Foto: arquivo pessoal

Por Eduardo Sá

Um dos representantes do samba de raiz tradicional, José Luiz Costa Ferreira, conhecido por Zé Luiz do império, é muito respeitado no meio dos bambas. Aos 72 anos, é autor de diversas músicas tocadas até hoje em qualquer roda de samba, muitas delas com personalidades que marcam a história deste gênero musical: Nei Lopes, Candeia, Wilson Moreira e Nelson Rufino, dentre tantos outros.

Participou de grandes momentos e títulos da escola de samba Império Serrano, grêmio recreativo localizado em Madureira, no subúrbio carioca, na qual já foi presidente da ala de compositores. Foi também um dos responsáveis pelo Pagode da Resistência, que cumpriu importante papel na revalorização do samba na década de 1970. Participou ainda da fundação do Grêmio Recreativo e Artes Negras Quilombo, cuja história envolve questões políticas e em defesa da cultura afro descendente.

Um dos maiores sucessos do cantor é sua composição “Todo menino é um rei”, eternizada na voz de Roberto Ribeiro em 1978, e desde então não parou mais. Nesse processo, gravou centenas de músicas. Seu último disco, “Malandros Maneiros”, foi lançado em 2008. Mas até hoje transita pelas rodas e também acompanha o trabalho da nova geração. Em 2008 o grupo Galocantô, por exemplo, do qual ele é padrinho, gravou uma música sua.

Nesta entrevista, ele fala sobre a continuidade do samba de raiz e analisa o mercado moderno do samba. Fala ainda sobre o atual governo e sua preferência por políticas mais generosas com a parte mais pobre da sociedade. Para ele, é preciso ter cuidado com a internet porque, assim como na música, não estabelece nenhum critério e pode caminhar tanto para o lado bom quanto o ruim, como foi na eleição do atual presidente Jair Bolsonaro.

Qual a importância do samba enquanto cultura nacional?

O samba é a coisa mais importante na cultura brasileira, e na minha geração estou entre os últimos do samba ainda tradicional. Tenho muita vivência e participação, estou no samba desde os anos 1960. Sou da geração do Nei Lopes, Wilson Moreira, Décio de Carvalho. O samba faz parte da cultura popular carioca.

E como o mercado lida com isso?

Não me importo com a música de mercado, me importo com a música autêntica brasileira de raiz, que eu fui criado e me dediquei. Espero que tenha um segmento com essa nova geração que está aí que, embora com uma certa influência midiática, não tem mais tantos cantores e cantoras como antes. Mas estão fazendo um trabalho muito bacana.

Hoje os canais são outros, não tem mais rádio e gravadora. As gravadoras não estão mais tão ligadas ao samba de qualidade, estão muito mais comerciais. O movimento e o acesso da internet são muito mais rápidos. Ela não é ruim nem boa, só que banaliza bastante coisa sem distinguir. Porque tudo entra na internet, não tem nenhum critério.

Mas os novos artistas estão usando muito bem ela.

Isso não quer dizer qualidade, né? Mas tem muita gente boa, como o João Martins, que é um cara diferenciado, Renato Milagres, Juninho Thybau, etc. Mas também não gosto de citar nomes, porque posso estar sendo injusto com outros. Minha geração era muito boa, tinha Clara Nunes, João Nogueira, Beth Carvalho, então dar minha opinião fica difícil porque já não tem mais isso.

Mas pelo conjunto dos novos você acha que não ficará nenhum dando continuidade?

Gostaria que essa nova geração tivesse a mesma possibilidade e oportunidade que eu tive. Eles não têm tantos grandes artistas como antigamente para gravar suas obras e facilitar a entrada nas gravadoras, pode ser que estes com o tempo melhorem e tenham também essa força. Mas primeiro eles têm que gravar para mostrar que são capazes. Sei que eles estão fazendo por conta própria, mas ainda têm uma longa estrada pela frente. Mas tem que ser isso mesmo, porque o antigo não volta mais. Os tempos são outros, não podem fazer a mesma trajetória.

Você diz que não volta mais em termos de mercado, ou melodia, ritmo, poesia, etc?

A melodia é outra, eles não têm a mesma vivência. Os rapazes andam de bermuda, não vão andar de linho nem fazer o samba que eu e outros fazíamos. Mas essa garotada cria também, eles inclusive bebem lá na fonte de antigamente. As gírias mudam, mas muitas vezes eles revisitam esses caras mais pelo respeito que pela atitude. Há uma postura de que agora é a gente, e o que foi já foi. Mas tem muita gente boa, como o (Luciano) Bom Cabelo. Tem outros que são fodas como o Baiaco, que não quer ficar velho, como o Ratinho que era da minha geração e sempre quis ficar igual aos velhos. Não seguem mais tanto as tradições.

Você fez o pagode da resistência e participou de alguns movimentos, como vê a questão da arte relacionada à política?

A minha geração não tinha tanto essa identificação, o povo de origem com quem convivi na infância era completamente alienado. Todo mundo pobre, preto, iletrado, nem sabia o que era isso. Só tive essa consciência muito mais tarde, mas sempre fui um cara de ir pra frente e não me travei em nada. Fomos notando as diferenças e a partir dali criando a consciência de que tem coisas pra mudar, e eu ia mudando na minha ignorância através da arte e coisas que queria fazer. Na minha infância eram todos operários, metalúrgicos, pessoas altamente politizadas, embora sem cultura letrada, mas sabiam dos seus direitos. Hoje eu vejo essa juventude muito desperta, mas não sei se pelo melhor caminho.

Qual o melhor direcionamento político a se caminhar?

Só sofrendo na carne que se cria a consciência política, aí cada um tem seu pedaço de necessidade. Às vezes posso fazer um julgamento precipitado de uma pessoa, mas ela com o tempo pode ter uma cabeça melhor pensante em termos de socialismo e tudo mais. Mas o cara precisava de dinheiro, enquanto essa garotada de hoje não sabe nem o que é essa consciência. A rapaziada nova está mais preocupada com o imediatismo, não tem consciência política de classe. No samba atual tem muita gente da classe média da zona sul que vai para o samba como modinha, mas nunca passou um aperto e pode ficar bebendo até de manhã que vai ter alguém por trás para bancar.

Quando era criança trabalhava numa oficina de mecânico, e já lia o Granma (jornal cubano) então em 1964 já sabia o que era sindicato. Mas nunca participei de nenhum partido político, ficava curioso com aqueles velhos gente finíssima lendo aquelas coisas escondidas. Eram operários e me davam ensinamentos, então comecei a gostar daquilo e ter identificação. Com 16 anos fui ao exército e no golpe estava servindo, aí que eu assumi mesmo o socialismo e observei que tipo de país e vida queria.

Em relação ao golpe, minha visão sobre os militares mudou um pouco anos depois porque fui trabalhar na Embratel criada por eles. Não tem só militar ruim, poderia ser mais bem feito isso tudo. Tinha um militarismo nacionalista que construía, fiquei na empresa por 32 anos, mas não deixei de ter meu pensamento político por causa disso.

Como você vê hoje a conjuntura política do país?

Tá foda, o PT fez muita merda. Já fui sindicalista e briguei muito, mas o PT perdeu a grande chance para esse país ser finalmente o que é e o que a gente deseja aos nossos filhos e netos. Não estou culpando ninguém, não… A gente estava falando da tecnologia ajudando a juventude e as pessoas em geral, politicamente o acesso a ela teve essa merda toda aí também. Usada erradamente deu nisso aí, quem elegeu esse homem? Essa eleição foi ganha por causa da raiva disseminada contra o PT, não por mérito de quem assumiu o governo. Estamos muito mal representados, basta ver nesses 200 dias de governo quantas merdas ele já conseguiu fazer. Tomara que não dê tempo dele ficar o mandato todo.

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