Gráfico 'A Nova Grande Mídia', estudo realizado por Fábio Malini durante 2014 com todas as páginas de mídia livre atuantes nas redes sociais brasileiras no período.

Gráfico ‘A Nova Grande Mídia’, estudo realizado por Fábio Malini durante 2014 com todas as páginas de mídia livre atuantes nas redes sociais brasileiras no período.

Qualquer veículo de comunicação tem lado. E não há nada de errado nisso. O que não é correto é fingir que não tem. A mídia corporativista brasileira sofre de esquizofrenia. Diz uma coisa e faz outra. Bota banca de isentona, professa o equilíbrio no tratamento das notícias, mas direciona a cobertura, veladamente, para a defesa dos seus próprios interesses –os da elite, da qual é parte.

A cobertura do processo de impeachment escancarou o papel de torcida organizada operado pelas grandes corporações da comunicação no país –e as manifestações do último domingo reiteram isso, mesmo tendo sido o fiasco que foram.

O pano de fundo desse adesismo é, notadamente, a eterna disputa pela verba de mídia dos governos –sem a qual, nenhum veículo do “livre mercado” sobrevive. Haverá sempre outros aspectos, claro. Ideológicos, inclusive. Mas entre o que é melhor para o país, o conjunto da população ou o futuro da humanidade e o que vai render mais para o caixa hoje, sempre prevalecerá esta última opção.

O empresário de comunicação é, antes de tudo, um empresário. E seu objetivo é simples, em linha reta: obter lucro –sempre, cada vez maior. O que na selva do MMA capitalista é absolutamente legítimo, naturalmente. Sobretudo quando não se maneja concessão pública –caso das rádios e das TVs, que exploram um bem da nação e deveriam gerar contrapartidas sociais mínimas, em favor do bem comum e do interesse coletivo.

Houve um tempo em que o caminho para o lucro, no negócio da comunicação, era resguardar o que já foi o maior patrimônio de um veículo de mídia: a credibilidade. Mas a nova ordem digital implodiu a lógica que vigorava. E a perda do controle do mercado, com a pulverização das janelas de mídia e a entrada de novos players no universo da circulação da informação, sepultou de vez qualquer pudor e instituiu o faroeste que se tem hoje.

Se há um efeito colateral positivo neste momento, é o fato de que não há mais ingenuidade possível. A transmissão ostensiva das manifestações verde-amarelas “contra a corrupção” durante o processo de impeachment pela Globonews, com flashes permanentes nos principais programas da Globo ao longo de todo o dia, escancarou o engajamento no esforço de levar o maior número possível de pessoas para as ruas e incidir sobre os destinos da política partidária no país.

De outro lado, a invisibilidade flagrante com que se tratou das manifestações contra as reformas do governo temerário neste mesmos veículos (e nas primeiras páginas dos jornais de circulação nacional) acentua o abismo que se abriu entre os interesses corporativos e os da nação.

Não bastasse o jogo de ilusionismo permanente operado pela mídia corporativa, as últimas semanas foram pródigas em achaques à pluralidade de opiniões e ataques à liberdade de expressão.

A suspensão pela (recém-censurada…) Folha de S. Paulo da coluna de Guilherme Boulos, uma das principais lideranças progressistas hoje no país, e a condução coercitiva pela Polícia Federal do blogueiro Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania, mostram com clareza a aliança da mídia corporativista com as instâncias de poder para inibir o contraponto ao teatro de sombras do governo ilegítimo e recrudescer os mecanismos de intimidação.

Num contexto hostil às liberdades democráticas mais básicas como o que se tem, é preciso rever e fortalecer as estratégias de resistência. E não há meios de se fazer isso sem um enfrentamento direto na disputa de narrativas. Pois a resistência mora na mídia independente. E vem ganhando cada vez mais musculatura. É hora, agora, de unir forças, chutar a porta e atuar em bloco.

Fracionada e fragilizada pela falta de um modelo de negócios que lhe dê amparo financeiro, nas regras reafirmativas e excludentes que predominam no mercado publicitário, a mídia livre brasileira segue cumprindo papel fundamental na desconstrução da narrativa golpista. Mas terá de agir de maneira mais estratégica agora.

É hora de se posicionar de outra forma diante da legião de iludidos que embarcaram na campanha da mídia corporativista, agora que começa a cair a ficha da classe média do tiro no pé que veio de brinde junto do golpe.

Sem uma esquerda coesa, com uma pauta mínima comum, unificada, não haveria resistência possível. E o governo temerário, na sua ânsia por demolir direitos no atacado, entregou esse presente de bandeja –cometendo a proeza de romper por um instante com o divisionismo e a autofagia dominantes na oposição.

Pois é hora de acentuar isso, em torno de um grande pacto que possa refletir na mídia independente os esforços de articulação de movimentos sociais amplos como a Frente Brasil Popular. É hora de romper com a dispersão, em nome de uma estratégia de comunicação ousada e assertiva, capaz de tirar a esquerda das cordas, de abrir novos campos de diálogo com os iludidos pelo golpe e de manter e adensar a resistência nas redes e nas ruas.

É hora de unificar a ação em torno de uma plataforma comum do campo progressista, a exemplo do que faz neste momento o Podemos, na Espanha, com o Saltamos: um grande portal capaz de reunir as iniciativas mais marcantes da mídia independente brasileira, para atrair os 54 milhões de eleitores que viram seus votos rasgados e a legião de arrependidos que se deixou seduzir pelo ilusionismo e as cortinas de fumaça dos golpistas.

Hora de oferecer um modelo de negócios mais robusto para cada um desses veículos. E de criar um caminho para que o mercado publicitário se relacione com uma parte expressiva da população que já não se reconhece nos veículos tradicionais, pelo descrédito gerado com o partidarismo velado e a defesa de interesses particulares.

Um portal colaborativo, customizável e responsivo, modular e dinâmico, de gestão coletiva, com decisões compartilhadas, instâncias de participação social, conselho editorial e de administração.

Mídia Ninja, Jornalistas Livres, TVT e outras frentes de batalha fundamentais neste momento já se encantaram com o projeto. Pois a pergunta que não quer calar é: o que falta para que o campo progressista da mídia independente possa juntar forças?

Por um jornalismo que tenha lado, sim, mas se posicione abertamente, com clareza. Em defesa do interesse público.

Quem vamos?

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