Foto: Guilherme Prado

No último domingo (02/09), recebi a notícia do incêndio no Museu Nacional pelo whatsapp. As notícias chegavam muito rápido e, a cada nova mensagem, a situação ia se agravando. Busquei na internet mais informações e a situação era, de fato, desoladora.

Publiquei, na minha página do facebook, a primeira das muitas matérias que li, em que eu, no ímpeto de todos nós de termos uma pronta resposta aos acontecimentos que ocorrem, comentei tratar-se de uma tragédia, diante da perda inigualável para a Cultura, a Memória, a História e a Ciência do Brasil e da Humanidade.

Na sequência destes fatos, liguei a TV. Fiquei em choque diante daquele fogaréu que tudo consumia numa velocidade inimaginável, com dois bombeiros lá no alto e uma mangueira d’água, absolutamente impotentes diante da força do fogo. Enquanto, atônita, assistia a tudo aquilo e ouvia os comentaristas, os entrevistados e as autoridades, um turbilhão de pensamentos passava pela minha cabeça, combinado com um misto de sensações horrorosas pelo meu corpo. Entre tudo isso que me ocorria, um pensamento me martelava: em que sociedade nos transformamos?

Mais uma vez, mantendo o hábito recém adquirido, em razão da velocidade que as informações tomam nas redes, o que nos empurra a opinar sobre tudo e sobre todos em pouco tempo, sem muita reflexão, ainda, naquela noite de domingo, publiquei: “Esse incêndio diz muito do que nos transformamos enquanto sociedade.” Quero, então, passados alguns dias dessa inominável tragédia, voltar neste ponto, agora, com a possibilidade de um pouco mais de reflexão, através de um dos aspectos a ser analisado, entre tantos.

A má conservação do Museu Nacional e do seu acervo não se deu de um dia para o outro. Há anos, gestores, pesquisadores e demais interessados diretos vêm denunciando a falta de recursos, as péssimas condições do museu, que, inclusive, já tinha sido fechado, num determinado período. Essas condições não são/eram exclusivas do Museu Nacional. A quase totalidade do patrimônio histórico e cultural do Brasil está em péssimas condições.

Ora, por que cuidamos tão mal de nossa História, de nossa Memória, de nossa Cultura?

É, exatamente, neste ponto, que fica, para mim, clara a deterioração dos valores de nossa sociedade. Se nosso patrimônio histórico e cultural fosse importante para uma parcela significativa de todos nós, a pressão sobre os órgãos responsáveis por sua preservação já tinha acontecido, o que teria obrigado uma mudança de rumos, já que nossos governantes só têm, em regra, agido sob pressão da opinião pública e publicada.

É certo que andamos muito opinativos nas redes. Cheios de razão! Sentimo-nos quase que obrigados a ser “especialistas”, mesmo que temporários, em relação a toda nova polêmica que pulula nas telas de nossos telefones e computadores, mas é só na superfície das coisas que tocamos. A velocidade dos acontecimentos e de sua divulgação não nos permite aprofundar em nada e, quando tentamos, um novo fato ocorre e já nos obrigamos a postar sobre este também.

No essencial, a gente não tem conseguido tocar e alterar. O atual governo, de legitimidade questionada, passou uma PEC (proposta de emenda constitucional) que congelou os gastos em educação e em saúde por 20 anos. Pode-se não se acreditar, mas intervenções como essa tem ligação direta com o que aconteceu no Museu Nacional, que é uma questão de gestão, mas é, primordialmente, de orçamento, de recursos.

Embora eu até considere a possibilidade de parcerias com a iniciativa privada para a manutenção e gestão de nosso patrimônio histórico e cultural, não pode haver ingenuidade de que o grosso do investimento há de vir do Estado. É sua obrigação constitucional e não pode fugir dela. Ademais, o “Deus” mercado quase nunca se interessa por investimentos em que não haja retorno significativo e rápido aos seus aportes.

Com isso, considerando, inclusive, a situação estrutural em que se encontrava o Museu Nacional com fios aparecendo, cupins nas madeiras, sem sistema de combate a incêndio, necessitando de reforma elétrica, entre outras necessidades que fomos descobrindo após a tragédia, é evidente que cabia ao Estado, em especial, ao Governo Federal, tomar medida, inclusive, emergencial para tirar o Museu do risco iminente de se perder, o que, lamentavelmente, terminou por acontecer.

Ora, mas como pressionar por isso quando, repito, a grande maioria de todos nós não se mobiliza efetivamente pelo que é essencial?

Para ficar, apenas, em dois exemplos:

Temos um candidato à Presidência da República, com índice expressivo de intenção de votos, que afirma que vai acabar com o Ministério da Cultura, que seu Ministro da Educação será um ator-pornô, que, acredito, não ter lido nem meia dúzias de livros na vida, diante das sandices que fala, e cuja a única cultura que cultivou foi a dos músculos.

Ademais, fôssemos uma sociedade preocupada com o nosso passado e também com o nosso futuro, a PEC do congelamento dos gastos em Educação por 20 anos deveria ter sido motivo para pararmos o país, deixando claro aos governantes as nossas prioridades.

Ou alguém acredita que atingiremos patamares civilizatórios sem Educação de qualidade e para todos, sem o cuidado com nosso Patrimônio Histórico e Cultural e sem a regular e indistinta Difusão da Cultura e das Artes?

Mas a velocidade de nossas tragédias pessoais e coletivas é grande e, na sequência, já temos mais um assunto a opinar. Enquanto isso, o país é devastado por falta de recursos, de prioridades, de tudo, inclusive, de uma sociedade organizada, capaz de se mobilizar, efetivamente, por nossa Cultura, pelo nosso Patrimônio Histórico e Cultural, pela Educação de nossas crianças e jovens, pela produção de Ciência.

Todos nós acendemos um fósforo e jogamos no Museu Nacional.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Monique Prada

Monique Prada: Pode a puta de luxo falar?

Renata Mielli

Fake News: A apologia da verdade como instrumento de censura

Ivana Bentes

Museu Nacional: Não é acidente, é barbárie!

Lindbergh Farias

Lindbergh Farias: Globo não me representa

Israel do Vale

Israel Do Vale: O que será da Folha nas mãos do irmão que sempre cuidou da área comercial?

Laio Rocha

Como frear o encarceramento em massa no Brasil e nos EUA?

Pastor Ariovaldo

Pastor Ariovaldo: Trabalho como estímulo para o progresso da comunidade

Ericka Gavinho

Ericka Gavinho: Em que sociedade nos transformamos?

Renata Mielli

Caso Bolsonaro: vamos conversar sobre fascismo e ódio?

Gabinetona

Plano diretor e a luta pela gestão democrática das cidades

Tulio Ribeiro

Mattis e o roubo do século

Tulio Ribeiro

A dolarização e o neocolonialismo

André Barros

Paes é Cabral. Cabral é Paes

André Barros

Criminalização racista da maconha

Jean Wyllys

Jean Wyllys: 6 perguntas para Jair Bolsonaro