Foto: Mídia NINJA

Atenção: Esse texto não é uma crítica teatral. É um ensaio sobre a minha experiência ao viver um espetáculo. Esse texto não é sobre o que L é tecnicamente, é sobre o que senti.

Eu não me considero do teatro, mas eu cresci dentro de um. Dentro de uns. Filha de ator ativista da cena local, corria nas coxias e conhecia como a palma da minha mão TODOS os três teatros de Cuiabá. Reflexo da parca política pública para as artes, mas um mundo imenso pra pretinha que tropeçava nos cabos e nos contra regras. Crescendo, me tornei fã confessa de musical, esse gênero negado por tanta gente, mas que abriu meu olho para novas estéticas e sonhos. Com essa bagagem, fui ao teatro num domingo à noite no #NovembroNegro, assistir um musical, esperando me conectar de novo com esses mundos.

Das duas mulheres que eu conhecia do elenco, a promessa era de realização.

Elisa Lucinda, poetisa aclamada que acompanho há alguns anos, e das poucas vezes que vi, de uma personalidade avassaladora. E Ellen Oléria, cantora conhecida e reconhecida, nacional e internacionalmente. As duas atrizes negras no palco concretizaram a promessa e meu reencontro com o teatro musical. Não só porque tudo que Elisa fala soa como poesia, ou porque cada nota que Ellen profere é linda, mas porque, juntas, elas me deram esperança.

Veja, eu também sou uma mulher negra. Uma mulher negra que não ama só homens. Que também encontra nos corpos das mulheres paixões e amores. Uma mulher negra, que ama outras mulheres, no Brasil, está perdida. Não só pelos motivos que a youtuber na peça chama atenção das suas tesourinhas na frente da tela – como o estupro corretivo contra as mulheres lésbicas -, mas porque mulheres negras que amam mulheres crescem sem muitas perspectivas.

Não é só a questão fatal, que “numa dessas ainda te matam”, mas porque talvez, até chegar lá, você já esteja morta por dentro. Não de forma física, mas uma morte de imaginário, de pouca vontade de futuro. Apesar de estar na moda, representatividade ainda importa. Importa, porque crescendo todo meu desejo em mulheres era voltado para mulheres brancas. Simplesmente porque não passava pela minha cabeça que mulheres negras ficariam juntas, que elas eram/somos “envolvíveis”.

E o encontro de Elisa e Ellen me trouxe isso. Um amor entre mulheres negras. Melhor, um amor real, não idealizado, cheio de camadas. O amor de Ester e Rute é labiríntico, começa tomado em chamas, gera uma filha de outro pai, se rompe, se vinga, se cruza com outras pernas, passa por ciúmes e rivalidades. É um amor factível, real.

Obviamente não é só delas que vive L. Cada história e atuação constitui esses amores e me vi em todas. Na agonia de um amor recém descoberto e não correspondido de Anne (interpretada por Renata Celidônio), que me quebrou quando disse “Ela me ama, só não sabe ainda”; Tainá Baldez que representava a noiva protagonista do trisal que chocou o Brasil e Elle, a filha-da-discórdia, que me fez sentir inveja da sua atitude e liberdade; Gabriela Correa que como Simone, era a personagem mais distante de mim, mas me apaixonou mesmo assim pelo desafio de vida que enfrentou.

E por fim Luiza Guimarães, que me jogou na infância desde o minuto um, com Xena, uma contra-regra nem tão boazinha assim, e um humor que meu pai me introduziu: quando falamos de comédia é preciso estar atenta. Dela à youtuber, passando por Felipa, até a sua noiva de final de novela, me fez rir – e me preocupar do começo ao fim.

Um salve específico também ao uso da metalinguagem da peça, que ajuda a dar complexidade à história das mulheres no palco. Ora novela, ora reality show, ora youtube, ora peça. Eu da minha cadeira fui transportada a esses cenários, histórias e personagens como se estivesse ali dançando com elas. Dançando as músicas especialmente escolhidas para elas, para nós, com interpretações de Cássia Eller, Maria Gadú e Maria Bethânia.

Ao fim L fala de um amor que dá calores no corpo, calores do tesão e do ódio. Dá frio também, da solidão de um término ou da vingança que se come fria, servida em pontos de audiência ou bilhetes esgotados de um teatro como vemos em umas das cenas.

A mim, mana preta na platéia, só me resta agradecer pela oportunidade de assisti-las e me desculpar pela bagunça daqui de baixo, entre barulhos e cliques.

Por fim, assistam. Não só assistam, mas vivam, leve uma outra mulher preta junto com você. Pois L, o musical, não é só sobre a possibilidade de amor entre mulheres, é sobre a realidade de sermos amadas. L é o nosso musical.

 

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