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Deu na Globo: “Greve geral paralisa transportes e cancela voos.” (Na Argentina, dia 6 de abril.) “Manifestações contra o governo”. (De Nicolas Maduro, na Venezuela, em 19 de abril.)

Não deu na Globo: uma única menção, que fosse, às paralisações convocadas para a última sexta, em plena véspera do movimento que levou 35 milhões de brasileiros a cruzarem os braços.

Pegou bem mal, claro. E a emissora tentou limpar a barra no dia seguinte, com flashes ao longo do dia e uma “atenção especial” nos programas matinais, não apenas nos telejornais. O mea culpa foi tão explícito que o JN dedicou uma de suas reportagens à própria cobertura da greve geral, Brasil afora.

O 28A ocupou cerca de 20 minutos do JN –metade do tempo total do telejornal, no dia em que o Brasil parou.

No 13 de março de 2016, um domingo, a “maior manifestação que o país já viu”, contra Dilma (com transporte funcionando e catracas do metrô liberadas em SP, não custa lembrar), os protestos mereceram 15 minutos no Fantástico. Naquele day after, o JN dedicou pouco mais de dois minutos ao tema. E abriu falando em “atos em 337 cidades.”

O dia seguinte, desta vez, somou quatro minutos de reportagens e circunscreveu a abrangência dos protestos a “26 capitais e Distrito Federal”, sem qualquer tentativa de estimar o número de cidades –que a Mídia Ninja contabilizou (e cobriu!) em 273.

O recuo da Globo é sintomático. Mas não pode iludir. O tempo dedicado à cobertura, agora, é só mais uma cortina de fumaça. Não mais que um passo adiante na tática de ilusionismo que ela tem operado, em seus atentados sistemáticos contra a liberdade de expressão.

Em seu teor a cobertura foi inócua, do ponto de vista do que está de fato em jogo: o incômodo com um governo ilegítimo (e corrupto), que tratora direitos na reforma demolição trabalhista, previdenciária e no projeto de terceirização –mas não só.

O JN de sexta abriu falando em “greve geral” e em protestos “na maioria pacíficos”, já na escalada. Mas o terrorismo psicológico dominou as reportagens, Brasil afora. Vandalismo, depredação, violência.

Ou pior: “A polícia respondeu aos ataques com bombas de efeito moral e de gás”, como se ela estivesse sempre em condição de vítima, apenas se defendendo –e quem acompanhou os protestos no RJ e SP sabe que não foi bem assim. Tudo sob medida, claro, para manter as pessoas em casa da próxima vez e inibir o crescimento das manifestações.

Nenhuma liderança política do campo progressista ou de movimentos de base social foi entrevistada, com exceção dos sindicalistas. Nas falas deles, apenas o protocolar: não às reformas; na do governo, uma tentativa de desqualificar o movimento (na lenga-lenga do “direito de ir e vir”) e reduzir o seu impacto –troféu Oléo de Peroba para o ministro Osmar Serraglio, da Justiça, que classificou as manifestações como “pífias” e “quase inexistentes”…

A Globo controla, sozinha, 50% do mercado de comunicação no Brasil. Mas no país em que explora a concessão pública de um patrimônio da nação, se acha no direito de esconder uma greve geral –que afeta a vida de milhões e milhões de cidadãos.

Depois de decretar a morte do jornalismo em seu telejornal de quinta (com o perdão pelo duplo sentido, bastante aplicável aqui), a emissora reduziu a insatisfação dos brasileiros contra o governo mais impopular de todos os tempos a uma “paralisação geral” (porque o termo greve geral estava vetado de início), com foco nas votações em curso no Congresso Regresso Nacional.

A narrativa construída pelas centrais sindicais apontou neste caminho, é verdade. O que não deixa de fazer sentido, como forma de catalisar a insatisfação generalizada e quebrar as resistências de quem foi pra rua de camisa da CBF e se tocou tardiamente de que o tiro do golpe saiu pela culatra, como era de se esperar.

Mas o grito nas ruas era um só: Fora Temer! E ele foi rigorosamente suprimido da cobertura. Nenhuma faixa ou cartaz.

E uma única única menção, de contrabando, no texto da reportagem de Recife, a protestos “contra as reformas e contra o presidente Michel Temer”. Isso em 20 minutos de reportagens –o que, para uma televisão, é uma vida. Exatamente o avesso do que se passou nas manifestações contra Dilma –já que o objetivo final não era combater a corrupção ou reivindicar direitos, mas alimentar e avalizar o golpe.

Insistindo em remeter a responsabilidade das paralisações às centrais sindicais como forma de atribuir a eles eventuais “transtornos” e “prejuízos” e de referendar o fim da contribuição compulsória anual, a Globo pode ter conseguido exatamente o contrário do que queria, encorajando sindicatos e sindicalistas (que saem da greve geral maiores do que entraram) a resglutinarem a resistência.

Duplamente ruim pra ela, na medida em que dá argumentos cada vez mais sólidos para o que já é incontornável: a importância de avançar no debate sobre a regulação a mídia e implementar sistemas de controle social capazes de resguardar o interesse público no funcionamento das concessionárias de rádio e TV –em favor do cidadão, e não apenas do próprio bolso.

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