Arte: Cachorro Morto, 2016

Arte: Cachorro Morto, 2016

E estamos todos pagando a conta: o fascismo, a ascensão de oportunistas e o derretimento da esperança.

 

Que família mais heterogênea a minha. De um lado tenho um irmão apresentador da TV Globo e tenho parente tão profundamente ligado a movimentos de esquerda que me pediu para não ser citado. Para continuar, meu pai foi fundador e editor da Playboy brasileira, sou sobrinho por afinidade de Juca Kfouri que dispensa apresentações para qualquer leitor da Mídia Ninja e meu padrasto é economista muito respeitado e querido, ex-presidente do BNDS, Andrea Calabi.  Pessoas que amo e com as quais aprendo muito.

Por que raios eu estou falando tudo isso? Questão de honestidade com o leitor e acima de tudo, porque é recorrente quando eu escrevo um texto ou faço um filme, alguém colocar nos comentários referências às minhas relações familiares, como se fosse algo que eu ocultasse. Tudo para desqualificar toda e qualquer ideia que eu queira debater. Aliás, quando a Mídia Ninja me anunciou como colunista, entre comentários amorosos e criticas justas e construtivas, brotaram nos comentários algumas reações bastante raivosas.  Reações raivosas que não foram exclusividade daquele post, porque em outras plataformas, com seguidores de outra orientação política, os ataques têm as mesmas raízes.

Daí ao pensar com mais cuidado, eu perceber que esta diversidade de pensamentos e saberes não é coisa só da minha família, mas sim de um Brasil que se atrita sem respeito embananando conceitos como socialismo e comunismo, boas práticas econômicas com neoliberalismo, austeridade com perda de direitos sociais.  E como diria o sábio nem tão sabido de Brasília, “fazendo uma suruba”. O Brasil perdeu o respeito. Perdeu o respeito pela sua diversidade de pensamentos e pelo amor entre as pessoas.

A polarização política entre PT e PSDB produziu nos últimos anos os piores e melhores momentos da nossa história.

FHC e Lula deram uma esperança gigante ao Brasil, mas a conta das suas limitações gotejou ao longos dos anos e chegou a um ponto de não retorno como o que estamos vivendo. Como não tenho vocação para Polyana, me refiro ao ambiente tóxico onde se é incapaz de trocar ideias com respeito em busca de avanços e inovação. Extremistas estão cada vez mais semelhantes nos seus opostos, numa lógica binária em que quem perde é o Brasil.

Por exemplo: acredite, se quiser, mas é possível ser a favor de reformar a previdência em busca de sua autossuficiência sem drenar programas sociais, sem ser injusto com quem trabalhou a vida inteira e, ao mesmo tempo, acabar com as castas privilegiadas de servidores públicos entre eles os militares, juízes e sei lá mais quem.  Não sou especialista na área e nem quero ser, quero só mostrar como esta difícil conversar, sem copiar e colar no seu mural no facebook slogans ingênuos ou raivosos.

Eu chamo isso de zona de mal entendido. Explico: quando terminei o Quebrando o Tabu, meu filme sobre política de drogas que depois deu origem a página no facebook liderada por Guilherme Melles, percebi  algo estranho.
Se eu perguntasse às pessoas se eram a favor ou contra a descriminalização, diziam que não eram a favor de jeito nenhum. Mas se eu perguntasse às mesmas pessoas se elas eram a favor de punir com prisão quem tinha envolvimento com drogas, elas também eram terminantemente contras, sem perceber que diziam coisas opostas com a mesma ênfase irracional.

Quer um exemplo maior da zona de mal entendidos?  Os EUA elegeram Trump que atacou mexicanos e imigrantes em geral pela perda de 5.6 milhões de empregos na manufatura.  Mas de acordo com pesquisas de especialistas, 85% destes empregos se foram embora por conta da automação. E se abriram 5.8 milhões de novas vagas difíceis de serem preenchidas por falta de qualificação profissional.  Então quem era o verdadeiro inimigo? O imigrante ou a falta de universalidade da educação de qualidade para qualificar mão de obra doméstica?

Nossa discussão política esta poluída por diversas zonas de mal entendido. É preciso fazer um mapa e destravar o debate construtivo.  Pela nossa dinâmica democrática, tanto PT quanto o PSDB tiveram que compor com o que há de pior na política brasileira e acabaram introduzindo boa parte disso nas suas práticas. A cada ataque tucano e petista, se enfraquecia o coração das boas ideias de ambos os partidos e em nome do pragmatismo, o pior foi feito.  Depois da liberação da lista da Odebrecht, tem que ser desonesto intelectualmente para responsabilizar apenas um partido e não o sistema pelo descalabro de corrupção em que vivemos.

E não interessa o argumento de quem desviou mais. Faz diferença um assassinato com um tiro ou dez?

É o tal do “sistema”, que cada vez mais amassa o cidadão com impostos para sustentar a corrupção e que faz com que as vezes um mendigo pague mais imposto proporcionalmente do que muitos privilegiados. Se nós brasileiros não agirmos agora em busca de um debate construtivo, honesto e sem o ódio tóxico, seremos os responsáveis futuramente por jogar no lixo mais uma vez a oportunidade de sermos o país do amanhã no presente.

Nosso desafio é pensar, porque o pior contaminou, pautou e orientou o melhor e não o contrário?

Como conduzir questões importantes neste cenário como a regulamentação mais democrática da mídia ou uma reforma tributária efetivamente justa?  Está na hora de alguém com autoridade e credibilidade expor como as concessões de TV, rádio, distribuição de verbas publicitárias se desenrolaram no passado. E como isso se reflete na produção de notícias, na corrupção – em especial longe dos grandes centros do brasil – e ambiente politico que votam nossas leis. Como melhorar isso? Vale lembrar uma frase chave na delação de Emilio Odebrech: “O que me surpreende é quando vejo todos esses poderes, a imprensa, como se tudo isso fosse uma surpresa. (…) Essa imprensa sabia disso tudo, e fica agora com essa demagogia.” Por quê?

Vamos às vítimas dos mal-entendidos: por exemplo, no meio deste tiroteio, figuras importantes como Fernando Haddad que revolucionaram São Paulo em uma das suas questões mais sensíveis, a mobilidade urbana, acabam injustamente chamuscados. Alexandre Schneider, apontados por muitos especialistas em Educação como um dos grandes técnicos à frente da secretaria municipal de Educação de São Paulo, foi vítima da máquina de ódio utilizada para tirar o foco da denúncia de uso de caixa dois na eleição de um político que se diz novo. Grandes economistas que ajudaram na estabilização da nossa moeda viraram para muitos grandes vilões.

Aqueles partidos que tinham na sua gênese fortes ideais humanistas acabaram se afastando dos seus sonhos e se lambuzando na sujeira.

Neste contexto, agradeço muito a Mídia Ninja por abrir este espaço para dialogar e debater e tentar contribuir para despoluir um pouco o extremismo.
Quando se olha o fato de que um dos meus principais filmes, “Quebrando o Tabu”, teve FHC como ancora, somado ao parágrafo inicial deste texto, o convite dos Ninjas é uma boa provocação aos preconceitos de cabeças binárias.  Não sou especialista em política, mas como cineasta me interesso por histórias e acredito no papel fundamental da comunicação: em filmes, seja em textos ou no canal de Youtube que criei há pouco.

Sonho com que o debate entre Partido Novo e PSOL seja o mais enriquecedor possível.

Precisamos respeitar nossas diferenças culturais, de posição de classe, de bagagem cultural e tirar o melhor disso, não o pior. A preocupação é pelo espaço que novas lideranças sérias e idealistas podem ter. Quem lucra com a percepção de que é tudo lixo e que são todos lixos, são os verdadeiros lixos.

Uma amiga querida que veio da periferia e estudou em Harvard financiada pelo Jorge Paulo Lemann, a Tábata Pontes, me escreveu um e-mail com uma ideia que eu achei interessante. Ela se juntou a outros em um movimento politico e falou no conceito de Estado necessário – ou seja o Estado tendo o tamanho que ele deve ter, seja lá onde for independentemente de ideias preconcebidas.

Sem entrar no mérito da ideia, nosso foco, como país, antes de mais nada, deve ser criar ambiente para o diálogo, troca de ideias e debate (não ofensas) de quem pensa diferente. Ainda é cedo para saber o que será deste movimento. Conheci a Tábata quando me juntei a outros jovens para a colaboração de um movimento pela qualidade na educação brasileira, o “Mapa educação”. Fiquei apaixonado por ela, seus amigos e imaginando quantas pessoas lindas como ela não estão tendo sua ascensão sendo sufocadas pelo ódio e debates improdutivos e destemperados.

Que venham mais novas pessoas como a Tábata, que tem no seu coração a semente do amor e compaixão com aqueles que nasceram em condições injustas e sonha em revolucionar o Brasil com uma educação de qualidade. Entre suas sabedorias, está a de saber que sua ascensão da periferia até Harvard se deu como exceção e não regra. Segundo ela mesmo em seu Facebook, não é verdade que “todo mundo pode”. Alguns até têm sorte e, com muito esforço, podem conseguir. Mas como fazer para que muitos ou todos possam?

Enfim, quem pensa diferente não é inimigo, é apenas alguém que pensa diferente e talvez tenha algo para ensinar ou para aprender com você.

O verdadeiro inimigo é o obscurantismo e quanto mais as boas cabeças brigam, mais o senhor das trevas populista de ultra- direita cresce e se alimenta.

O risco, amigos, é grave e grande. Um populista de extrema-direita, com inclinações nazifascistas, parece cada vez mais perto dos nossos centros de poder, enquanto boas cabeças e bons corações se perdem em mal-entendidos, divergindo não nos seus objetivos, mas apenas em como chegar lá. Amigos da luz, vamos nos unir e respeitar. Sabe aquele amigo que pensa muito diferente de você? O que vocês têm de fazer é  trocar experiências e visões de mundo e aprender um com o outro. Posso estar errado, mas acho que o caminho é por ai.

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