Foto: Sheyden Afroindígena / Mídia NINJA

Para escrever sobre os próximos passos é preciso virar o corpo e olhar para trás, como se olhássemos uma estrada que percorremos e cujas curvas não nos permitem registrar tudo, mas as memórias fundamentais que permitiram definir rumos, alterar roteiros, ultrapassar obstáculos e chegar a importantes destinos.

Os intensos momentos vividos nos últimos dias me fizeram buscar os últimos 35 anos. Foi no início da década de 80, após liderar as greves no ABC, Região Metropolitana de São Paulo, onde uma forte base operária já mostrava sua força mesmo antes da queda da ditadura militar, que já definhava, mas ainda era capaz de exercer a violência política que lá se abateu.

A liderança da presidência daquele sindicato de São Bernardo do Campo se forjou e transformou-se em referência política no Brasil: Luiz Inácio Lula da Silva. Enfrentou a difícil negociação com os patrões, na relação capital/trabalho e liderou o movimento grevista no momento em que o nosso povo já expressava sua vontade insaciável de liberdade. Um Silva já se mostrava ali, carregando a história do migrante do pobre nordeste brasileiro, de inteligência diferenciada, liderança carismática e um discurso de imensa capacidade de mobilização coletiva.

Sua trajetória política o levou para a vida partidária, para o Parlamento como deputado constituinte, mas seu talento mostrou-se junto ao povo na luta pelo comando do Brasil.

De lá pra cá foram muitos encontros com Lula, desde sua primeira disputa presidencial em 89, passando por suas derrotas e duas vitórias presidenciais (2002 e 2006), seguindo por toda a perseguição político-midiático dos últimos anos. Aliás, essa mesma perseguição construída por agentes do Estado que o condenaram sem nenhuma prova e o encarceraram ilegalmente, com um habeas corpus negado ao arrepio da Constituição brasileira – onde estamos? Que país é este? O que farão com as cidadãs e cidadãos brasileiros?

Foi no asfalto de São Bernardo, em frente ao seu berço político, abraçado e carregado pelo povo, como foi eternizado pelas lentes do jovem fotógrafo Francisco Proner, que ele respondeu a mais recente violência política. Um povo solidário, afetuoso e convicto de sua inocência, como ele, que caminhando, atendeu ao mandado de prisão, evitando qualquer risco àquelas pessoas que resistiam à sua absurda e injusta prisão. Foi ferido o princípio constitucional da presunção de inocência, foram violados os prazos recursais, nenhum centavo ilícito foi encontrado em sua vida, nenhum patrimônio não declarado foi descoberto.  Com o mandado de prisão mais célere da história, há um INOCENTE PRESO! UM PRESO POLÍTICO!

É impossível não se emocionar!

É impossível não se indignar!

Usaram muitos instrumentos para chegar até aqui – a Grande Mídia, o capital financeiro, um vergonhoso golpe parlamentar com cara de legalidade.

Tirar Lula do cenário, impedir sua participação nas eleições,  seu retorno à presidência. Quanto medo eles têm!

E que grandeza tem o operário Lula da Silva. Nos três dias que estive no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo pude testemunhar os inúmeros abraços e beijos que eram respondidos na mesma força e delicadeza, solidarizando-se com a dor daqueles inúmeros trabalhadores e trabalhadoras que estavam ali justamente por ele. Em vez de ser apenas consolado, Lula mostrava seu gigante coração e amparava o choro de homens, mulheres, idosos e jovens, que saiam mais fortes e dispostos à luta, com altivez. Entoavam cantos e “gritos de guerra” na manifestação a todo instante.

Algumas das músicas que ele escolheu para o ato religioso feito para Dona Marisa, a quem homenageou na manhã do dia 7, falam muito dele. “MARIA MARIA”, que realça a força das mulheres; “ASA BRANCA”, que expõe a realidade do seu nordeste; “ZÉ DO CAROÇO”, que fortalece a liderança popular da favela; “APESAR DE VOCÊ”, mantendo elevada a esperança de superação; “DEIXA A VIDA ME LEVAR”, que no samba expressa a leveza do seu coração em momentos tão difíceis; “O QUE É”, onde a vida é bonita.

O brilho da relação com a maioria do povo, as manifestações dos artistas em seus shows dentro e fora do Brasil pela liberdade de Lula, as mensagens de lideranças políticas no mundo inteiro, atos que se repetem em praças de vários países, as posições de instituições multilaterais internacionais como a ONU, Mercosul, mostram que a exigência pela legalidade vai aumentar. As ocupações nas praças por todo o Brasil, o calendário de lutas das frentes nacionais, a agenda de entidades gerais, a presença política ampla junto a Lula, mostram que a resistência vai crescer.

A luta democrática e antifascista será crescente, unitária e ampla.

A luta pela liberdade de Lula não é uma questão individual, mas a luta pelo Estado democrático de Direito, pela recuperação democrática, por eleições livres em 2018.

Manifestações criativas e espontâneas se multiplicam. Os fascistas e reacionários destilam seu ódio, mas cada vez mais minoritários. A cada ameaça, caem em desgraça diante da solidariedade do povo brasileiro. Mas estamos atentos à integridade física do nosso presidente Lula e não vacilaremos neste quesito. Todas as providências serão tomadas para identificar e punir os que ameaçam.

O mundo jurídico atuará. A batalha jurídica se intensificará. A Constituição brasileira é clara.

Um Silva se levantou e comandou este país. Isto incomoda muito as elites desta nação potente de maioria negra, feminina e trabalhadora.

UNIDADE PELA DEMOCRACIA E CONTRA O FASCISMO!

#LULALIVREJÁ

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