Foto: Sérgio Vale

por Francisco Piyãko

Estamos no século 21, porém, o que o governo brasileiro hoje está questionando e botando em pauta é do século passado. É como se estivesse anulando tudo o que se avançou, tudo que se conquistou até aqui e a partir de agora fosse recomeçar tudo. Não cabe este pensamento.

Essa ameaça não é só ao povos indígenas, é um ataque à Amazônia, às florestas e aos conhecimentos. É um ataque à história do Brasil. É uma tentativa de desconstruir um povo que conseguiu se libertar. Com isso, querendo retomar um sistema de mão de obra barata, de domínio cultural, de extermínio, de desrespeito e destruindo os avanços.

Dados do Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil, lançado no fim de 2018, com dados de 2017, mostra o aumento da violência contra nós, de forma sistêmica e contínua.

Este trabalho, realizado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), aponta a gravidade dos ataques a nós. Foram 128 casos de suicídio, 110 de assassinato e 702 casos de mortalidade infantil. Números que apontam a ausência de um Estado, que por força da Constituição, deveria agir com rigor.

Acredito, muito, que a sociedade hoje está com mais capacidade de enfrentar e resistir de uma maneira organizada, coletiva e agir pelo país.

A história moderna deste país viveu um primeiro momento no qual os povos indígenas se mobilizaram e se unificaram, em um movimento, para lutar por direitos. Para serem reconhecidos enquanto povos, ter direito à terra, direito à proteção pelo estado, à saúde, educação, direito a ser livre e não tutelado. Estamos garantidos e protegidos por leis, que foram duramente conquistadas para a Constituição de 1988.

A partir disso, fomos trabalhar para estruturar políticas que atendessem os povos indígenas e avançamos bastante, apesar de muita coisa ainda não ser cumprida pelo estado. Temos um povo que se sente livre para expressar sua cultura, continuar lutando e decidir aquilo que quer para sua vida.

Nós fizemos também alguns movimentos locais, a partir das conquistas nacionais. Foram políticas públicas que atenderam e respeitaram nossos direitos, como a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental. Fizemos os planos de gestão territorial nas aldeias, buscamos estratégias de fortalecer nossa cultura e tradição.

No Acre, fomos uma referência para o Brasil. Aqui, os povos indígenas passaram a ter um lugar de respeito no Estado, enquanto governo, e perante o restante da sociedade, a partir dos encontros de cultura e festivais, que apresentaram um povo que vivia escondido nas sombras e ninguém conhecia. Nós, povos indígenas, temos muita honra de sermos acreanos.

Conseguimos uma identidade própria e, apesar das ameaças de agora, não corremos risco de desaparecer.

A mobilização própria de cada povo, respeitada e fortalecida, é uma armadura contra os ataques constantes. Hoje sabemos o que fazer para garantir nossos direitos.

Precisamos agora entender que este tempo, em que os índios se escondiam e corriam com medo, de um canto para o outro, ou teriam que deixar de ser índio para ser gente, que teriam que estar batizados e pertencerem a uma religião, ou a um patrão, passou. Estamos livres e vamos manter esta liberdade a partir do que já construímos até aqui.

Estamos em um contexto muito diferente, conseguimos nos colocar de uma maneira que ninguém tira mais nossa identidade. Agora, pensamos uma relação a partir da diversidade dos povos, da diferença de culturas e da união.

Temos 500 anos de resistência, isto que passa pelo Brasil é um alerta para seguir as conquistas. Vamos para a luta pelo tempo que for necessário. Nosso grande sonho é viver em nossas aldeias, com paz.

Francisco Piyãko é uma das lideranças do povo Ashaninka, no Acre, ex-Secretário dos Povos Indígenas do Acre e ex-assessor da presidência da Funai.

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