Os evangélicos serão uma das parcelas mais afetadas por um eventual governo fascista.

Ecce Homo, de Antonio Ciseri, 1871. Cristo também enfrentou fake news, quando os fariseus diziam que planejava uma revolta popular contra o poder romano.

Por Vítor Queiroz de Medeiros

Cerca de 60% do eleitorado evangélico vota em Bolsonaro. Isso equivale a quase 40 milhões de votos. O mapa eleitoral lido pela variável “filiação religiosa” diz que Haddad tem melhor desempenho em municípios com menores taxas de pentecostais. Mas Deus não tem nada a ver com isso e Sua Palavra condena o projeto bolsonarista.

O candidato Bolsonaro tem ao seu lado líderes odiados pela maioria dos evangélicos: Edir Macedo, Estevam Hernandes, Silas Malafaia – todos metidos em escândalos referentes à extorsão de fiéis, evasão de divisas e lavagem de dinheiro; construíram impérios para si às custas do povo pobre iludido com a prosperidade mágica; enriqueceram com o comércio da fé. É preciso desautorizá-los e livrar da ilusão aqueles que se permitem guiar por ideologias mundanas e mitos da velha disputa entre “esquerda” e “direita”. O embate dessa hora é entre Evangelho e anti-Evangelho; entre civilização e barbárie; entre democracia, paz, direitos humanos e fascismo.

Nosso povo crente está enredado por polêmicas de cunho moral. A campanha de Bolsonaro é puro tabu e fake news. Inventam que Haddad vai transformar o Brasil numa Venezuela, distribuir kit gay, fechar igrejas, entretanto em 13 anos de governos petistas isso não passou nem perto do ocorrer. Aliás foi nesse período que o povo evangélico mais cresceu, muito em função da liberdade religiosa irrestrita desses tempos. Jesus também enfrentou fake news em sua época: os fariseus diziam que ele iria abolir a lei, que planejava uma revolta popular contra o poder romano e que destruiria o templo. Temos que combater as falsas notícias, sem, contudo, ficar refém delas.

Além disso temos que transpor o moralismo e pautar a agenda econômica: o povo evangélico é majoritariamente pobre, beneficiário de políticas sociais; serão as parcelas mais afetadas por um eventual governo fascista. A chapa de Bolsonaro se opõe ao 13º salário, às férias remuneradas, à licença maternidade e esteve com Temer durante a aprovação da reforma trabalhista e a aprovação da “PEC do Teto” que congelou, por vinte anos, os investimentos públicos em saúde e educação.

O povo evangélico é pobre e trabalhador. Nós, irmãos preservados democráticos, temos que denunciar profeticamente: “o trabalhador é digno do seu salário” (1 Tim. 5:18); dizer que Deus abomina a exploração do pobre pelas elites patronais (Tg.5:1-16); que o trabalhador não deve ser extorquido por bancos e afins, mas deve ser socialmente protegido (Lv.25:35-38). Deus defende política social, Bolsa Família, tributação progressiva para os que os ricos paguem mais e demais políticas de transferência de renda, não para sobrecarregar alguns, mas “para que haja igualdade” (2Cor.8:13-15). Deus está do lado do trabalhador e seu beneplácito está sobre a velha CLT; sobre o Prouni; o Fies; o Minha Casa, Minha Vida; o investimento na agricultura familiar e do imposto justo.

Também temos que avisar nossos irmãos que Bolsonaro elogia a tortura, a ditadura, propaga a violência e defende o armamento civil. Ora, o protestantismo sempre foi defensor da democracia. A Reforma foi anti-absolutista e mesmo no Brasil, muitos irmãos lutaram contra o regime militar: Jaime Wright, que publicou com Dom Paulo Evaristo Arns, o relatório “Brasil nunca mais”; seu irmão que fora assassinado pelos repressores, Paulo Wright; o irmão metodista, torturado e resistente, Anivaldo Padilha entre muitos outros que inclusive constam nos anais do relatório da Comissão da Verdade.

Estivemos nas Ligas Camponesas; estivemos com João Goulart como se viu na conferência “Cristo e o Processo Revolucionário” em 1962; militamos sob viadutos, por entre vielas, dentro dos presídios, sempre defendendo a dignidade humana. O fascismo não combina conosco. Sempre estivemos do lado certo da história. Enquanto a maioria do pastorado e das igrejas se calou diante dos horrores da ditadura sanguinária, muitos irmãos fiéis à democracia e à liberdade, por amor do Evangelho, foram ao martírio nos paus-de-arara e outras máquinas de morte.

Jesus foi um torturado; açoitado, teve ainda uma coroa de espinhos sobre sua cabeça e morreu crucificado de maneira brutal. Como pode um eleitor de Bolsonaro, defensor da tortura, participar na eucaristia do corpo e do sangue de um torturado? “Quem come e bebe sem discernir o corpo do Senhor, o faz para sua própria condenação” (1 Cor.11:29). E como subscrever a ideia de que “bandido bom é bandido morto”, quando Jesus não hesitou em impedir o apedrejamento da mulher adúltera (Jo.8:7) e ainda salvou o malfeitor pregado na cruz ao lado da sua (Lc.23:39)? Bandido bom é aquele que é ressocializado e transformado.

Bolsonaro ainda defende, talvez por lobby da indústria armamentista, a ampla liberação do porte de armas. Cristãos que o apoiam deveriam ler o texto em que Jesus censura Pedro que, mesmo agindo em legítima defesa, lançaria mão de uma arma, o que apenas reproduz a violência (Mt.26:52). Lembremo-nos de que “bem aventurados os pacificadores porque serão chamados filhos de Deus” (Mt. 5:9).

Vamos ver os frutos. Um é temperado, tolerante e democrata. O outro comete atos de homofobia, de racismo e de machismo. Alguém consegue imaginar Jesus chamando a mulher samaritana de “vagabunda”? (Jo.4:4-26). Precisamos declarar claramente que a violência, o desrespeito e a discriminação não são opções ao cristão. E nós, cristãos democráticos, sobretudo os pastores, temos que dizer como claramente que “Deus não faz acepção de pessoas” (At.10:34; Tg.2:9).

Bolsonaro é um lobo travestido de ovelha; é uma ameaça à democracia. Quanto a pseudo-salvadores, o Novo Testamento está repleto da exortação à vigilância, “Acautelai-vos!”. Temos que exortar nossos irmãos para que não se enganem e temos que cobrar posicionamento claro dos nossos pastores contra o candidato. Não podemos admitir a indiferença, a omissão covarde e conivente de nossos líderes. Cobremo-los. Há muitos pastores que são contrários ao fascista Bolsonaro, mas hesitam em se posicionar, talvez temendo perder dizimistas ou algo do tipo. A estes digo claramente: sejam quentes ou frios, não mornos, nem hipócritas!

Na Alemanha nazista, a Igreja Confessante, erigida por Bonhoeffer e Karl Barth, foi um luzeiro nas trevas ao mobilizar a cristandade contra o nazismo enquanto a famosa maioria embarcava no projeto do Maligno. Em meio à noite escura que se abate sobre nós, sejamos corajosos e coerentes com o Evangelho, com o espírito radicalmente democrático da Reforma Protestante e com o testemunho histórico dos irmãos brasileiros que tombaram durante a ditadura. Não compactuemos com o ódio. O inimigo é quem vem para matar, roubar e destruir; mas o projeto de Jesus é dar vida com abundância a todos e todas (Jo.10:10).

Por fim, aos cristãos que militam pela paz e pela democracia: não nos deixemos tomar pelo medo. O medo é um sentimento reacionário, conservador, nos paralisa. Antes, porém, o perfeito amor lança fora todo medo (1Jo.4:18). A Esperança é um bem por demais valioso para que ser trocado por apenas uma parte da realidade. Bolsonaro não, em nome de Jesus.

Vítor Queiroz de Medeiros, 22, é coordenador estadual da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito/SP.

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