Imagem de Patrick Baillet

Imagem de Patrick Baillet

Acordamos com a notícia de que o Beco do Batman, um marco da arte pública brasileira e ponto turístico obrigatório de São Paulo, foi pintado de cinza por moradores. Apesar do alarde causado em primeira instância, com exceção de um muro (bem grande), o Beco permanece intacto.

João Batista da Silva, cansado do barulho na região, resolveu pintar o muro, “como um protesto”, ele disse. Mas a cidade responde, rápido, e à altura. O graffiti foi substituído por mensagens de protesto em pixos e lambes.

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Foto: Janara Lopes

A moralização parece ser algo contagiante. O perigo identificado aqui está na inspiração castradora gerada pela postura do atual prefeito João Dória.

Se essa é a vez do grafiteiro ser colocado em posição de marginalidade, é interessante lembrar que as imagens abaixo também foram outrora consideradas transgressoras e amorais.

Ofelia de John E. Millais (1852) e Love Shadow de Anthony Frederick Augustus Sandys (1867)

Ofelia de John E. Millais (1852) e Love Shadow de Anthony Frederick Augustus Sandys (1867)

Midsummer de Albert Joseph Moore (1887)

Midsummer de Albert Joseph Moore (1887)

Sim.

A Irmandade Pré-Rafaelita, grupo artístico fundado na Grã-Bretanha, em 1848, foi considerada precursora da arte moderna e a vanguarda do que aconteceu no cenário artístico até então. O grupo surgiu como uma sociedade secreta que se preocupava com a sinceridade em contraponto ao artificialismo da arte acadêmica.

O olhar descuidado de quem vive em 2017 não conseguirá diferenciá-los tão facilmente dos renascentistas. A perfeição cirúrgica pode ser relacionada aos clássicos da renascença, mas com um segundo olhar, vários símbolos surgem para demonstrar que eles estavam bem afim de colocar os cabelos dos críticos em pé.

Lilith, Jonh collier (1887)

Lilith, Jonh collier (1887)

Os Pré-Rafaelitas eram intencionalmente polêmicos e especialistas em autopropaganda. Eles defendiam o direito dos animais e de melhores condições de trabalho.

Detalhe de “Work”, (1852-63) de Ford Madox Brown

Detalhe de “Work”, (1852-63) de Ford Madox Brown

A abordagem dos artistas também foi considerada sacrílega em alguns momentos, como foi na pintura “Cristo Na Casa de Seus Pais”, de John E. Millais. Charles Dickens, escritor de clássicos como Oliver Twist, era um dos honorários depreciadores do movimento artístico em questão. Ele descreveu a figura da Virgem Maria no quadro de Millais como um tipo degenerado, que era “horrível em sua feiúra”.

“Cristo Na Casa de Seus Pais”, John E. Millais.

“Cristo Na Casa de Seus Pais”, John E. Millais.

No final do século XIX, as pinturas de Dante Gabriel Rossetti, William Holman Hunt, John Everett Millais eram consideradas um assalto aos olhos: censurável em termos de realismo e moralmente chocante.

Bocca Baciata, Dante Gabriel Rossetti

Bocca Baciata, Dante Gabriel Rossetti

Bocca Baciata, que significa “a boca que foi beijada”, é um retrato sensual da amante de Rossetti, Fanny Cornforth. Na época, seus cabelos soltos, suas roupas desabotoadas e a abundância de flores e jóias eram vistos como marcas de uma sedução quase pornográfica.

Repito: moralmente chocante. Dá pra acreditar?

Hoje dá pra imaginar facilmente esse quadro sobre a cabeça da sua avó, enquanto joga buraco com os amigos num domingo qualquer.

Muitos dos temas escolhidos pelos artistas do grupo eram considerados ousados para a época: a pobreza, a emigração, a prostituição e o duplo padrão de moralidade sexual na sociedade – e isso às vezes exige alguns minutos de observação para ser notado.

Um bom exemplo é o quadro ” The Awakening Conscience”, de William Holman Hunt. À primeira vista, os personagens centrais podem representar um jovem casal ou talvez um irmão e uma irmã. Porém, uma inspeção mais próxima mostra que a mulher não está usando um anel de casamento, sugerindo que, na verdade, ela é sua amante.

The Awakening Conscience, William Holman Hunt.

The Awakening Conscience, William Holman Hunt.

Agora, imagine o brasileiro do futuro, daqui há 150 anos, olhando para a história de um equivocado prefeito que, apoiado por uma população moralmente horrorizada, apagou o maior mural de arte pública da América Latina. E que essa população, com delírios de moralização, acabou dando uma forcinha para os ideais higienizadores da atual gestão.

Foto: Chello/FramePhoto/Estadão Conteúdo.

Foto: Chello/FramePhoto/Estadão Conteúdo.

Apenas imagine.

Muitos movimentos artísticos passaram pelo processo de negação e posterior ascensão. Van Gogh só vendeu quadros para o irmão enquanto vivo e hoje é um dos artistas mais caros do mundo. O favorito da sua tia, da sua prima e do guarda da CET.

Escolhi os exemplo dos Pré-Rafaelitas porque é algo que parece tão careta hoje que acaba sendo a ilustração perfeita do meu ponto.

Existem diferentes caminhos a se tomar. Aquele em que se está disposto a abrir a cabeça e apoiar o novo, ou aquele em que se entra na turba que séculos depois será lembrada como os ignóbeis que não foram capazes de enxergar.

Seu João Batista em seu protesto cego, diante do muro pixado e sem o apoio dos vizinhos (que estavam por ali contando aos jornalistas o quanto gostam dos seus muros grafitados), voltou atrás na decisão e ofereceu o muro para uma nova pintura.

É triste constatar que algumas coisas precisam do passar de um século para se tornarem óbvias.

Não é?


(Se você quer ver mais pinturas Pré-Rafaelitas, tem um tumblr (http://fuckyeahpreraphaelites.tumblr.com) dedicado ao tema. E para acompanhar a fantástica diversidade artística do grafite brasileiro, sigam os @instagrafite (https://www.instagram.com/instagrafite/) e o @sampagraffiti (https://www.instagram.com/sampagraffiti/)

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