por Juan Manuel P. Domínguez e Nahor Lopez de Souza 

.

 

 

 

 

Tu tinhas para mim tanto encanto
o teu amor me era mais caro
do que o amor das mulheres,
Como caíram os heróis
e pereceram as armas de guerra?
(2 Samuel 1,26-27)

 

Eu nunca disse “cuidado com os homossexuais transexuais gays por levarmos vidas antinaturais ou por sermos depravadas em nossos desejos.” Eu nunca disse isso…

Eu disse “cuidado com os autoindulgentes e os hipócritas, cuidado com aqueles que se imaginam virtuosos e proferem julgamento, aqueles que condenam os outros e se consideram bons. Seus lábios são cheios de bondade mas seus corações estão plenos de ódio”. (O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu)

Baseada no texto da dramaturga trans Jo Clifford, com direção de Natalia Mallo e interpretação da atriz Renata Carvalho, a peça “O Evangelho segundo Jesus, rainha do céu” foi uma das mais relevantes aparições em questão de artes cênicas dos últimos anos. Desde sua estreia, em 2016, foi alvo de críticas, ameaças, tentativas de censura e, finalmente, censura. Foi suspensa por decisão judicial em 2017, em Jundiaí, alegando a ridicularização dos símbolos como a cruz e da própria religiosidade. Mais conhecido foi o acontecido no Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), em Pernambuco. Com o tema Viva a Liberdade, o FIG 2018 incluía duas sessões da peça, nos dias 27 e 28 de julho. Mas foi o prefeito Izaías Régis (PTB) e o secretário de Cultura do Estado, Marcelino Granja, que vetaram a apresentação. “O Festival de Inverno de Garanhuns foi criado para unir e divulgar expressões culturais e não para dividir e estimular a cultura do ódio e do preconceito”, dizia a nota apresentada pela secretaria de Cultura do FIG. A própria Daniela Mercury, que participava do festival, se solidarizou com a equipe envolvida na peça e pediu pela defesa da liberdade de expressão e da atividade artística.

“O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu” é uma peça que transcende o espetáculo teatral para nos lembrar do verdadeiro significado da encarnação de Cristo: a empatia, a aceitação da diversidade, o perdão e o amor como médios de conexão com o outro. Ao longo da peça, a Renata faz citações a passagens bíblicas, encarnando a figura de Jesus, na sua estrada até o martírio.

A Bíblia é um dos livros mais misteriosos quanto aos padrões de gênero. Apesar de muitos declararem que ela trata da criação do homem e da mulher em um padrão dicotômico, o livro do Gênesis traz o homem e a mulher como imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1,27). Seria Deus então um ser homem e mulher? Ou que transcenderia essas categorias, somente aplicáveis aos humanos? O texto bíblico continua em uma menção puramente masculina, plausível para a época escrita. Inclusive Deus é sempre referido como Senhor (no masculino). O nome de Deus, em hebraico, Yahweh, se traduz como “Eu Sou Aquele que Sou”, aumentando ainda mais o mistério sobre quem seria Deus (Êxodo 3,14).

Apesar da condenação da pederastia (Levítico 20,13), há na Escritura uma curiosa história relacionada ao rei Davi e seu amigo Jônatas, filho do rei Saul. Quando Davi recebe a notícia da morte de Saul e Jônatas, ele faz esse elogio, deveras intrigante: “Tu tinhas para mim tanto encanto, o teu amor me era mais caro que o amor das mulheres” (II Samuel 1, 26). A falta de clareza nesse texto abre um leque de interpretações.

A pessoa de Jesus Cristo, encarnação de Deus dentro da teologia cristã católica, abre uma outra forma de interpretação. Por que encarnar em um ser masculino? Isso é fácil compreensão. No seu contexto, Deus só seria ouvido na forma de um homem, que detinha os “direitos” de profecia e pregação. As próprias tradições judaicas da época davam ao homem um perfil de destaque: só ele podia ler nas sinagogas. Se Deus encarnasse na forma feminina, provavelmente não teria êxito, mas sua pessoa masculina fez enfrentamento ao machismo e misoginia da época, vide o caso da defesa da mulher adúltera em João 8,1-11. Parece paradoxal, mas ser homem era a melhor forma de Deus legitimar o confronto contra a hipocrisia machista da época.

Jesus também toca em um ponto relacionado a uma possível confluência da diversidade do espírito. Ao ser perguntado pelos saduceus (grupo religioso que negava a ressurreição) de um caso de uma mulher que casou com sete irmãos sucessivamente (lei do levirato: ao morrer um homem, o irmão assumia a esposa do falecido), na ressurreição, a mulher seria esposa de qual dos 7 que ela casou? Jesus responde que todos serão como anjos no céu. Ora, as criaturas espirituais, como imagem e semelhança de Deus, são indiferentes ou transcendentes na divisão de gênero imposta no cotidiano humano.

Santo Tomás de Aquino, o maior teólogo católico, escreveu, nas Questões Disputadas sobre as criaturas espirituais ser os corpos movidos pela substância espiritual (Artigo 6, r. 12). Na própria Suma Teológica, ele refuta uma tese de Aristóteles sobre a fraqueza da mulher, do seguinte modo, trazendo, de modo inédito, uma visão sobre a igualdade de gênero na teologia: “(…) na natureza humana em geral, a mulher não é ilegítima, mas está incluída na intenção da natureza como ao trabalho de geração. Intenção geral da natureza depende de Deus, que é o autor universal da natureza. Portanto, na produção de natureza, e não só os machos, mas também as fêmeas” (Suma Teológica I-II, q. 92, a.1, arg 1 [a tese] e ad 1 [a resposta à tese]).

Não há nenhum problema teológico em pensar na encarnação de Deus em qualquer forma humana. Jesus, nascido em Belém (Beth Lehem, a cidade do pão), uma pequena e insignificante vila, entre os animais, e criado em Nazaré, na Galileia, periferia mal falada entre os judeus, poderia ter vindo temporalmente na atualidade através do corpo do homem favelado, da mulher transexual, da criança marginalizada.

O Espírito Santo não têm gênero, ou até mesmo transcende a questão de gênero. Deus é o povo que o ama e habita em seu coração.

.

Entrevista NINJA com a atriz Renata Carvalho:

Como descreve a sua experiência na peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”?

Renata Carvalho: A rainha Jesus foi um divisor de águas na minha carreira, ela me proporcionou a minha profissionalização enquanto atriz, me levou e me leva a lugares que nunca imaginei pisar, transformou minha percepção como artista, me tornou mais humana e foi uma grande base empírica para meu aprofundamento enquanto pesquisadora e transpóloga. Este trabalho abriu discussões na arte, no judiciário, na religião e na política.

Sofremos cinco casos de censura no Brasil (Jundiaí, Salvador, Rio de Janeiro, Garanhuns e Recife), fora as constantes ameaçadas de morte e espancamentos, violações, ataques, difamações e fake news que venho sofrendo desde a estreia do espetáculo em agosto de 2016. Hoje tenho certeza que a melhor coisa que aconteceu com a peça e para minha carreira foram as censuras, foi através delas que minha voz foi ampliada e alcançou diversos lugares

Qual é o lugar que a sociedade em que vivemos deu para as travestis?

Renata Carvalho: O único lugar onde somos aceitas completamente é na prostituição. É isto que esperam de nós: a rua, a esquina e a marginalidade. A transfobia é estrutural, a construção social e imagética em cima dos nossos corpos é muito forte. Somos um corpo fetiche e hiper sexualizado, criminalizado, patológico e endemoniado. Quando nos percebemos travesti automaticamente todas essas mistificações e folclores são incrustados em você, independente de quem você seja ou do que você faça, você é uma travesti e isso já basta para te deixar marcada.

Consegue ver na arte uma ferramenta para construções emancipatórias?

Renata Carvalho: A arte tem o poder de transformação, ela fez isso com a minha vida. Eu sou artista porque eu quero mudar o mundo, pelo menos o mundo que eu alcanço, e a arte têm o poder de abrir mentes, corações e jogar luz em questões da sociedade que são de difícil abertura. Meu conterrâneo o dramaturgo santista Plinio Marcos diz: “O artista é um repórter de um tempo mau”, e nós estamos em um tempo mau, precisamos ser reportes desse tempo. Essa é a nossa função.

Agenda Renata Carvalho

Estou filmando um longa-metragem em Catalão – Goiás, meu primeiro longa é a realização de um sonho, com direção de Daniel Nolasco “Vento Seco”, em setembro gravo outro longa “Os primeiros Soldados” de Rodrigo de Oliveira que será rodado no Espirito Santo. Em outubro filmo um curta com direção da travesti Galba Gogóia “Janaina”. Esse ano volto para Edimburgo apresentar “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” comemorando os 10 anos da estreia da Jo. No segundo semestre volto em cartaz com meu novo solo “Manifesto Transpofágico” que estreou na MIT – SP deste ano. Estreia em agosto duas series que fiz parte “Toda forma de amor” no Canal Brasil com direção de Bruno Barreto e “Pico da Neblina” na HBO com direção de Fernando e Quico Meirelles.

* Este artigo foi escrito por Juan Manuel P. Domínguez e Nahor Lopez de Souza

*Nahor Lopes de Souza Junior é graduado em Filosofia e pós-graduado em Direitos Humanos, Filosofia e Sociologia. Atualmente é educador, palestrante e escritor, membro da Academia Brasileira de Hagiologia.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

André Barros

Não se combate o tráfico na favela

Araquém Alcântara

Araquém Alcântara: 'A Ferro e Fogo'

Tainá de Paula

Tainá de Paula: Wilson Witzel e o chicote da barbárie

André Barros

É o coco do Figueiredo ou o cocô do Bolsonaro?!

Dríade Aguiar

Uma sessão solene para minha tia, uma marcha para minha vó

NINJA

Feminismo nas igrejas: "não queremos tomar o poder dos homens, mas destituí-lo"

Liana Cirne Lins

Brasil abaixo de fezes, cocô por cima de todos

Tainá de Paula

Tainá de Paula: A (não) política habitacional de Witzel e Crivella

André Barros

Bolsonaro é pior que Creonte

Pedro Henrique França

Djanira: clipe de Illy aborda a descriminalização da maconha e empreendedorismo da cannabis

NINJA

“Não colem em mim esse discurso da meritocracia”, diz Conceição Evaristo

Preta Rara

A senzala moderna é o quartinho da empregada

NINJA

A criminalização do aborto e o feminicídio de Estado

NINJA

“O samba é a coisa mais importante na cultura brasileira”, ressalta Zé Luiz do Império

Mônica Horta




Criadores autorais do Brasil... cadê vocês?