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Artigo de opinião de Ariel Cahen

Sérgio Moro acaba de aceitar o convite do presidente eleito Bolsonaro. O Ministério da Justiça lhe dará oportunidade de retomar a relevância que perdeu ao cumprir a missão que lhe foi atribuída. Com Lula preso e as eleições em curso, o proeminente magistrado perdeu o protagonismo do enredo que ele próprio ajudou a criar. E que, em seguida, o descartou.

Integrar a máquina dará a ele acesso pleno ao mecanismo – e legitimidade para se enveredar por novos capítulos da caçada que o alçou, outrora, ao posto de herói nacional tomado recentemente por aquele que hoje passa a ser seu patrão.

“Sergio Moro não descarta participar do governo Bolsonaro”, destacava reportagem publicada no início da semana pelo O Globo – que já antecipava a propensa decisão do juiz. Despretensioso, o conteúdo por trás da notícia é na verdade barulhento. Escandaloso.

Ao mesmo tempo guardião e algoz de preceitos constitucionais básicos, Moro se dispõe agora ao papel de escudo da sociedade. De resposta a um medo legítimo de quebra do Estado Democrático de Direito que ele mesmo ajudou a trincar.

Com referências constantes e não contestadas a “interlocutores” do juiz, a matéria assinada pela jornalista Cleide Carvalho jogou luz à verdade velada que todos conheciam. Para Moro, “a volta do PT ao poder seria inaceitável”.

Em 1º de outubro, diante de amplo crescimento do candidato petista Fernando Haddad nas pesquisas de intenção de votos, o juiz de primeira instância deixou as sombras para alardear ao noticiário, uma vez mais, delações feitas pelo ex-ministro Antonio Palocci, do PT. Declarações fortes e que, como de costume, carecem de robustez probatória – foram recusadas, por essa razão, pelo Ministério Público Federal no início do ano. O fez em tempo oportuno para interferir diretamente no processo eleitoral, extrapolando uma vez mais os limites de sua atividade e ajudando a consolidar a eleição de seu novo chefe.

Suas convicções, que sem ineditismo algum voltam a relativizar a corrupção e a própria justiça, também tiveram espaço no bate-papo vazado à jornalista por seus interlocutores não contestados. “Mesmo diante da notícia de que grandes empresas poderiam ter financiado disparos em massa de WhatsApp para o candidato do PSL”, diz trecho da reportagem, “manteve [Moro] a convicção de que o caso poderia ser um erro da campanha, mas não corrupção, já que Bolsonaro poderia não saber do apoio dos empresários feito por fora da campanha oficial”.

O crime eleitoral, portanto, dos opositores do PT, que segundo denúncia representam montantes não declarados que superam R$ 12 milhões, se reduzem a “erros de campanha” nas convicções do juiz símbolo da Operação Lava Jato.

Convicções, é fundamental destacar, que foram suficientes, ao arrepio da lei, para a acusação dos integrantes do Ministério Público que puseram Lula, a maior liderança petista e popular do país, atrás das grades.

Bolsonaro, tudo indica, considerado o juízo controverso de Moro, governará com uma certeza: estará amparado por seu Ministro da Justiça com a garantia do mesmo direito constitucional da presunção de inocência negado ao ex-presidente preso.

Lula sabia. Bolsonaro “poderia não saber”.

Pequenos detalhes carregam em si potencial necessário para entregar grandes segredos. Verdades discretas, da mesma forma, de tempos em tempos revelam mentiras que sustentam fachadas poderosas, que se pressupõem inatingíveis. A máscara de Moro, nunca muito firme, finalmente caiu.

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