Foto: Guilherme Gonçalves

Em 2016 estudantes secundaristas compreenderam a gravidade da PEC 241 (que estabeleceu congelamento dos recursos da saúde e educação por 20 anos) e fizeram um importante movimento em defesa da educação pública e contra o governo Michel Temer. Muita gente que não sabia o que era um projeto de emenda à constituição passou a compreender o seu significado. O que estudantes anunciaram em 2016 está ocorrendo: faltam verbas para a educação pública, do ensino básico ao ensino superior e pós-graduação. Estava ruim e piorou. Com o Future-se, Bolsonaro, o golpe “com o supremo e com tudo”, o objetivo agora é destruir a universidade pública. A tática parece ser antiga: primeiro asfixia, precariza, retira recursos. Aí apresenta a solução: privatização. Criar um fundo privado para gerir o público. Como se o problema fosse gestão, como se a saída fosse o mercado, como se não fosse projeto tirar o caráter público das universidades brasileiras.

Na UFU, universidade na qual trabalho, o pesadelo chegou. Ainda não é o Future-se, mas é da família. Veio por meio do Documento SEI nº 1473771, que detalha os cortes em vários serviços e programas de bolsas. No último sábado (17/08) esse documento circulou nas redes sociais e retirou a energia de grande parte da comunidade universitária. Eu me incluo neste grupo. Por mais que possamos nos colocar no grupo que lutou contra tudo que está aí, que poderíamos inclusive dizer: eu avisei, para uma comunidade que, em grande medida, foi insensível aos apelos dos/as estudantes e movimento sindical, está difícil segurar mais esse rojão.

O documento, assinado pelo pró-reitor de planejamento e administração, nas palavras iniciais busca amenizar o drama: “ajuste nas despesas discricionárias da UFU para fazer frente ao bloqueio orçamentário definido pelo Governo Federal”. Não diz: são cortes sobre os cortes. Um mesmo pró-reitor que já defendeu esse governo em conselho, uma mesma administração que homenageou deputado que votou na PEC 241.

Se na introdução as palavras são brandas, a sequência é taxativa e a aplicação é imediata. São dez medidas. De cada dez trabalhadores/as terceirizados/as, cinco ficarão imediatamente sem emprego. Muitos serviços interrompidos como chaveiro, pintura, vidraçaria etc. Grande prejuízo para os campi que não ficam na chamada “sede”. Não haverá transporte intercampi. Cortes nos transportes trarão grande prejuízo para os trabalhos de campo, de uma verba já tão restrita.

A tática parece ser antiga: primeiro asfixia, precariza, retira recursos. Aí apresenta a solução: privatização.

Os grandes atingidos são os/as estudantes. Aqueles mesmos que em 2016 estavam no Ensino Médio e hoje estão nas universidades e que pediram socorro para não deixar a PEC ser aprovada. Muitos dependem de Assistência Estudantil, que tem sua política desmontada desde os últimos três anos. Vejo a fila no Restaurante Universitário crescer à medida que a crise aperta.

Aqui na UFU a medida imposta, sem debate com a comunidade universitária, atingirá mais os estudantes: 60% das bolsas de estágio serão cortadas a partir do próximo mês. São 400 reais mensais, muito pouco, não é? Mas é com esse dinheiro que muito estudante paga comida, material didático, moradia. É com esse dinheiro que muita gente sobrevive. Bolsas do Programa de Graduação, previstas para setembro não serão implementadas. Bolsas de iniciação científica, relativas à contrapartida da UFU para com a FAPEMIG não serão implementadas. Você estudou, investiu no seu currículo, aprovou seu projeto segundo regras muito duras e não terá uma bolsa prevista para o próximo mês “implementada”.

Como professora e militante sindical é um sofrimento viver este momento. Uma colega da minha filha já tinha deixado o curso e retornado à sua cidade de origem quando do corte de bolsa alimentação. Agora essa estatística tende a aumentar. É desolador saber que um sonho, um projeto de vida como estudar numa universidade federal, não possa ser efetivado porque um governo elegeu a universidade pública como inimiga. Não tem surpresa, mas a efetivação é triste.

Frente a tudo isso não dá para esperar. É preciso organizar o movimento dos “Sem Bolsa” frente a esse duro ataque. Teremos que aprender com os sem terra e sem teto como sobreviver a tudo isso. Onde esses estudantes vão morar? O que vão comer? Seremos mais uma vez insensíveis aos seus pedidos de socorro? Proponho uma aliança solidária de todos os movimentos em defesa do direito de estudar. Uma rede de cooperação. Estudantes, não deixem seus cursos! Não vamos deixar esvaziar a universidade do povo negro, pobre, das mulheres, de LGTQI+, das pessoas com deficiência. Foi muito duro para chegarmos até aqui.  Não aceitemos que essas medidas se transformem em estatísticas e sejam vividas apenas como dramas individuais. O ataque é político. É na dimensão coletiva que temos que enfrentá-lo. Vamos somar mais corpos nessa luta. Talvez seja hora de mais ocupações, como diz a palavra de ordem “enquanto morar for privilégio, ocupar é um direito”. Ocupemos tudo. Contra os Cortes, Contra o Future-se: Estudante-se!

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