Foto: Mídia NINJA

Por Ariel Cahen

Luiz Inácio da Silva cometeu um crime e não será perdoado. Está condenado em segunda instância, por três votos a zero, pelo Tribunal Regional Federal da 4ª região. É essa a pena atribuída aos obstinados que ousam desafiar a própria sina. E vencer.
A história por trás da mais expressiva liderança política e popular do século XXI é sua maior aliada – e também a mais viva representação de sua transgressão.

Quem nasce pobre é como gado. Vive marcado. E a travessia do abismo que separa o pau-de-arara que o levou a São Paulo do rolls-royce que o conduziu ao Planalto cobra seu preço.

Lula é a personificação do improvável. Um milagre da democracia e do cansaço. Da exaustão de um povo explorado, vítima de sua própria história. É o escravo que ascendeu ao senhorio. Um brasileiro ordinário, sobrevivente da seca e da fome, que se tornou o símbolo de esperança de uma nação em frangalhos.

Eleito presidente após três tentativas frustradas pela mesma perversidade que hoje o condena, Luiz Inácio restava, à época, uma vez mais fadado ao fracasso – como esteve em outros tempos, enfrentando a miséria do semiárido pernambucano ou engraxando sapatos no centro de Santos. Era um intruso. Um mal-estar passageiro. Uma figura excêntrica tolerável, mas que jamais seria aceita como um par pela corte, por aqueles que sempre deram as cartas.

O velho hábito de contrariar suas chances, no entanto, sempre foi decisivo na trajetória de Lula. E em oito anos de governo ele fez o que ninguém imaginava.

Promoveu transformações sociais sem precedentes, reduzindo em 50,6% a pobreza e tirando cerca de 28 milhões de pessoas da situação de miséria. A fome, que assombrou sua infância, foi fortemente combatida nesse período – e erradicada quatro anos mais tarde, durante o governo de sua sucessora Dilma Rousseff, tirando o Brasil do mapa da fome da Organização das Nações Unidas (ONU).

Sem formação acadêmica em seu currículo, Lula abriu 14 universidades federais, 126 novos campi e 214 escolas técnicas, além de oferecer a 750 mil estudantes a oportunidade de cursar ensino superior gratuitamente por meio do ProUni – programa de subsídio estudantil criado durante sua gestão.

Em apenas dois anos, o presidente operário quitou a dívida brasileira com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e, ao final de seu segundo mandato, elevou o Brasil da 13ª à 7ª maior economia do mundo, com reservas internacionais superiores a US$ 250 bilhões.

A classe trabalhadora, que deu a Lula sustentação e legitimidade em sua ascensão à vida pública nos tempos de sindicalista, viu o desemprego cair de 11% para 6% a partir da criação de 15 milhões de empregos formais e o salário mínimo saltar de R$ 200 para R$ 550 após sucessivos aumentos com ganhos reais – não meras recomposições inflacionárias.

O sonho da casa própria, que um dia foi seu, levou Lula a criar o maior programa habitacional da história do Brasil, garantindo abrigo a um milhão de famílias brasileiras durante seu governo. O acesso a iluminação artificial, restrito ou inexistente em grande parte do país, também foi plenamente concretizado. E a água doce e redentora do São Francisco, tão sonhada, passou a correr pelas novas veias do nordeste.

Esses e outros avanços transformaram Lula em uma referência. Uma liderança de projeção mundial.

Não por acaso, quando deixou a presidência em 31 de dezembro de 2010 sustentava o índice histórico e inédito de 87% de aprovação. “O político mais popular da Terra”, segundo o então presidente americano Barack Obama.

Apesar dos indicadores inquestionáveis, das conquistas e do respeito acumulado ao longo de sua caminhada, o sucesso do Governo Lula e eleições consecutivas do seu Partido dos Trabalhadores (PT) fizeram transbordar em parte da casta dominante instintos primitivos de ódio e preconceito que pareciam ter ficado para trás. O retirante nordestino tinha ido longe demais. Seu sucesso era uma afronta. A redução da desigualdade que encurtou a distância entre os leprosos e os privilegiados era inaceitável.

Estava claro para a elite brasileira e para a nova classe média viajante e consumidora, a partir da reeleição de Dilma, que o retorno ao poder no Brasil, através do voto, era improvável.

Insufladas pela imprensa, por movimentos conservadores de origem partidária, por discursos demagogos de combate à corrupção e pela própria ignorância, alienação e hipocrisia, milhões de pessoas foram às ruas para dar amparo a uma injustificável ruptura democrática consolidada em agosto de 2016 com o impeachment da primeira mulher presidente do país.

Além do massacre da democracia, o desejo visceral de vingança contra Lula e o PT motivou repetidas agressões ao Estado de Direito. Desnudou a fragilidade das instituições e o oportunismo daqueles que se opõem ao seu legado e negam sua história. Lançou luz à covardia travestida de justiça.

O ódio de classes encarnado em Lula mostrou-se irascível, raivoso. Uma doença social e política. Síndrome de vira-lata com pedigree.

A corrupção, suposta responsável pela cólera dos abastados, segue mais viva e explícita do que nunca enquanto a ala protestante aposenta o manto verde-amarelo e silencia as panelas que batiam em nome da moralidade.

A seletividade e relativização da justiça escancaram um processo perigoso de retrocesso dos direitos civis e constitucionais, publicamente desrespeitados por aqueles que deveriam defende-los. Na caçada a Lula, pode tudo.

São flagrantes os excessos. A depredação moral. Os constantes atentados à reputação por meio da espetacularização de denúncias sem efetiva comprovação. A perseguição midiática e a ditadura da opinião.

A grita diante de cada acusação frente ao silêncio com que crimes cometidos por outros agentes políticos, historicamente protegidos, são acobertados, aceitos e até mesmo defendidos, sem nenhum pudor.

Depois de 13 anos, ironicamente, a velha dinastia parasitária conseguiu, enfim, retomar o poder pela porta dos fundos, através de atalhos sórdidos e vexatórios. E quer, a todo custo, desconstruir a imagem daquele que é e sempre foi sua maior ameaça. Minar a obstinação de Lula, incriminar e manchar sua trajetória para que, aos 72 anos de idade, ele não volte a ousar e desafiar sua sina.

Afinal, quem nasce pobre é como gado. Deve ser preso, pois não sabe seu lugar.

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