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Ocupação do MTST na região de Guarulhos. Foto: Mídia NINJA

Ocupação do MTST na região de Guarulhos. Foto: Mídia NINJA

Seu Pedro, que poderia se chamar José, Luis ou João, trabalhava como operário da construção civil. Sentia até uma ponta de orgulho quando ligava a TV e ouvia que “a indústria da construção cresceu mais uma vez”. O futuro, acreditava, lhe pertencia. Apesar de não ser muito, o salário e a oferta constante de emprego tornavam a vida de sua família menos instável. Em segredo, fazia planos de sair do aluguel, comprar um terreno e construir sua própria casa, na periferia de São Paulo. Seus filhos iam à escola, sua companheira também estava empregada. Sabiam que seus sonhos não eram tão inatingíveis, por isso sonhavam.

Mas o noticiário mudou. Seu Pedro percebeu que as obras diminuíam pouco a pouco. Ele ouvia apreensivo a sequência de escândalos envolvendo empresas para as quais havia prestado serviço. Algo lhe escapava pelas mãos. Mês a mês a quantidade de ajudantes, pedreiros, marceneiros, serralheiros e armadores dispensados aumentava. Seu Pedro, vivido e calejado por anos de escassez no passado, sabia que uma crise poderia estar se aproximando ao acompanhar, desconfiado, o impeachment da presidenta eleita. Seu Pedro não gostava muito de política, mas pressentia que dali coisa boa não viria. Dito e feito, seu Pedro.

Primeiro, sua companheira, dona Maria (que poderia ser de Lourdes, Aparecida, de Fátima) foi dispensada quando os patrões “foram obrigados” a assinarem sua carteira. “Ficava muito pesado”, diziam. Dona Maria que aguente o peso, que pague a conta da crise. Depois, ele mesmo, seu Pedro, logo após terminar uma obra também perdeu o emprego. Algo o fazia pressentir que ele não arranjaria outro “bico” tão cedo.

Pagou o aluguel daquele mês e atrasou os próximos. Dependia de ajuda da família de Dona Maria para alimentar as crianças. Recebeu ordem de despejo. Desespero.

Seu Pedro e Dona Maria são parte do gigantesco exército das vítimas da austeridade. No primeiro trimestre de 2017, atingimos 13,7% de desemprego no Brasil.

São mais de 14 milhões de Pedros e Marias sem a possibilidade de pagar o próprio aluguel, por exemplo. No mesmo período do ano passado, tínhamos menos de 11%. O que significa mais de três milhões de desempregados criados em apenas um ano. Chamem o Guinness para o governo Temer!

Na Grande São Paulo, região de maior poder econômico e que já atraiu milhões de pessoas pela capacidade de gerar empregos, a taxa é ainda maior: 18,5%. E não é apenas o desemprego que assusta: a renda de quem trabalha também caiu muito, tanto para quem faz “bicos” como para quem é assalariado naquela região. Em um ano, entre fevereiro de 2016 e 2017 os primeiros perderam 7% e os segundos mais de 11% de seus rendimentos. Mesmo assim, Miriam Leitão teima em dizer pro seu Pedro todas as manhãs que “o pior já passou”.

Mas de tanto apertar o sapato, os dedos pulam pra fora.

Numa dessas manhãs mentirosas, seu Pedro ouvia um barulho. Parecia acontecer algo naquele terreno abandonado em frente à sua casa. Foi conferir e se deparou com um vai-e-vem frenético de gente fincando paus na terra, esticando plástico preto, cavando, construindo. Ele sabia do que se tratava. Já tinha visto aquela cena muitas vezes no passado. O povão ocupava o terreno baldio que até então servia apenas para acumular lixo. Seu Pedro não queria ocupar, foi encorajado pela dona Maria: “vai ficar aí esperando ser despejado e levar os meninos pra rua?! Se você não for, eu mesma monto nosso barraco!” .

Não é por escolha que milhares de famílias ocupam terrenos abandonados Brasil afora.

Para se refugiar da especulação imobiliária, das humilhações diárias, do risco de enchente ou da mordida implacável do aluguel, as ocupações já cresciam mesmo em tempos de crescimento econômico. Em 2013, por exemplo, logo após as manifestações de junho, dezenas de ocupações se espalharam pela cidade de São Paulo e outras tantas pelo Brasil. O desemprego estava na casa dos 5%. Em um cenário explosivo que une desemprego recorde e contrarreformas que irão agravar a crise social, não se pode esperar que o povo vá passivamente morar debaixo da ponte pro futuro.

Não por acaso o MTST realizou três ocupações na região metropolitana de São Paulo na última semana.

Em Guarulhos, neste momento são mais de 3 mil Pedros e Marias debaixo da lona preta. Na zona sul, região do Jardim Ângela, estão mais mil. E por aí vai.

Em diversas outras capitais a demanda aumenta. Diariamente chegam pedidos para ajudar a organizar uma ocupação em algum canto do país. Com o desemprego e achatamento da renda cresce o desespero pela falta de alternativas, mas junto com ele cresce também a disposição de resistir. É que pra cada Michel, existem milhares de Pedros e Marias que se levantam para acender o pavio. Alguém duvida?

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