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Eu tive o abraço, carinho e beijes que eram destinados a vocês, mães, minha mãe. Tive o que vocês recusaram: o amor de seus filhes.

Foto: Mídia NINJA

Foto: Mídia NINJA

Era madrugada de sexta pra sábado e nada ia bem. Uma das Nens (Raquel) tinha sido levada por Dany Santos pra UPA e internada. Na tarde de sábado, Dany me liga desesperada: Raquel veio a óbito. Eu que ja tinha passado uma noite infernal me forcei a sair da cama e tentar auxiliar no que fosse possível.

Dá-lhe as duas a correr pro plantão judiciário do TJ para conseguir o atestado de hipossuficiência, o papel que autorizava Dany como responsável pra reconhecer corpo, e poder seguir os tramites pra enterrar.

Enquanto aguardávamos no plantão, Evelyn Gutierrez me ligava no celular pra avisar que outra Nem estava passando mal. Entrei no Tribunal de Justiça de novo para avisar Dany que eu estava voltando para a CasaNem*, para ela seguir resolvendo tudo por ali.

Com Mauricio, cruzei as ruas e cheguei de volta à Casa. Me informei sobre o caso e diante da gravidade chamei a ambulância. Já tinha começado a festa e o beco estava alheio ao que acontecia na CasaNem. Eram festas em vários dos casarões e nas esquinas da Morais e Vale, pareciam celebrar algo.

Eu tentava sorrir pra alguém que me cumprimentava.Consolava Luciana Vasconcellos, que chorava entre uma cerveja e outra. Enquanto isso, a ambulância chegou pra levar outra Nem. Eu a acompanhei e começou a briga para exigir que ela fosse respeitada pelo nome social. A discussão começou na ambulância e foi até o balcão de atendimento da UPA, onde a bombeira-enfermeira disse: coloca um adendo sobre esse nome social entre parênteses. Me irritei. Eram só 22h40 de sábado.

Passamos pro médico às 23 horas, esse sim aceitou o nome social e lá fui eu acompanha-la pra fazer o tratamento e depois de 1h30 hora de soro e nebulização fomos ao raio-x, dali pro laboratório fazer coleta de sangue. De volta à nebulização, mais uma hora.

Na sala de espera vi as mães com seus filhes nos braço.

Vi filhes levando pais na cadeira de roda. Vi um filho devia ter acabado de saber sobre o mal que acometia sua mãe e chegava correndo, lhe dava um beijo na testa enquanto essa, sentada na cadeira de rodas, parecia alheia a tudo. Vi o que parecia uma irmã cuidando do irmão desmaiado na cadeira. Um rapaz chegou em coma alcóolico e um menino de uns quatro ou cinco anos, alheio a tudo, arrastava seus sapatos, talvez em uma dança sapateada que ele mesmo inventou naquele instante.

Eu tentava esvaziar a mente enquanto assistia na TV da UPA um filme com Viola Davis. Eram duas mulheres não aceitavam a má educação destinada às crianças na escola. Parece que tinha uma espécie de inspetora que os monitorava desde da escola, já sabendo que a maioria acabaria na prisão. Me interessei, talvez por ser idealizadora do PreparaNem**, projeto de educação voltado a travestigeneres.

Mesmo com todo o barulho da sala, eu tentava entender o filme. As vezes tinha vontade de gritar: calem a porra da boca, estou tentando entender!. Me interessava e eu, de maneira egoísta, pedia que a nebulização demorasse até o final do filme. Não vi o final, a Nem que eu acompanhava chegou e entramos pro consultório.

Não ia precisar internar, ufa! O tratamento de urgência surtiu resultados e agora era cuidar. Na receita, três medicamentos, dois tinham na própria farmácia da UPA, o outro vamos precisar ver como conseguir. Também foi recomendação do médico se alimentar bem, tomar sucos e comer frutas. Comentei da dificuldade de uma alimentação melhor nas condições que tínhamos, ele disse que entendia, mas a recuperação dependia disso. Quase o mandei a merda. Me segurei, agradeci e sai da sala. Peguei um taxi e voltei com a Nem pra CasaNem.

Enquanto o veículo rodava pelas ruas da Lapa, eu lembrava de todes transvestigeneres que passaram pelas minhas casas e agora pela CasaNem nesses quase 2 anos de existência.

O Taxi parou na esquina do beco lotado pela festa que acontecia na CasaNem. Apesar do luto, temos pessoas pra alimentar e manter. Digo isso antes de nos apontarem o dedo dizendo (como fizeram após a morte da Cybelle): Nossa, mas morreu uma pessoa da Casa e vocês ainda fazem festa.

Imaginem a dificuldade que está sendo manter essa Casa.

Peguei uma cerveja e fui até janela do primeiro andar, cumprimentei algumas pessoas que debaixo me acenavam, tentei sorrir pra alguns. Respirava o ar da noite, lembrava que ao amanhecer filhes e mães estariam se visitando, festando o dia das mães. Eu tentava lembrar onde andariam as mães de minhas Nens, de meus Nens.

Estava exausta, precisava dormir. Evelyn tinha me mostrado um pouco mais cedo o atelie de costura montado ,parecia criança que tinha ganho brinquedo, talvez quisesse me ver sorrir.

Lembrei que minha família de sangue me mandou fotos do meu irmão mais velho entubado em uma UTI no Paraná e sei que dificilmente o verei novamente, mas fazem 14 anos que nunca mais vi nenhum deles, salvo minha irmã que veio ao Rio pra minha candidatura ano passado.

Arrastei uma fileira de cadeiras e decidi dormir assim mesmo no escritório da CasaNem. Se houvesse uma emergência, eu estaria perto. Lembrava ainda que tinha o enterro de Raquel pra resolver. Ela, que sofreu tanto, tinha tantas marcas por dentro, ao menos teve um fim rodeada de amigues, acolhida e cuidada.

Dormi, acordei, achava que o dia clareava, alguém fechou as cortinas. Em algum momento o som parou. Escutava alguns gritos de Fora Temer, outres pedindo silencio, avisavam que eu precisava descansar. Eu não sabia se sonhava ou estava acordada.

De repente era meio-dia de domingo do dia das mães. Algumas Nens me felicitavam. Fui para a janela e Ana, vizinha, me desejou feliz dia das mães eu lhe respondi igualmente.

Pedi pra Jackeline ir comprar pão e café pra passar na cafeteira elétrica, já que o gás foi cortado. Enquanto isso, algumes Nens me desejavam feliz dia das mães. Tive o abraço que seria para outres, tive os beijos, os sorrisos, então lembrei: não tem gás, como ficaria o almoço, já que elas queriam almoçar comigo no dia das mães? Corri na loja comprei uma panela de pressão e uma panela de arroz elétricas. Daria pra cozinhar 1 kg de feijão e até 10 xícaras de arroz.

Enquanto isso, Jackeline com algumes nens iam pedir xepa na feira da Gloria, que já chegava ao fim. Passei no supermercado, comprei 4 kgs de feijão, 4 de arroz, 8 cabeças de alho e óleo pra preparar o almoço, que teria também uma salada de tabule com suco artificial de uva e manga.

Eu, com ajuda de algumes, me encarreguei da cozinha. Outres estavam fora, em filas de grupos que dão comida aos necessitados, tentando conseguir alguma comida a mais dessas quentinhas distribuídas aos moradores de rua.

Na cozinha da CasaNem, minhas e meus Nens perguntavam tudo sobre as duas panelas elétricas, pareciam crianças me rodeando.

O almoço ficou pronto e ja era janta. O dia findava.

Vocês perderam. Sim, mães, vocês perderam o beijo, o abraço, o amor de filhes que hoje nós cuidamos.

Eu ganhei, de uma delas, um vaso de flores que reguei e deixei em cima da geladeira pra que todes vissem. Rimos. Eu, por dentro, queria chorar, mas me segurava. Chegou outra Nem querendo saber como morar na casa. Veteranes lhe diziam: Busque suas coisas e venha, simples assim. Ela foi e logo voltou. Coversamos, rimos.

Amanhã enterraremos nossos mortos. Talvez, depois de amanhã, consigamos resolver tudo pra enterrar Raquel. Evelyn tinha me informado um pouco antes que sua sobrinha tinha falecido.

Discutimos sobre planos futuros de auto-sustentabilidade pra CasaNem. Rimos, olho no olho, uma cumplicidade que é só nossa. Temos certeza que seremos o nós por nós de ontem pra hoje e de amanha em diante, como sempre tem sido. Elas e eles confiante que estou ali. Eu forte porque meus e minhas Nens me dão força, me suprem de amor.

Brigamos, mas afinal, que família não briga? Tentamos resolver e as vezes a decisão de punir nos dói muito, mas se faz necessária.

Rimos, afinal já choramos tanto.

Que nos apontem o dedo. Continuaremos. Somos resilientes e re(ex)sistimos.

Então preparei minha bolsa, me despedi de meus e minhas Nens e me preparei pra minha 1 hora à 1h30 de volta à minha casa, onde Maurício me esperava.

Cheguei, peguei meus Rottweillers que chamo de rottfilhes e levei pra 1 hora de caminhada. Mauricio dorme. Lembro de sua saúde. Vivemos uma relação sorodiscordante. Me preocupo com o barulho que ele faz ao respirar enquanto dorme e não esta roncando. Tento ver se está tudo bem. O sono começa a vir.

São 6h10 da manhã e 9 horas tenho que pegar o trem, depois o metrô e então subir uma escadaria enorme pra estar no Cantagalo. As e os Nens estão fazendo um debate com a galera local.

Vou dormir, o dia das mães acabou. Mais uma data que o capitalismo inventou.

Segunda-feira já. O comércio vai começar a contabilizar quanto lucrou com o dia das mães. Quanto o mundo lucra com o corpo das mulheres.

Feliz dia das mães.

____

* A Casa Nem é um espaço de acolhimento para pessoas LGBTIs em situação de vulnerabilidade social,com foco em travestis, transexuais e transgeneres. É um espaço autosustentável e festas são realizadas para ajudar nessa autosustentabilidade do local, que também recebe diversos tipos de doações. Na Casa Nem opressões são proibides e o espaço abriga diversos projetos que se inclui o PreparaNem, CosturaNem, FotografaNem, YogaNem, Libras, voltado para as travestis, trans e a todes que se considerem Nem.

** O PreparaNem começou como um projeto de pré-vestibular auto-organizado e auto-gestionado, mas se desenvolveu em uma rede de pessoas T, para além do vestibular, que conta com apoio de voluntários.

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