Foto: Daniel Marenco

(com colaboração de Itamar de Sá, Ermício Sena, Francisco Nepomuceno e Evilásio Santos)

Diante dos últimas reportagens publicadas pelo jornal investigativo The Intercept Brasil; do controverso desempenho do ministro Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública) em oitiva na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal; e pela apresentação de evidências que comprovam a contratação, por empresários brasileiros, de disparos ilegais em massa de fake news, realizados por intermédio do aplicativo WhatsApp, pagos ilicitamente com recursos oriundos de caixa 2 eleitoral, durante a campanha de Jair Bolsonaro (PSL) – evidências estas noticiadas pelo jornal Folha de São Paulo, em reportagens da jornalista Patrícia Campos Mello – uma perigosa narrativa começa a tomar conta das redes sociais e de determinada fração dos veículos de mass media.

Movida por um verdadeiro exército de robôs, trolls, bots, perfis fakes e haters em geral, a milícia digital de Bolsonaro toma as dores de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol e começa a disseminar a história de que as reportagens do jornal The Intercept Brasil e da Folha de São Paulo fazem parte de uma suposta “estratégia” segundo a qual a esquerda (corrupta) teria se aliado aos russos (donos do Telegram – concorrente do Whatssapp – e adversários históricos dos EUA, de quem o Brasil é aliado) para desmoralizar a Operação Lava-jato, tentando macular seus processos de nulidade, anular seus julgamentos, libertar Lula e sustar o processo de “limpeza” da nação.

Essa “desculpa” utilizada pelo séquito de fanáticos apoiadores de Bolsonaro para os graves desvios de conduta e ilegalidades supostamente cometidas por Sérgio Moro e Deltan Dallagnol – a de que a esquerda, em especial o PT, estariam se esforçando ao máximo para sangrar a luta contra a corrupção – aproximam a direita da máxima maquiavélica segundo a qual os fins justificam os meios. Em verdade, isso foi tudo o que sobrou a eles. Do ponto de vista político, dialogam com a manada de idiotas que os apoiam e, do ponto de vista moral, tentam vender a ideia de que tudo o que fizeram, dentro ou fora da lei, foi para livrar o país de um mal maior.

Por outro lado, Moro e Dallagnol apanham mais do que cachorro de índio nas redes sociais. Até parcelas consideráveis dos veículos de mass media, outrora responsáveis pela criação da aura de “heróis” para aqueles sobre os quais repousam fortes indícios do cometimento de graves ilegalidades, já começam a débâcle. Tal postura ainda está restrita a um universo de analistas, jornalistas e políticos, os ditos “formadores” de opinião que já não formam tanta opinião assim, dada a força da indústria de fake news alimentada por essa mesma grande mídia e pela já citada milícia digital. Mas, trata-se de uma posição que tem ganhado adeptos ao longo das últimas semanas desde a divulgação da primeira reportagem da série intitulada “As mensagens secretas da Lava-jato”.

Além disso, é verdade que, diante de fatos muito graves, até a tática da manipulação da notícia – e via de consequência, da opinião pública – vai, aos poucos, perdendo força. O fato de estarem adotando a narrativa fundada na máxima maquiavélica de que os fins justificam os meios, aliada a tentativa de descredibilizar o veículo e seus jornalistas, bem como de relativizar o princípio da liberdade de imprensa e do sigilo de suas fontes é ótimo para revelar sua falta de ética, de robustez moral e de compromisso com a legalidade. Em primeiro lugar, porque isso demonstra que estão na defensiva; em segundo lugar porque, ao tentar justificar os erros cometidos, demonstra que já admitiram o seu cometimento. E o fazem com o mais rasteiro dos argumentos. Segundo as teorias da argumentação, já não sobraria mais muita coisa a que eles recorrerem. A julgar pelo alegado volume de conteúdos ainda não revelados, quando estes vierem à tona, será uma questão de tempo até os envolvidos sucumbirem.

Se, diante dessa hipótese, isso vai resultar em uma medida antidemocrática, é uma possibilidade a ser considerada. A revelação do estado de putrefação das entranhas lava-jatistas da Cidadela de Curitiba, aliadas ao laranjal do PSL, aos funcionários fantasmas da família Bolsonaro (já chegam a 17 os parentes da ex-esposa do presidente, cuja contratação, nos gabinetes dos filhos, já foi comprovada), ao envolvimento destes com milícias, ao sumiço de Queiroz e seus milhões em “micheques”, aliado ao pífio desempenho do governo até o momento, não surpreenderia se Bolsonaro ousasse apelar para o fechamento do STF e para a dissolução do Congresso Nacional, arguindo que o seu insucesso se dá em virtude das “amarras” impostas por tais instituições aos seus desígnios de fazer o Brasil crescer, e não em sua completa e indisfarçada incapacidade de promover o bem comum.

O horizonte do país tem, portanto, cor de cinza e gosto de chumbo.

Se a economia piorar muito nos próximos meses, a ponto de roubar mais e mais empregos, precarizar saúde, segurança, educação etc, a ponto de criar um sentimento anti-bolsonarista dentro da fatia da população que apoia o governo, poderemos ser testemunhas de um desastre para a democracia. É preciso que as forças democráticas do país, tanto da esquerda, quanto da direita e do centro, estejam atentas e vigilantes para impedir, tanto o flerte, quanto a concretização de tal hipótese.

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