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Em diversas entrevistas, o deputado Jair Bolsonaro foi questionado pela imprensa sobre tudo o que o país inteiro já sabe sobre ele. Sim, todos nós sabemos que Bolsonaro é homofóbico, machista, racista, que defende a tortura e a pena de morte, que reivindica a ditadura militar, que despreza a democracia. Tudo isso é muito grave, mas não é novidade.

De fato, o candidato fascista usa esse discurso caricato para gerar polêmicas, conseguir que as pessoas falem sobre ele e evitar qualquer chance de ter que expor sua absoluta incompetência e falta de ideias e propostas concretas para a economia, o emprego, a educação, a saúde, o meio ambiente, as relações internacionais, etc.

Por isso, eu estou torcendo para que, nas próximas entrevistas, os jornalistas comecem a questioná-lo sobre esses temas. E acho que chegou a hora, também, de questioná-lo sobre distintos pontos muito obscuros de sua atuação pública que colocam em xeque sua imagem auto construída de político “honesto”.

Os jornalistas poderiam lhe perguntar, por exemplo, o seguinte:

1) Em 2008, a empresa Comunicativa-2003 Eventos, Promoções e Participações comprou uma casa na Barra da Tijuca no valor de R$ 580.000,00. A empresa reformou o imóvel e, apenas quatro meses depois, vendeu a casa para o senhor, pelo inexplicável valor de R$ 400.000,00, um deságio de 180 mil. À época, após a reforma, a prefeitura do Rio avaliava esta casa em R$ 1,06 milhão de reais.

Segundo o COFECI, as “transações imobiliárias com aparente aumento ou diminuição injustificada do valor do imóvel” e “cujo valor em contrato se mostre divergente da base de cálculo do ITBI” tem “sérios indícios da ocorrência dos crimes previstos na Lei nº 9.613, de 1998 [lei de lavagem de dinheiro]”.

Embora esse assunto tenha ido à PGR, não chegou a ser investigado.

Como o senhor, que se gaba de supostamente ser honesto, explica essa transação que, segundo as normas do COFECI, tem sérios indícios de lavagem de dinheiro?

2) Em entrevista à rádio Jovem Pan, o senhor confessou que sempre teve ciência de que o seu então partido, o PP, havia recebido propina de outro partido para que fizesse uma coligação eleitoral. Em outra entrevista à mesma emissora, o senhor também confessou que sabia que, em 1997, o governo FHC estava comprando votos para a emenda da reeleição, tendo ciência inclusive de quem seria o operador do esquema e das quantias oferecidas a cada parlamentar. Mas, mesmo sabendo de todos esses atos de corrupção, o senhor não fez nada durante vários anos – pelo contrário, foi beneficiário da propina supostamente recebida pelo PP, uma vez que este partido financiou a campanha do senhor.

O art. 319 do Código Penal define esse tipo de conduta como crime de prevaricação, punido inclusive com cadeia.

O senhor reconheceu sem querer ou ainda não admite ter cometifo um crime?

3) Recentemente, foi noticiado que o senhor, mesmo sendo dono de um imóvel em Brasília desde 1998, recebeu auxílio moradia por anos a fio. Em diversas declarações à imprensa, o senhor confessou usar esse auxílio para outras finalidades.

Contudo, conforme normas da Câmara dos Deputados, o auxílio-moradia é verba de natureza vinculada, ou seja, não pode ser usada para outra coisa senão o pagamento de aluguel ou estadia em hotéis, sob pena de se caracterizar enriquecimento ilícito e improbidade administrativa.

Tendo em vista que o senhor diz combater a corrupção, pretende devolver os quase 700 mil reais que recebeu indevidamente ou vai fingir que nada aconteceu?

4) Frequentemente, inclusive em um processo judicial, o senhor tem citado como fiadores de sua moral ninguém mais, ninguém menos que Fernandinho Beira-Mar e Alberto Youssef. Um, condenado por homicídios e tráfico internacional de drogas; o outro, condenado por corrupção, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Não é estranho que essas sejam as principais testemunhas de sua honra?

5) Verificando documentos oficiais da Câmara, é possível constatar que, além de ter três filhos ocupando cargos eletivos, o senhor já empregou, em outros cargos públicos onde tinha ingerência, diversos parentes próximos: duas esposas, filho, sogro, cunhada… Aliás, mesmo depois do STF decidir que a prática de nepotismo era violadora da Constituição, o senhor manteve sua atual esposa no cargo por algum tempo. O senhor não acha que despreza demais a moralidade pública em benefício próprio ou de membros da sua família?

6) Recentemente, o senhor afirmou que pratica garimpo de ouro manual com bateia. Contudo, seu nome não está registrado no órgão responsável por autorizar esse tipo de exploração (DNPM – Departamento Nacional de Produção Mineral). Em tese, mais uma vez, o senhor teria cometido crimes de usurpação e contra o meio-ambiente. O senhor confessa um crime dessa natureza porque confia na impunidade?

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