: não! E essa resposta se traduziu em vômitos ininterruptos.

Chorando, sentindo calafrios por todo o corpo, ele teve uma febre repentina. Todos ao seu redor estavam preocupados.

― Você está bem, Narciso? Precisa de ajuda?

Em silêncio, ele pegou as nove pedras que restavam em seu bolso, colocou entre as mãos, e começou a quebrá-las uma a uma, formando uma espécie de farinha entre os dedos.

― Não, não, Narciso! Me dá! Não joga fora! ― gritavam cerca de sete companheiros de prédio.

― O que eu não quero de ruim para mim, eu não quero para vocês. De hoje em diante eu não fumo mais.

Ele abriu a mão e despejou tudo dentro da privada e deu descarga.

1 ano.

O tempo de abstinência de Narciso, às vezes atenuada apenas por um mescladinho  [combinação de maconha com crack], também é o tempo de governo do prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB).

“Para a nova prefeitura a nota que eu dou é 0. Eles entraram fazendo um serviço muito ruim”.

“De Braços Abertos para a morte”. “Lixo vivo”. Essas são algumas das expressões do tucano, que notabilizou a sua gestão pelas ações repressivas contra pessoas em situação de rua e usuários de crack.

A maior ação repressiva culminou exatamente com um encerramento postiço do programa. O relógio acabará de marcar 6h, quando cerca de 900 policiais civis e militares, e agentes da Guarda Civil Metropolitana entraram no fluxo da Cracolândia.

Em pouco tempo, o que eram barracas e pertences dos usuários, tornaram-se uma enorme montanha de lixo que cobriu toda a vista. Nada sobrou.

De forma ainda mais simbólica, o atual Secretário de Desenvolvimento e Assistência Social, Filipe Sabará (NOVO), entre sorrisos, foi pessoalmente retirar a placa do De Braços Abertos, que estava colada à entrada da tenda de acolhimento do programa localizada na região.

“Antes da pessoa julgar o próximo, ela tem que ir, sentar ao seu lado e acompanhar o dia a dia, para conhecer a pessoa, saber se é aquilo que a sociedade fala mesmo. Agora a pessoa julgar você sem saber quem você é, te julgar pelo seu passado, é muito ruim. O meu passado foi para um mar de esquecimento, eu quero lembrar agora é do meu presente”.

Até o momento, a Prefeitura de São Paulo fechou 2 dois 8 prédios pertencentes ao espólio do DBA. O primeiro foi o Santa Maria, em que Narciso morava, e o outro foi o Impacto. Cerca de 94 pessoa perderam as suas moradias com a determinação. O programa ainda possui 6 prédios em funcionamento, 2 nas periferias e 4 no centro.

Na última semana, a SMADS encerrou o chamado Programa Operação Trabalho (POT), que organizava toda o sistema de varrição realizado pelos beneficiários do DBA. Com isso, parte dos usuários são assimilados pelo novo programa chamado Trabalho Novo, e os demais terão que procurar novas oportunidades.

Para Narciso, a principal mudança está no olhar de quem está no comando. “Um ex-dependente químico é considerado um lixo. Esse “lixo” é descartável para a sociedade. O antigo prefeito olhou para nós e viu que esse “lixo” pode ser reciclado, e no futuro vai dar algum fruto. O Doria quer colocar a gente como “esse aqui não tem mais jeito, é descartável, pode jogar no lixo”’.

“A gente quer marcar uma audiência com você, Sr. Dória, conversar pessoalmente, montar uma equipe para você saber quem são aqueles que falam de redução de danos, para você ver a gente, como éramos e o como somos hoje, para perceber o que está fazendo conosco”, exige.

O destino dos ex-beneficiários do De Braços Abertos, de acordo com a Prefeitura, foram os Centros Temporários de Acolhimento (CTA), localizados na região da Luz e Campos Elísios, no Centro. Narciso e parte dos seus companheiros estão vivendo em uma moradia temporária na mesma região. O local é uma república, em que ele divide o quarto com outros 3 ex-usuários do DBA.

Narciso caminha na república em que está vivendo. Lá ele não tem acesso à TV e rádio, e não pode levar os seus pertences. Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

O quarto tem a mesma proporção do que Narciso vivia no Hotel Santa Maria, possui 2 beliches e gaveteiro. A moradia é provisória e terá o tempo máximo de 4 a 6 meses, para que eles consigam ganhar autonomia e buscar suas próprias oportunidades.

“Eu sou aposentado e tenho possibilidade de viver em outros lugares. Mas e aqueles que estão marcados por serem ex-presidiários ou por já estarem velhos para fazer alguma função? Eles vão para onde?”, questiona.

“Se você andar pelo centro, vai ver muitos dormindo nas ruas. Ali mesmo, na Alameda Northmann, tem quatro beneficiários dormindo na calçada. Cada esquina que você passa, vai ver ex-beneficiários. Foram poucos que ficaram nos CTAs, porque foi um choque o que aconteceu”.

Neste momento difícil, Narciso revela o seu sonho. “O que eu quero é que não acabe o programa De braços Abertos. Nós estamos em redução de danos. Se a gente dava trabalho, agora procura não dá, e aqueles que estão dando, a gente procura ir até eles para tirá-los daquela vida e trazer para o nosso meio, para terem uma vida exemplar, uma vida de ser humano”.

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