Foto: Michael Wesely / Revista Zum

No dia 9 de novembro deste ano será o aniversário de 28 anos da queda do Muro de Berlim. Nesses tempos em que se discute a reforma política no Congresso Nacional, em que não se consegue distinguir a posição da maioria dos partidos, senão mediante a aplicação de uma racionalidade instrumental que leva os atuais parlamentares a legislar em causa própria, escolhendo modelos e sistemas que assegurem ou, ao menos, aumentem a probabilidade de seus retornos ao parlamento em 2018, será que ainda existe diferença entre direita e esquerda no mundo? Sim. E, mais do que em outros períodos, ela se tornou latente aqui no Brasil nesses últimos tempos, pós-Impeachment.

No plano da vida individual, segundo a visão (conservadora) da direita brasileira – e porque não dizer do pensamento de direita de uma forma geral – quem não progrediu na vida é porque não teve mérito: ou porque não se esforçou ou não se dedicou o suficiente ou porque não detém os atributos naturais (talento, inteligência etc) necessários para tanto. É a tal da meritocracia, um dos cernes do pensamento liberal (ou neoliberal) de direita.

Para aqueles que compartilham do pensamento e da visão de mundo (progressista) de esquerda, se alguém não progrediu na vida, não é necessariamente porque não se esforçou ou porque não tem talento. Em muitos casos, é porque não teve as mesmas OPORTUNIDADES que os demais.

É por isso que governos têm papel decisivo no desenvolvimento social de um povo. Políticas públicas e programas governamentais que geram oportunidades para os hipossuficientes e desvalidos promovem inclusão social e ajudam a reduzir as desigualdades. Porque sempre haverá desigualdades enquanto o mundo e a sociedade estiverem organizados dessa forma. Mas, a distância entre os que têm, podem e sabem mais para aqueles que têm, podem e sabem menos não precisa ter a profundidade de um oceano…

Isso não é ser paternalista, comunista, socialista, bolivariano, chavista ou castrista. Isso se chama solidariedade e compreensão do mundo a partir das necessidades do ser humano e não a partir das exigências do mercado. E solidariedade não se pratica somente nas “Campanhas do Agasalho” ou com doações ao “Criança Esperança” ou ao “TeleTon”…

A meritocracia é importante. Mas a isonomia, a igualdade complexa, é muito mais. Mais importante até do que a igualdade formal perante a lei. Porque, segundo a Constituição, todos são iguais perante a lei. Mas, a mesma doutrina constitucional nos ensina que devemos tratar desigualmente os desiguais, na medida de suas desigualdades.

No plano da economia, essas distintas visões de mundo podem se traduzir no duelo entre “monetaristas Vs. desenvolvimentistas”, da seguinte forma: de um lado, a crença inveterada no mercado e em sua capacidade auto-suficiente de suprir as necessidades da sociedade a partir da clássica lei da oferta e da procura e demais postulados e axiomas econômicos. Desse mesmo lado, a crença de que o Estado não deve interferir nessa relação e, portanto, deve assumir papel coadjuvante e, por vezes, até se retirar dela por completo.

De outro lado, a crença de que, no tocante a economia, o Estado tem um papel tríplice: assegurar o exercício dos direitos sociais por meio da oferta de serviços públicos básicos de qualidade para todos; induzir o desenvolvimento, através de estímulos e incentivos à iniciativa privada; tributar, regular e impor limites ao mercado, para inibir a autofagia típica dos períodos mais selvagens do capitalismo.

Do lado dos monetaristas, de direita, conquanto as riquezas estejam sendo geradas e os tributos estejam sendo recolhidos, ingressando nos cofres do Estado, não importa a distribuição disso. Estão mais preocupados com a estabilidade dos fundamentos da macro-economia, com a estabilidade da moeda, da bolsa de valores, do mercado de capitais, com os rentistas e financistas (daí a expressão, “monetaristas”), do que com qualquer outra coisa. Já do lado dos desenvolvimentistas, de esquerda, podemos até suportar um crescimento econômico menor, conquanto o pouco que cresça seja melhor distribuído entre todos.

Nossa preocupação é se o resultado do crescimento econômico e das políticas públicas que dele decorrem está a serviço da democracia social (crescimento econômico com geração de emprego e distribuição de renda). O que defendemos é um modelo de desenvolvimento que seja economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto.

Já no plano da política, o duelo entre direita e esquerda pode se traduzir na expressão “liberais Vs. socialistas”. Segundo o pensamento ortodoxo de direita, democracia se exerce nas urnas, no modelo clássico de representação. Já segundo o pensamento de esquerda, a democracia representativa é sim muito importante e não podemos prescindir dela. Mas, não é suficiente. Há que se lançar mão da democracia direta, participativa, por intermédio de múltiplos e diversos canais de participação popular e exercício do controle social sobre a atividade pública.

Depois da queda do Muro de Berlim, a ordem bipolar da Guerra Fria ruiu junto com ele. Os sistemas internacionais e o sistema mundo que advieram depois disso traduzem uma ordem multipolar, plural e complexa. Mas, a distinção entre esquerda e direita ainda persiste…

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Isa Penna

Their time's up – O Tempo Deles Acabou
Ver agora

Dríade Aguiar

Quando Oprah faz um discurso pra você
Ver agora

Isa Penna

Isa Penna: 2018 sem medo de começar uma nova história
Ver agora

Preta Rara

Preta Rara: Diário da PesaDona
Ver agora

Pastor Ariovaldo

Pastor Ariovaldo: Dom Paulo na luta pelos direitos humanos no Brasil
Ver agora

Ivana Bentes

Quem não precisa do feminismo?
Ver agora

Jandira Feghali

Jandira Feghali: Julgamento de Lula precisa ser suspenso
Ver agora

Manoela Miklos

Todo homem precisa de uma mãe
Ver agora

Margarida Salomão

O golpe do satélite e a conta do cidadão
Ver agora

Pastor Ariovaldo

Pastor Ariovaldo: Feliz Natal
Ver agora

Vinícius Lima

Quem vive na rua com alguém vive melhor
Ver agora

Maria do Rosário

Greve de fome contra os que devoram a previdência num banquete
Ver agora

Margarida Salomão

Em desagravo à Universidade pública brasileira
Ver agora

Sâmia Bomfim

Sâmia Bomfim: Hospital Universitário da USP sob ameaça
Ver agora

Ivana Bentes

O Feminino Viril!
Ver agora