foto: Mídia NINJA

 

Empatia é o que nos diferencia dos psicopatas. Para quem não sabe, até os animais, considerados irracionais, têm empatia por seus semelhantes, quando os veem em sofrimento. Para mim, toda vida é importante, porque a vida é rara. Até a dos psicopatas.

Não defendo a morte de ninguém, nem dos que pensam e agem diferentemente de mim. Não comemoro quando alguém que está num espectro político diferente do meu morre ou sofre um revés na vida. Não pretendo, com isso, qualquer santidade.

Apenas acredito, com todas as células do meu corpo, que o debate político deve se dar no campo das ideias, da luta política, que, para mim, não significa o aniquilamento do outro, mas sim demonstrar, por debates e ações, que as ideias dos meus adversários não servem a determinado contexto, que há modos diversos de se pensar e de se viver a vida.

É, portanto, sempre assustador constatar que a vida de uns, para alguns, valha mais que a de outros. Sim, eu estou falando da Marielle e do Anderson, brutal e COVARDEMENTE, assassinados. Anderson não era o alvo dos assassinos. Marielle era.

Há muita discussão por aí sobre a comoção que a morte da Marielle causou. A vida da Marielle vale mais do que a vida de qualquer das inúmeras vítimas da violência que assola o nosso país e, notadamente, o nosso Estado? Claro que não!

Mas é preciso entender que a Marielle não foi assassinada porque queriam roubar o seu carro, bolsa ou celular, ou porque estava no meio de um tiroteio entre traficantes e policiais. Marielle não é mais uma vítima da nossa costumeira violência. Marielle foi, pensada e friamente, EXECUTADA, ELIMINADA, exatamente pelas ideias e valores que defendia. E é, por isso, que sua morte é muito grave, porque é um atentado à democracia, ao Estado Democrático de Direito.

Marielle incomodou e foi ASSASSINADA por isso!

Marielle defendia a vida dos negros, dos pobres, dos moradores de favelas e periferias, de mulheres, de homossexuais, de transexuais. Marielle defendia as minorias, aqueles que, mesmo numericamente mais expressivos, a nossa sociedade insiste em não reconhecer, em não enxergar, em negar-lhes a cidadania plena. Marielle também defendia, ao contrário do que andam dizendo, a vida de policiais, mortos em confrontos, dando apoio às suas famílias. Marielle sabia que essa guerra ao tráfico, da forma como é travada há anos, não resolve a questão da violência e só gera vítimas e mais vítimas.

Ora, mas se alguém ainda tem dificuldade de ter empatia com os sofrimentos advindos dessa tragédia, sugiro que comece a pensar o quão grave é vivermos num país em que pessoas são EXECUTADAS pelo que pensam, dizem e defendem, porque amanhã pode ser qualquer um de nós, a depender do que defendemos e a quem desagradamos. E, neste ponto, volto a dizer: as mortes de Marielle e Anderson são singulares.

Por todo esse contexto, é imprescindível saber quem matou, quem mandou matar e por que matou Marielle e Anderson. Não podemos concordar que mais um crime contra defensores dos direitos humanos no Brasil fique sem os necessários e devidos esclarecimentos ou o nosso país continuará sendo desmoralizado no contexto internacional, como um Estado que não é capaz de garantir a liberdade de expressão e  do exercício da atividade parlamentar.

É, por isso, a comoção que a tantos incomoda e assusta. Não sairemos das ruas. Continuaremos a empunhar as bandeiras que Marielle levantava, porque o nosso país ainda é brutalmente desigual.

Marielle costumava dizer: “eu sou porque nós somos.” E, agora, mais do que nunca, nós seremos, todas e todos, muitas Marielles, porque ela foi! Ela é!

Não nos calarão!

Marielle e Anderson presentes!

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Monique Prada

Monique Prada: Pode a puta de luxo falar?

Renata Mielli

Fake News: A apologia da verdade como instrumento de censura

Ivana Bentes

Museu Nacional: Não é acidente, é barbárie!

Lindbergh Farias

Lindbergh Farias: Globo não me representa

Israel do Vale

Israel Do Vale: O que será da Folha nas mãos do irmão que sempre cuidou da área comercial?

Laio Rocha

Como frear o encarceramento em massa no Brasil e nos EUA?

Pastor Ariovaldo

Pastor Ariovaldo: Trabalho como estímulo para o progresso da comunidade

Ericka Gavinho

Ericka Gavinho: Em que sociedade nos transformamos?

Renata Mielli

Caso Bolsonaro: vamos conversar sobre fascismo e ódio?

Gabinetona

Plano diretor e a luta pela gestão democrática das cidades

Tulio Ribeiro

Mattis e o roubo do século

Tulio Ribeiro

A dolarização e o neocolonialismo

André Barros

Paes é Cabral. Cabral é Paes

André Barros

Criminalização racista da maconha

Jean Wyllys

Jean Wyllys: 6 perguntas para Jair Bolsonaro