Nós temos uma casta de intelectuais no Brasil que Glauber Rocha um dia chamou de forma jocosa de “o intelectual mofino da USP”. Sim, é um clichê, mas podemos visualizá-lo: o arquetípico professor/pesquisador, homem branco de óculos e camisas sociais claras, que se expressa de forma rebuscada e não raro enfadonha e “não toma partido” ou melhor toma, pois acha que fala de um suposto “céu de ideias”, que faz “ciência”, que não deixa seu pensamento se “contaminar” pelas urgências do seu tempo já é se posicionar.

Aliás é isso, as universidades formam milhares de professores doutores ‘profetas do dia seguinte”, quando sua ponderada, científica, distanciada, balizada e rigorosa reflexão não incidirá praticamente sobre nada!

Por isso, com todas as simplificações que Jessé Souza possa cometer nos seus livros-manifestos, lhe tenho o maior apreço. Mais do que isso as questões que traz são as questões dignas de serem pensadas e problematizadas no presente urgente!

Nos últimos treze anos o Brasil passou por uma mutação antropológica que jogou por terra, abalou ou pelo menos deslocou alguns dos nossos “mitos fundadores” em uma sociedade profundamente desigual.

As cotas raciais acabaram por demolir a narrativa apaziguadora da “mistura das raças” e da “escravidão doce”; o emergente discurso feminista, LGBT, os corpos trans mostraram o quanto o machismo e patriarcalismo nos viola; a “brancocracia” vem sendo confrontada nos seus privilégios; os banhos de sangue diários nas periferias e favelas mostraram quanto de racismo e ódio aos pobres e negros o Brasil ainda consegue produzir e quanto a escravidão moldou nossas instituições e elites.

Obviamente Jessé Souza não está inventando a roda teórica, mas de forma estratégica valoriza e ressuscita um debate decisivo sobre as noções de corrupção, escravidão e patrimonialismo.

A operação mais importante que Jessé faz é essa: as raízes da desigualdade brasileira não estão na herança de um Estado corrupto, mas na escravidão. Sim muitos outros teóricos e intelectuais negros e brancos já colocaram isso na mesa. Mas voltar a essa questão hoje, depois de todos os processos em que vimos o racismo, o ódio, o horror de grupos inteiros explodir como reação a ascensão de um contingente de sujeitos, é decisivo.

E mais: a demonização do Estado produziu um sujeito oculto das teorias e do debate midiático: o mercado. Eis aqui onde Jessé apanha da direita e da esquerda. Quer desmontar o discurso que “anda sozinho” na mídia, nas redes, nas universidades, nas conversas de bar, nas teorias, que o problema do Brasil é um Estado Corrupto!

O sistema de co-dependência do Estado e do mercado, do qual estamos vendo as entranhas e a forma como os players do mercado comandavam e comandam o Estado dão razão a Jessé. A classe política é “empregada” das empresas! As elites que mandam no mercado, mandam no Estado e são a fonte de corrupção e poder.

Não se trata simplesmente de uma inversão retórica! Jessé coloca de cabeça para baixo o discurso histérico em torno da corrupção do Estado e da necessidade do extermínio da classe política. Que chega para entronizar os empresários e gestores como os “não políticos” que virão nos salvar!

Faz isso de forma pouco educada, pouco fina e brutal para os padrões da nossa universidade e ofende o intelectual cordial.

P.S. Isso posto, podemos voltar a discutir os conceitos e a maravilhosa escola uspiana que fabulou um Brasil, com todo o rigor e com todo o tempo do mundo : )

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