Foto: Wikimedia Commons

O ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente), aquele mesmo que se situa na intersecção entre os que integram o núcleo dos olavetes lunáticos (Vélez/Weintraub, Damares, Ernesto) do governo e o núcleo dos que detém o mínimo de inteligência, mas nenhum pingo de decência e caráter (Moro, Guedes), em visita ao Acre nesta semana que passou, foi farto ao proferir acusações e ataques a quem considera adversários de seus aliados locais.

Ele, que já havia questionado, meses atrás, a “relevância” de Chico Mendes para o ambientalismo, ao visitar um ponto de despejo de esgoto in natura no Rio Acre, na região central de Rio Branco (um problema deixado por nossos governos, hei de confessar), disparou: “uma administração que permaneceu no poder do Estado por vinte anos, que teve uma representante que se diz o grande ícone da defesa do Meio Ambiente (…) deixou o Estado nesta situação vergonhosa que nós estamos assistindo aqui.”

O Ministro também teria afirmado que “a florestania defendida e aplicada por aqui foi uma fraude”, alegando tratar-se de “um projeto ideológico petista”. Salles também fez questão de emitir opinião sobre o Parque da Maternidade, ao qual avaliou negativamente: “minha nota é zero para este projeto”.

Paradoxalmente às suas declarações, o ministro fez questão de visitar e fazer fotografias em um dos pontos da Reserva Extrativista Chico Mendes (Resex Chico Mendes), na Comunidade Porongaba, município de Epitaciolândia.

A área visitada pelo ministro é a área de abrangência da Associação de Moradores e Produtores da Resex Chico Mendes em Brasiléia e Epitaciolândia – AMOPREB. A mesma associação cujo presidente me confidenciou, uma semana antes, que está há três meses tentando uma simples reunião com o secretário de Produção do Estado do Acre, Paulo Wadt, e não consegue. Não é de se estranhar: o lema do atual governo, na área de produção agrícola, é o agronegócio, do latifúndio e dos grandes proprietários de terra, em detrimento da agricultura familiar, dos pequenos produtores rurais.

O ministro falastrão deveria saber que as Resex’s, enquanto espécies do gênero Unidades de Conservação (UC’s), só foram criadas a partir da (e graças a) luta de pessoas como Chico Mendes, Marina Silva e tantos outros. Deveria saber que, na área que corresponde a atual Resex, na época do governo do tio do atual governador, não havia nenhuma escola pública sequer. Que foi graças a luta de Chico Mendes e de um “floresteiro” chamado Arnóbio Marques de Almeida Júnior (mais conhecido como Binho Marques, eleito, décadas depois, governador do Acre) que foram criadas 39 escolas no interior dessa região.

O ministro também deveria saber que somente a partir da eleição dos governos progressistas e de esquerda, os quais ele ataca hoje, é que essa “rede paralela” de escolas – situadas no meio da floresta – foi incorporada à rede pública estadual de educação básica, passando a contar com a atenção e o financiamento público.

Se tivesse mais interesse pela história do Acre e de sua gente, o ministro saberia que tais escolas só funcionavam graças aos recursos de cooperação internacional, essa mesma que o senador Márcio Bittar fez questão de atacar.

A propósito, o senador teria afirmado, dias antes da visita do ministro Salles ao Acre, que o Fundo Amazônia teria sido criado para impedir o desenvolvimento da Amazônia brasileira. Segundo Bittar, a iniciativa, custeada com recursos da Noruega e da Alemanha, é um escândalo: convênios assinados com as secretarias municipais e estaduais de meio ambiente dos estados amazônicos teriam por finalidade que esses órgãos passassem a ser “correia de transmissão” dos interesses estrangeiros no Brasil.

O senador acusou tanto a Noruega quanto a Alemanha de tentarem determinar o que o Brasil pode e não pode fazer na Amazônia, violando a soberania nacional. Para ele, os países mantenedores do Fundo pagam os estados amazônicos para que a região se mantenha no atraso.

Ao que parece, o senador ignora o fato de que, se não fossem os recursos do Fundo Amazônia, não haveria financiamento para políticas, programas e projetos de desenvolvimento, crescimento econômico, geração de emprego, distribuição de renda, redução das desigualdades e promoção da inclusão social de seringueiros, ribeirinhos, extrativistas, colonos e indígenas. Isso porque o governo brasileiro não disponibiliza outras fontes de recursos para tais políticas.

A verdade – essa mesma, que incomoda, mas que sempre prevalece – é que a população dessas regiões era completamente ignorada pelos governos dos aliados dos que hoje governam o Acre e o Brasil (seus aliados, portanto, ministro). As populações das áreas que hoje integram a Resex Chico Mendes – e de tantas outras regiões da zona rural dos municípios acreanos – eram completamente desprovidas da oferta de serviços públicos, não só na área de educação, mas de toda e qualquer sorte de serviços públicos cuja oferta, pelo estado, é obrigatória.

Um ministro que foi responsável pela liberação de 239 agrotóxicos em um período de 6 meses, que já passaram a contaminar a comida que vai à nossa mesa e, via de conseqüência, a prejudicar a saúde de milhões de brasileiros; que já foi processado, julgado e condenado por fraude ambiental, dentre outros absurdos para alguém que comanda a pasta do Meio Ambiente, não detém envergadura moral e ética nenhuma para falar sobre o que quer que seja em se tratando de política ambiental, muito menos de saneamento ambiental integrado (conceito sobre o qual ele não deve ter nenhum conhecimento).

Essa mistura do inculto com a maledicência, que caracteriza as posturas do ministro Salles e da maioria de seus colegas de Esplanada é o combustível desse governo obscurantista, de ode ao grotesco, de apologia à ignorância. É o governo das bravatas, dos arroubos de autoritarismo, das firulas e do supérfluo, em detrimento dos assuntos relevantes. Dos falsos heróis dos pés de barro, dos salvadores da pátria mancomunados com milícias, laranjas e traficantes de drogas. O Acre e o Brasil não merecem esse tipo de gente.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Felipe Milanez

Assassinato de indigenista da Funai na Amazônia precisa de investigação federal

Mônica Horta

Moda democrática e o novo mundo

Estudantes NINJA

O Brasil está em chamas e a rua te chama

Benedita da Silva

Benedita da Silva: Bolsonaro imita Nero

André Barros

Não se combate o tráfico na favela

NINJA

Toninho Geraes: “Sou a favor do grito de liberdade contra essa tirania que assola o país”

NINJA

O escândalo das eleições gerais em Trinidad & Tobago

NINJA

“Precisamos ter voz para acabar com essa onda da extrema direita”, alerta Teresa Cristina

NINJA

Feminismo nas igrejas: "não queremos tomar o poder dos homens, mas destituí-lo"

Liana Cirne Lins

Brasil abaixo de fezes, cocô por cima de todos

Estudantes NINJA

Um (quase) final de ano de tantos retrocessos

NINJA

“Não colem em mim esse discurso da meritocracia”, diz Conceição Evaristo

Preta Rara

A senzala moderna é o quartinho da empregada

NINJA

A criminalização do aborto e o feminicídio de Estado

NINJA

“O samba é a coisa mais importante na cultura brasileira”, ressalta Zé Luiz do Império