Arte: Mídia NINJA

Domingo é um dia peculiar – geralmente marcado pelo marasmo da preguiça, pelos conturbados almoços em família, ou ainda a pela agonia do anúncio de mais uma segunda feira. Ontem ainda era melhoriznho, dia de Primetime Emmy Awards 2017 e o terceiro de Rock In Rio. Grandes notícias no mundo da música e da TV norte americana eram esperadas, mas o que recebemos foi melhor: um BANHO de declarações políticas em defesa das mulheres, dos LGBTS, do meio ambiente e dos indígenas.

Começando pela TV – falar sobre eses temas nunca esteve tão presente nas séries e filmes para televisão como estão hoje. E isso ficou escancarado na premiação – House of Cards, Stranger Things e Westworld são os favoritos das maratonas, mas saíram de mão abanando, por exemplo.

Os negros estrelaram: Lena Waithe foi a primeira mulher negra a ganhar melhor roteiro de comédia e Donald Glover foi o primeiro diretor negro a vencer na categoria de comédia. Vocês leram bem: uma preta lésbica e um jovem preto levaram prêmios de roteiro e direção no audiovisual dos Estados Unidos. Em outro grande grande momento da noite, Rupaul, top drag queen negra, foi homenageada.

A outra queridinha da noite, The Handmaid’s Tale deu a Elisabeth Moss um dos prêmios mais esperadas, melhor atriz em drama. O evento todo começou com uma referência a elas inclusive, com um grupo de bailarinas vestidas com o figurino da série: capa vermelha e chapéus brancos. Vestimenta também usada por ativistas feministas nas ruas dos Estados Unidos.Teve feminismo também: Uma das mais aclamadas da noite foi Big Little Lies, uma série de que dá luz a opressões sofridas pelas mulheres. Nicole Kidman levou melhor atriz por interpretar Celeste, uma advogada bem sucedida que é sucessivamente abusada fisicamente por seu marido. Fez um discurso ressaltando isso e (apesar de simplificar a questão chamando de “doença”), ressaltando a gravidade do problema da violência contra mulher em nossa sociedade.

Foto: Frederic J. Brown / AFP

LGBTS, mulheres, pretos e pautas políticas seguem na lista: Kate McKinnon, lésbica assumida, levou melhor atriz coadjuvante em comédia. Reed Morano foi a primeira mulher a vencer como diretora em 22 anos. Stephen Colbert, conhecido pelas críticas políticas, foi mestre de cerimônias. Sterling K. Brown ganhou melhor ator em série dramática por ‘This is us’. Black Mirror entrou na lista de vencedores com um episódio que retrata o amor de duas mulheres através do tempo. SNL, Big Little Lies e Handmaid’s Tale foram grandes shows da noite abordam o feminismo e política.

Estou até considerando os prêmios que foram para homens brancos cis héteros – Alec Bawdin levou a estatueta de melhor ator representando principalmente Donald Trump em SNLmostra várias vezes um líder preconceituoso e limitado. Ou seja, como ele realmente é. Essa não foi a única vez que ele foi mencionado – o 45º presidente dos Estados Unidos foi o alvo favorito das piadas da noite.

Estão chamando esse de o Emmy mais politizado até então. Eu chamo de Emmy mais conectado a realidade – negros, mulheres e LGBT sempre existiram, resistiram e produziram arte de alta qualidade.

Agradecemos aos prêmios, mas não tenham dúvida: se a cerimônia não acompanha os desejos e lutas, nós ocupamos.

E foi assim no Brasil também…

Que o Rock In Rio seria tomado já era de se esperar – não só pelos inúmeros Fora Temer gritados (mais um dia, mais uma vergonha né Michel?), mas exemplos como Pabllo Vittar, a drag queen com mais views no youtube do mundo, ter sido convidada por Fergie para dar o ar da graça na nossa cara. Até aí era previsível, sempre coube sempre ao pop representar os LGBT e as mulheres, se engajando estética e politicamente com os direitos humanos, mesmo que Katty Perry insista em nadar contra a corrente quando lança um clipe gordofóbico, racista e homofóbico, por exemplo.

Mas era um domingo histórico e as gay continuaram com as cenas icônicas. O impacto estava anunciado antes do show: Liniker postou uma foto mais cedo onde ostentava brincos com os dizeres Fora Temer. A resposta reacionária veio na hora, explicitando o porquê é necessário que artistas LGBT estejam nos palcos. Johnny Hooker, cantor gay nordestino, fez seu show na tarde do terceiro dia do Rock In Rio, convidando a Liniker, pessoa não-binária, de Araraquara e, com os dizeres “Amar sem Temer” nos telões atrás, se beijaram, manifestando pelos direitos e pela liberdade sexual da população LGBT. “Ninguém vai poder nos dizer como amar”, bradaram.

Foto: Fábio Tito

A falta de talento foi a desculpa para descredibilizar a apresentação de Johnny Hooker e Liniker, acusados de terem feito isso para chamar atenção, mas o mesmo nunca poderia ser dito sobre Alicia Keys.

Considerado um dos melhores shows do evento até agora, a nova yorkina apresentou ao público brasileiro o que parece ser um dos seus auges musicais, estéticos e políticos. Em meio ao seu show, apresentou Kill Your Mama, onde não só Preto da Serrinha tocava, mas também antecedeu o discurso da liderança indígena Sônia Guajajara, que alertou o mundo sobre a guerra contra a Amazônia em curso no país.

Sônia mostrou no palco porque tem tanto respeito dos povos indígenas no Brasil. O recado foi claro – a pressão contra os senadores pelo fim do decreto que extingue a Renca (Reserva Mineral de Cobre e seus Associados) será real. É, como ela mesma disse, a mãe de todas a lutas, pela Amazônia e por Demarcação Já. Ainda em sua apresentação, Alicia chamou Dream Team do Passinho ao palco, afinal quanto mais preto, jovem e periféricos no palco melhor.

Lembrando que isso tudo aconteceu no RIR,  o tipo de evento que na próxima semana recebe Aerosmith, Bon Jovi, Guns n Roses.

Todos nós sabemos apreciar clássicos, mas esse line up prova que, enquanto os festivais ainda se pautarem em lógicas antigas, vamos tomar os palcos de assalto. Até mesmo Anitta, que inexplicavelmente ficou de fora, respondeu a altura: se não tem festival que a caiba, ela mesma produzirá um sem preconceitos com ritmos, como anunciou.

Com uma tacada só, o domingo cutucou a branquitude, os LGBTfóbicos, machistas, ruralistas, reaças e coxinhas. E se depender de nós, todos eles terão mais ainda o que reclamar daqui pra frente. O dia de ontem não só foi um salve estético, um grito sufocado das minorias ou uma foto bombada no instagram. Ontem, ao vivo no multishow, no TNT, no Rio de Janeiro, na Califórnia e na massiva quantidade de tweets que garantiram um Trending Topics diverso, vimos atos políticos.

Não há retorno, não há plano B. Estamos tomando a boca.

OBs: Menção honrosa ao magnífico show de Elza Soares, que não foi ontem, mas continua com um grande poder de cura para todas as mulheres negras quando sobe aos palcos.

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