Temer já percebeu que perdeu a narrativa em relação a Reforma da Previdência.

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Pesquisa recente do Instituto Datafolha mostra que 71% dos brasileiros rejeitam a medida. Pouco antes, o Vox Populi havia indicado um número ainda maior. O discurso do governo de que a Previdência social representa uma sangria de recursos públicos e que a reforma é a única alternativa para tirar o país da crise não convenceu ninguém.

Está claro que a reforma pretende penalizar o trabalhador mais pobre enquanto sequer toca onde de fato há privilégios, como na cúpula do judiciário e nos militares. A resposta das ruas no dia 28 de abril, com a maior greve geral dos últimos 30 anos, deu voz a esta insatisfação generalizada. A greve foi um termómetro da rejeição massiva a Temer e suas reformas.

Porém, ignorando o apelo social, Temer mostra-se disposto a manter o ritmo da aprovação do projeto na Câmara, apoiado principalmente na banca. Mas a missão de conseguir 3/5 dos deputados em duas votações não parece simples de ser executada. Diante de tamanha insatisfação na sociedade muitos parlamentares temem pagar um preço eleitoral alto demais ao defender o projeto do governo. Temer não tem nada a perder, não será candidato nem a sindico de prédio. Já os deputados e senadores começam a calcular o efeito de embarcar nesta aventura insana, já que a maioria deles precisará em 2018 dos votos deste mesmo povo que rejeita as reformas.

Sem apoio popular e tendo que lidar com as hesitações dos parlamentares, Temer decidiu partir para o vale-tudo.

Conforme certa tradição nacional, mandou às favas os escrúpulos de consciência e transformou Brasília numa feira livre onde o objetivo maior é aprovar as Reformas.

Uma das frentes de atuação é com a mídia, onde pretende veicular novas campanhas em defesa da Reforma. O planalto está negociando com emissoras de rádio e televisão verbas de publicidade federal para melhorar as “disposições” de apoio às medidas. O pulo do gato é que essa negociação será intermediada por deputados, cumprindo também o papel de estreitar laços entre os parlamentares e as emissoras locais em ano pré-eleitoral. Desta forma, o governo pretende matar dois coelhos com uma só cajadada: além de ganhar apoio da mídia, compromete mais deputados com a votação. A conta – desnecessário dizer – é paga com recurso público.

Em outra linha, o governo iniciou negociações com bancadas específicas da Câmara para ganhar votos em troca de apoio às suas pautas. À bancada ruralista ofereceu a ampliação do prazo de pagamento de dívidas de empresas e produtores rurais de 10 para 20 anos e descontos em multas e juros que podem chegar a 90%. Um prêmio aos sonegadores, muitos deles devedores da própria previdência, cujo suposto “rombo” é o pretexto para a reforma. Cara de pau é pouco.

Quando não é pelo dinheiro será pela dor, avaliam os articuladores do governo.

Para pressionar os deputados indecisos, Temer iniciou a punição àqueles que não votaram com o governo na Reforma Trabalhista. Na última semana, cargos de indicações políticas foram exonerados. Para garantir a aprovação do texto na Comissão da Previdência na Câmara, três deputados foram substituídos de última hora.

A despeito do discurso de que é necessário cortar gastos, outra iniciativa é abrir o cofre e acelerar a distribuição dos recursos de emendas de cerca de 330 parlamentares da base aliada. Os gastos podem chegar a R$1,9 bilhão, num balcão a céu aberto para comprar os votos necessários à aprovação da reforma.

Não é estranho que esse governo use de todos os métodos para aprovar o desmonte da aposentadoria e ignore a vontade popular. Afinal, de quem tramou um golpe nos corredores do próprio palácio espera-se tudo. O estranho é que os mesmos que se reivindicam defensores da ética na política e da austeridade na economia sejam cúmplices da abertura dos cofres públicos para a compra de votos na Câmara.

Ou agora o método de vale-tudo pode ser considerado “republicano”?

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