Qual das duas fotos você prefere?

Fotos: Lucas Aniceto

Vamos ser honestos: Se você já me viu pessoalmente em algum momento você já reparou na minha bunda.

Seja de um jeans marcante, uma legging pregada, um short enfiado, uma saia que insiste em subir ou num maiô descarado, você já reparou na minha bunda. Tudo bem, eu sei que ela chama atenção. Que das vezes é minha característica mais, er, proeminente. E tô de boa com isso. Demorou, mas tô de boa.

Explicando aqui rapidinho porque: bunda pra mulher preta é um assunto sério. É paixão nacional, é propriedade pública, é métrica de sucesso pra muitas de nós. Eu faço parte das mulheres negras que têm bunda grande, ou seja, nascemos com dois caminhos: ou você a aceita e utiliza desde criança para barganhar pelo pouco de atenção que homens estão dispostos a dar. OU você esconde, tampa e foge do arquétipo de puta que sobrou. Qual dos lados da Vênus Negra sou eu?

Se ainda resta dúvida, procure os vídeos da Nátaly Neri onde ela fala sobre como ela vê a bunda dela e como ela já usou roupas para escondê-la.

ENFIM, o ponto aqui é que minha bunda, querendo ou não faz parte da minha identidade.

E minha bunda, chocantemente, não é perfeita. Estrias, manchas, espinhas e tudo que nós mulheres sabemos que rola ali. Além disso anos de “prendendo” a bunda pra caber nas roupas e nos padrões amassaram minha bunda. Se você passa a mão você sente ela plana. É uma parada que eu sou overconsciente, pra mim todo mundo nota que minha bunda não é redonda, empinadinha, é plana. ANYWAY, o formato não é classicamente bonito.

Resumo da obra, crescer sendo a negra de bunda grande, gorda, que chama atenção e tem uma raba imperfeita fez eu ser eu. Tive que lidar com isso e aprender a amar minha bunda real. E é isso, revolucionário e simples ao mesmo tempo.

Chega em dezembro de 2018. 31, último dia desse ano louco. Seguindo a onda da timeline das férias, resolvi que ia fazer foto na praia também. 300 cliques do Lucas Aniceto depois, chegamos a uma seleta das toperz.

Um dos takes favoritos sou eu de raba pra cima. E tava linda. Tava redonda nesse ângulo, tava porra, tarra bem. Tava pra postar.

Mas dai eu olhei de novo e percebi: ESSA NÃO É MINHA BUNDA.

Minha bunda plana agora estava em formato coração.

Editaram minha bunda. Me editaram.

Agora entendam, eu não sou purista. Não tenho nada contra editar sua foto numa parada ou outra. Se não for acabar virando uma pessoa totalmente diferente e vender uma estrutura completamente irreal, vai fundo. Ou cê sabe, se não for pra embranquecer a pessoa, né. Tira sarda, põe sarda. Apaga aquela estria chata, pincel em umas celulites ali… Você continua sendo você, fora da caixinha da Naomi.

Masssssss, não. Na minha bunda não.

É foda, mas naquele momento pensei: essa bunda sou eu. Flashback de tantas frustações, beira de choro, picos de ansiedade porque iam ver minha bunda, tocar na minha bunda e ver que ela não era o que era pra ser, que eu e minha bunda éramos uma farsa. A minha caminhada para me desfazer desse “instinto” cruel e mano, aceitar esse popô G!!!!

É isso, ver ali minha bunda editada me parou. Se eu postasse ninguém ia saber que minha bunda era outra, tava de boa. Mas eu queria? Eu queria que as pessoas conhecessem minha bunda falsa? Dramas cancerianos à parte, a minha pergunta era: se eu demorei tanto pra construir minha autoimagem positivamente, por que quando eu tenho a oportunidade de publicizá-la faria justamente o contrário?

Decidida que ia postar a foto original, nos perguntamos – eu e minha família coletiva que participou desse debate-montanha-russa no meio de uma cozinha na Bahia – mas e outras pessoas? Outras pessoas também tem nóia com a bunda? Se sim, eu queria ouvir.

Manas pretas com certeza. Brancas “desbundadas” também. Homens gays também.

Pra cabá, me diz: O que você sente sobre sua bunda?
Você postaria uma foto da sua bunda falando disso com a tag #Desbunde?

E o mais importante:
E minha bunda tá bonita? 😉

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