Se eu puder dar apenas dois conselhos para um feliz dia das mães eu sugiro que você lave suas cuecas e lute contra as contrarreformas de Bolsonaro.

Foto: Fabiano Rocha

Queremos um mundo de felicidade e direitos para todas as mães e suas crias. Infelizmente vivemos em uma sociedade que não gosta das mulheres e menos ainda das mães. Por isso precisamos de um dia específico para dizer que as mães são importantes, e também (sobretudo) para que o mercado possa auferir seus lucros, já que o dia das mães só perde para o Natal em termos de vendas.

Mas não nos enganemos com esse amor provisório do segundo domingo de maio. Pode ser fake.

Me tornei mãe aos 22 anos, há 22 anos atrás. Foi um prazer enorme, depois que passaram as dores da cesárea, a fome no pós-parto e as rachaduras no peito. Aquela bebezinha me deu a sensação de que nada mais importava no mundo e eu estava disposta, como ainda continuo, a qualquer coisa para defendê-la. Quando meu segundo filho nasceu, quase 6 anos depois, eu vivi novamente esse prazer e essa alegria e ele foi grudadinho comigo por muitos anos. Agora ele me dá um abraço meio à distância, afinal não fica muito bem pra um moço de 16 anos ficar muito perto da mãe.

Sou muito feliz por ser mãe. Mas não nos enganemos. A maternidade não é só alegrias. Dizem que ser mãe é padecer no paraíso, mas muitas vezes ficamos pensando como o paraíso se ausenta de nós, nesta sociedade.

Vou tentar explicar isso: primeiro que a maternidade é um problema até para as não mães. Ela é compulsória na nossa sociedade que é machista, autoritária, racista, lgbtfófica, capacitista, como se a maternidade fosse finalidade ou essência do feminino. As mulheres não mães, por escolha ou contingência, são lembradas disso o tempo inteiro, são, na verdade, cobradas a realizarem esse projeto hegemônico que pode não ser o delas, mas que socialmente é tido como o único jeito de realizar uma mulher. Então uma luta importante é pelo direito da mulher escolher ser ou não ser mãe.

Para as mães os desafios são gigantes. Vivemos em uma sociedade capitalista que tem como referência o trabalho do homem. Neste contexto o modelo é masculino, exigindo que as mulheres invisibilizem tudo o que remeta à figura feminina, inclusive a maternidade e os/as filhos/as. O mercado de trabalho discrimina as mulheres em idade (considerada) reprodutiva e as mães com crianças pequenas. Muitas vezes a licença maternidade é o fim do emprego. Mesmo nas universidades públicas a licença maternidade acaba por penalizar a mulher naquilo que é considerado produção acadêmica.

Com isso estamos dizendo que os diferentes espaços da sociedade, em geral, são espaços hostis às mães e seus filhos e filhas.

As discussões recentes (e absurdas) sobre o direito da mãe e da criança de amamentar e ser amamentada em público retrata essa hostilidade. Em um mundo frágil, que não aceita a diferença e é centrado no adulto, há um mercado crescente de hotéis e restaurantes que não aceitam crianças e/ou animais de estimação. Cabe-nos, como mães, esconder ou engolir nossos/as filhos/as e fingir que não existem para que possamos parecer ter as mesmas oportunidades que os homens. Fazem isso e querem nos desejar feliz dia das mães. É muita hipocrisia.

A maternidade é um problema também para a participação das mulheres na política. Espaço dominado pelos homens, inclusive na esquerda. As mães e as crianças não costumam ser bem vindas nesses espaços, mulheres são historicamente responsabilizadas pelo cuidado com as crianças e fica melhor pra todo mundo (evidentemente o mundo que importa aos homens) que as mulheres com crianças pequenas fiquem no seu lugar (em casa) para que a movimentação, o choro, a alegria das crianças e seus apetrechos (carrinhos, brinquedos, mamadeiras etc) não atrapalhem o curso normal das reuniões do partido e do sindicato e o ato público. Se ocupamos estes lugares com nossos filhos/as somos questionadas se são adequados às crianças, se os/as deixamos em casa somos questionadas sobre quem está cuidando das criaturas que geramos, no ventre ou no coração. Será que os pais são cobrados em relação a isso? Certamente esse é um dos elementos que dificultam a presença da mulher nos espaços da política institucional, já que é naturalizada sua responsabilidade por “erguer” a família.

A maternidade nesta configuração que vivemos é muito pesada para as mulheres, somos responsabilizadas quase que exclusivamente pelo sucesso de nossos/as filhos/as mas sobretudo somos responsabilizadas pelos “fracassos” deles e delas e da família. Sempre falei para meu filho: tenta ir limpo para escola, porque se não vão perguntar se esse menino não tem mãe. Não é assim?

Crianças sujas, sem tarefa de casa feita, com piolho etc é tudo colocado na responsabilidade da mãe. Os pais aparecem mais no sucesso e na diversão das crianças do que nos desafios diários.

Um aspecto importante desse debate é sobre o amor, o trabalho e a maternidade. Muitas vezes pensamos – ou somos convidadas a pensar – que a forma de amarmos precisa ser apresentada em forma de trabalho. Então, o amor pode vir de uma comida caseira, do banho no bebê, escovar seus dentinhos etc. Penso que esses espaços de cuidados e trocas são essenciais para o desenvolvimento da criança e para o fortalecimento dos vínculos. Então, o problema não é que nós, mulheres e mães, façamos isso, mas o problema é dizer que esse é o único jeito de se vincular, aprisionar as mulheres nestes lugares e ter esse trabalho desvalorizado socialmente, como é o caso das trabalhadoras domésticas, que realizam esse trabalho de forma remunerada. O problema é uma mãe fazer isso a vida inteira por seus filhos e filhas, e reunir a família toda, todo domingo quando os filhos/as já são adultos, para uma confraternização familiar, fundada no seu trabalho e no que cozinha e quando adoece essa família não vai mais visitá-la porque não entenderam amor como reciprocidade. Não entenderam que mães também cansam, adoecem e precisam ser cuidadas.

Então se você ama a sua mãe vá lavar suas cuecas, lavar louças, arrumar a casa, cuidar de seus filhos e filhas. Não confunda o amor da sua mãe com a comida que ela prepara. Cozinhe também. Vá ao supermercado, aprenda a escolher tomates e cortar cebolas. Converse com ela, pense em atividades de lazer e descanso e não só em festinhas em que sua mãe ou sua vó vá cozinhar para você.

Ah, e por último e não menos importante: lute contra as medidas do governo Bolsonaro, porque são contra as mulheres e contra as mães. Somos nós que em geral, cuidamos das crianças, das pessoas idosas, das pessoas com deficiência, das pessoas adoecidas. Quando faltam vagas nas escolas e pioram os serviços de saúde são as mulheres as mais prejudicadas porque sobre elas recairão mais esse peso, mais essa falta do Estado. Vejo mães andando distâncias enormes para levar seus/suas filhos/as à escola, na verdade deveria haver uma escola perto ou transporte público e gratuito. Vejo mães de pessoas com deficiência dedicadas integralmente a cuidar de seus/suas filhos/as e o governo, com a Reforma da Previdência, tem a ousadia de querer baixar de um salário mínimo para 400,00 o BPC- Benefício da Prestação Continuada, sem considerar o quão valoroso é o trabalho que essas mulheres realizam para o desenvolvimento das pessoas com deficiência. Lutemos contra os agrotóxicos, que impedem que possamos oferecer um alimento saudável aos nossos/as filhos/as, uma vez que contamina até o leite materno. Lutemos contra a flexibilização e ampliação do uso de armas. Elas são para o poder dos homens, são para os pais matarem suas mães, continuarão sendo usadas para exterminar o povo negro nas periferias. E as mães seguirão chorando a morte de seus filhos ou visitando-os nos presídios em condições muito distantes de humanas.

O mundo precisa do saber das mães. Aprendido historicamente. Mediação, cuidado, cooperação, socialização. Aprendamos com elas.

Assim poderemos dizer a cada uma delas e a nossa em particular: Feliz Dia das Mães. Eu quero dedicar esse meu texto à minha: Terezinha da Costura. Tem amo, mamãe. Gratidão por ser corajosa e de luta. Só falta aprender a descansar.

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