Foto: Gabriel Quintão

Na noite da última quinta-feira,31 de agosto, comecei a receber mensagens de vários familiares ao mesmo tempo. Sabia que viria algo ruim: “Notícia triste. Foi acidente de trabalho”.

Primo, eu queria te fazer uma homenagem lembrando apenas de como foi bom crescer ao seu lado, das festas de rua, dos dias de praia, mas diante de como foi sua morte não posso fazer uma homenagem sem dizer que isso não precisava ter acontecido.

Eu e Higor crescemos combinando finais de semana e férias para nos encontrarmos na casa da nossa vó Carmen, na favela do Tuiuti. Favela menor ao lado do morro da Mangueira do grande Cartola, que morreu pobre e sozinho. Fiquei feliz quando há um tempo ele me ligou dizendo que estava trabalhando como artista escultor para o carnaval, queria ter conhecido o seu trabalho antes desse triste dia.

Fui até o barracão do Grêmio Recreativo Escola de Samba São Clemente e lá estava ele deitado, com o rosto calmo, como que dormindo, de frente para o seu ofício, um carro alegórico inacabado. Vestia camisa, bermuda e tênis da Nike. Minha tia contou que não davam a ele Equipamentos de Proteção Individual (EPI´s) de uso obrigatório e nem assinavam sua Carteira de Trabalho. Só nos permitiram falar diretamente com os diretores da Escola. Todos nós queríamos mais informação, mas a resposta que davam às nossas perguntas sobre o que tinha ocorrido era vaga: “descarga elétrica”. Se contradiziam sobre de onde tinha vindo o choque, “do bebedouro”, “ da tomada”, “da máquina de trabalho”’. O maquinário foi retirado antes da nossa chegada, segundo eles, levada pela perícia. Todos nós da família ficamos apenas com a tristeza e indignação pela falta de cuidado e de real interesse em cooperar em um momento tão delicado como esse. Sendo assim, repito as palavras de sua mãe e digo que não foi acidente,foi negligência.

Primo, antes de você vieram Fernando Antônio da Silva, Edson Jacinto Faustino e Lauro Esperança da Silva, mortos eletrocutados empurrando o carro alegórico da escola de Samba Palmeirinha em Nova Iguaçu em 2015. Elizabeth Ferreira Jofre, de 55 anos, faleceu este ano vítima de um acidente na escola que já me deu orgulho por chegar ao grupo especial do carnaval, Paraíso do Tuiuti. Eu poderia continuar listando aqui mais nomes, pois você não foi o primeiro, mas espero que sua partida possa contribuir para que seja o último a ser vítima desses ‘acidentes’ que vitimam sempre aqueles que estão no chão de fábrica. Fábrica essa que movimentou R$ 3 bi no último carnaval só no Rio de Janeiro, mas que não cuida dos operários artistas que constroem a festa. Digo fábrica para tentar ir além do carnaval e chegar naqueles que detém o capital, que não tem nenhum cuidado com corpos em sua maioria negros que vendem sua força de trabalho pelos preços mais baixos e pelo mais alto risco.

A gente se amarrava em ouvir Emicida juntos e nesse momento parece que ele fez essa música pra você: “não tem hora melhor pra dar um basta, antes que as porta-bandeira hasteia bandeira de luto. Marchinhas serão fúnebre e o desfile em memória se nóis não tira agora quem não respeita a nossa memória.” (Quero ver a quarta feira chegar).

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Por Ian de Farias.

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